Marina SenaVictor Chapetta / Brazil News
Segundo ela, esse desconforto vinha de vários lugares ao mesmo tempo: da personalidade desinibida, da relação com o corpo e da forma como lidava com a própria sexualidade. “Eu não tenho muitos medos, muita vergonha. Eu não sinto muita vergonha de nada, eu sou meio sem vergonha”, afirmou. Em seguida, explicou que nunca se preocupou demais em controlar a maneira como ocupava o espaço. “Eu não tô me preocupando com como meu corpo tá quando eu tô agindo. Eu tô simplesmente jogando meu corpo no mundo.”
E esse tipo de atitude, segundo Marina, entrava em choque com o ambiente em que cresceu. “No interior, como a gente tá sempre num ambiente muito familiar, o que se espera do outro é sempre aquilo que já se espera. Então você agir fora do que esperam foge do controle. E eu estava o tempo todo fugindo desse controle.”
A conversa foi para a terapia logo depois. Marina disse que quis fazer análise desde nova, não porque estivesse em crise, mas porque queria se entender melhor. “Eu sempre quis fazer terapia desde criança, adolescente. Não por causa de um problema em si, mas porque eu queria entender a minha própria cabeça e os motivos dos meus comportamentos.” Para ela, a busca nunca foi para se condenar, pelo contrário. “Não é para me demonizar, mas para compreender e aprender a lidar comigo mesma.”
A música entra nessa história muito antes da carreira, logo quando Marina descreveu a menina que passava horas no quarto com um caderno na mão, ouvindo CDs e decorando letras. “Todo mundo respeitava meu momento em casa. Se eu entrasse no quarto, ligasse o som com o meu caderninho de letras, ninguém abria nem a porta. Era tipo assim: ‘É o momento dela’.” A mãe se surpreendia quando ela aparecia cantando músicas difíceis que tinha aprendido sozinha. “Minha mãe falava: ‘Meu Deus, onde que essa menina aprendeu essa música?’”
Ela contou que teve fases muito marcadas na adolescência, de Avril Lavigne a Rebeldes, mas disse que os clássicos da MPB sempre ficaram com ela, e continuam até hoje. Mais importante do que isso era a certeza de que seria artista. “Eu sabia que eu ia ficar famosa desde o dia que eu nasci”, disse. “Eu nunca tive aquele momento da adolescência de falar: ‘Ai, o que que eu vou fazer da vida?’. Eu nunca me perguntei isso. Eu sempre soube que eu ia ser.” E completou: “Eu nem falava assim: ‘Ah, eu vou ser cantora’. Eu falava: ‘Eu sou cantora’. Só faltava o mundo descobrir.”
A mãe da cantora acreditava nisso e chegou a levá-la a uma agência em Belo Horizonte. O pai também fazia promessas de que a levaria a São Paulo, ao Raul Gil, a qualquer lugar que pudesse abrir uma porta, embora a família não tivesse dinheiro para isso. A mudança só aconteceu, de fato, quando Marina saiu de Taiobeiras e foi para Montes Claros. Ali, segundo ela, começou outra fase. “A Marina que saiu de Taiobeiras e a Marina que chegou em Montes Claros são duas pessoas completamente diferentes.”
Em Taiobeiras, ela disse que vivia mais reprimida. “Eu nunca tinha usado uma blusa que mostrasse minha barriga. Eu só andava tapada. Eu usava maiô, não usava nem biquíni.” Em Montes Claros, decidiu inverter isso. “A primeira coisa que eu fiz foi colocar uma calça aqui, baixíssima, uma blusa aqui. Falei: ‘Não, agora eu vou mostrar até o que não era pra mostrar, eu vou mostrar. Até o que tava proibido’.” Para ela, foi ali que uma liberdade antiga finalmente encontrou espaço. “Foi o momento.”
Nessa mesma época, veio "A Outra Banda da Lua". Antes de encontrar os músicos, Marina saía sozinha com o violão para a Praça da Matriz e se metia em rodas de desconhecidos. “Toda rodinha que eu via, eu falava: ‘Posso tocar um violão para vocês?’” Depois de cantar, já emendava o pedido: “Ó, tô procurando uma banda, viu? Se souberem de alguém que quer montar uma banda, eu tenho minhas próprias músicas, eu sou cantora.” Fez isso por dois meses, segundo ela, até encontrar a galera com quem formaria a primeira banda.
Então, nasceu “Lua”, música que Marina diz ter escrito sobre amor-próprio. “Tem uma música que fala: ‘Nem sei se vou dormir agora que eu descobri o amor’”, lembrou. “Esse amor que eu tinha descoberto, e que eu não queria nem dormir por conta desse amor, era o meu amor por mim mesma.” Ela contou que a sensação era tão nova e tão forte que parecia não caber mais naquela vida antiga. “Eu falei: ‘Nossa, é muito gostoso se amar. Eu nunca mais quero não me amar’.”
