Danni Suzuki estreia como escritora com ’Humanos do Futuro: Por que a revolução tecnológica exige uma revolução humana’Reprodução / Nanda Araujo
A vontade de escrever já era antiga, mas foi se realizando à medida que Danni aprofundava suas pesquisas. Ela começou como bailarina, passou pelos musicais e pelo cinema e estudou Desenho Industrial com interesse em animação. "Dentro da carreira de atriz, abriram-se as oportunidades como apresentadora. Conforme o tempo foi passando, eu fui desenvolvendo os roteiros dos próprios programas que eu apresentava e as entrevistas me deram essa vontade de dirigir. Comecei a dirigir também e, nessa de desenvolver novos filmes, acabei entrando pelo campo do roteiro e me tornei roteirista", relembra.
Para a neurocientista, sua própria caminhada resultou no livro de forma natural e conjunta. "Quando eu percebi, tudo se comunicava. Tudo falava sobre emoções, sobre o comportamento humano e como o ambiente interfere dentro das nossas escolhas, dentro do nosso futuro e também dentro das artes."
A partir dessa percepção, Danni também passou a refletir de forma mais profunda sobre propósito, tema que atravessa a obra. "A sua profissão não precisa ser uma única coisa só, você é múltipla em diversas coisas. Com esse entendimento, a vida vai tomando uma outra proporção e, naturalmente, esse propósito vai ficando mais claro", afirma.
Em "Humanos do Futuro", essa ideia aparece ligada à identidade, às escolhas e à forma como cada pessoa se posiciona no mundo. "O propósito está muito ligado ao servir, a você entender o seu comportamento aqui dentro de uma sociedade, realmente, dentro da humanidade... Você entende que a vida não é sobre você, ela nunca foi, era e é sobre nós."
Esse olhar sobre o indivíduo ganha outra dimensão quando entra a tecnologia. A obra literária apresenta as chamadas "Cinco Chaves da Expansão", voltadas à reconexão humana, e parte do entendimento de que a tecnologia já atravessa a rotina, as relações e até a maneira como as pessoas fazem escolhas, muitas vezes sem perceber. "Quando você abre o seu celular, o tempo que você demora de tela, as coisas que você clica, as coisas que você curte, as coisas que você encaminha, elas dizem muito sobre o seu estado emocional, sobre suas preferências, até sobre os seus traumas", explica.
Para a artista, essa influência aparece em situações banais do cotidiano. Uma notícia indicada pelo algoritmo pode alterar o estado emocional de alguém. E, na manhã seguinte, o ciclo se repete. "A inteligência artificial hoje já molda os nossos comportamentos, os nossos valores. Ela já indica caminhos que você vai seguir ao longo do seu dia se você não estiver atenta", destaca.
As bolhas criadas pelos algoritmos entram nesse processo. "Cada um acredita que o mundo é do jeito que você está vendo no seu celular. E pouco você para pensar que o mundo que você vê no seu celular está sendo direcionado pelos algoritmos, que estão te fechando (...) na sua própria opinião", acredita.
Parte dessa preocupação ganhou uma dimensão pessoal quando Danni criou uma espécie de versão virtual de si própria, abastecida com entrevistas, projetos e informações pessoais. "Você acaba se revelando muito, a IA (inteligência artificial) sabe coisas sobre você que até você não presta atenção", conta. "É quase uma terapia ali, só que