Depois vieram o "Rosa Neon", as viagens, a circulação maior pelo país e até uma turnê na Europa. “Ombrim” surgiu nesse momento, ainda dentro da banda. Logo depois, a pandemia veio e mudou a trajetória de Marina. A mineira disse que os processos coletivos ficaram mais difíceis e que o isolamento enfraqueceu as duas bandas que mantinha naquele momento. Foi aí que decidiu lançar o trabalho solo. “Eu falei: ‘Gente, vou lançar meu álbum solo, que é o que dá para eu fazer agora’.”
O disco era "De Primeira". Marina contou que já lançou o álbum convencida de que aquilo daria certo. “Eu já sabia que ia estourar porque eu sabia que as músicas eram fodas e que eu era foda e que ia dar certo de qualquer jeito.” O grande estouro veio a partir do Tiktok com “Por Supuesto”. "Foi quando o Brasil me conheceu”, disse.
“Eu não tinha ideia de quão grande isso era porque eu não consumia TikTok.” Quando percebeu, a música já estava em toda parte. “Eu não fiz nada, a música simplesmente estourou sozinha. Coisa de magia.”
Magia, para Marina, não é modo de falar. Ao longo da entrevista, ela tratou o tema como parte da própria leitura de mundo. “Eu acho que todo mundo tem a capacidade de fazer magia”, disse. “A intenção que faz a magia.” Ao olhar para a distância entre a menina de Taiobeiras e a artista que se tornou, ela não encontra outro nome. “Se você não tem a máquina na mão, você não tem dinheiro, você não tem… a única coisa que você tem é magia, amor. A única coisa que você pode fazer é magia.” Quando falou de "De Primeira", as palavras saíram desse jeito: “Foi o momento mágico mesmo, que as coisas aconteceram porque eu intencionei tanto. E não era intencionar de tipo ‘vai acontecer’. Era um intencionar de ‘eu sou, está acontecendo’.”
A sensualidade, outro ponto central da imagem de Marina, também apareceu na entrevista. Ela disse, “Não é uma coisa que eu falo ‘eu vou ser sensual’.” Para a cantora, isso vem do conforto no próprio corpo. “A sensualidade é uma coisa intrínseca. Não é uma coisa que você busca. É uma coisa que simplesmente, se você relaxar, você vai estar sendo sensual.” Em seguida, deu a própria definição: “Eu acho que não tem nada mais sensual do que uma pessoa que se lambe.”
No palco, é sabido e mencionado por Erika que esse estado de sensualidade fica ainda mais evidente. Marina contou que Juliano, seu namorado, diz que não a reconhece quando ela sobe para cantar. “Quando eu subo no palco, Juliano olha para mim e não me reconhece.” Ela mesma explicou assim: “Eu entro realmente num lugar, numa coisa de quarta parede mesmo, coisa de atriz mesmo, de encarnar no personagem.” E esse personagem, segundo ela, é “essa mulher que está sempre desfrutando da sensualidade do universo”. A cantora, porém, ressalta que não pode ser essa pessoa 24 horas, e que a vida cotidiana é mais complexa do que a "persona" que assume ao cantar.
Em outro momento, Erika perguntou que fome ainda restava depois da fama, do dinheiro e da estrutura. Marina respondeu: “Fome de transcender.” A partir daí, falou do risco de a estabilidade endurecer um artista. “É muito fácil você ficar rígido depois que você consegue tudo isso”, disse, citando casa, carro e estrutura como coisas que podem prender em vez de libertar. Foi então que veio uma das frases mais fortes da conversa: “Você não nasceu para comprar uma casa e um carro, você nasceu para fazer arte.” Para ela, o medo de perder o que foi conquistado pode travar a criação. “Essa rigidez não é boa para artista nenhum.” E completou: “Eu posso perder tudo em nome da arte. Se for em nome da arte, tchau para tudo.”
Na parte final da entrevista, Marina falou de Gal Costa, nome que tratou mais como presença interna do que como referência distante. Contou que conheceu a cantora, pessoalmente, por meio de Preta Gil, nos bastidores do Rock the Mountain, e que depois gravou uma música com ela. “Gal Costa mora dentro de mim”, disse. “Não é que eu olho para ela e falo assim: ‘Ai, vou pegar aquela capa e me inspirar’. Não. Ela mora dentro de mim. Gal Costa é um pedaço de mim muito grande. Me forma mesmo como pessoa, como ser humano, como mulher.”
Marina Sena encerrou a entrevista falando do feat com Anitta, que na época ainda não havia sido lançado. Ao comentar a parceria, ela disse acreditar que a música entregaria exatamente o que o público esperava do encontro entre as duas. O single, depois, seria lançado com o título “Mandinga”.


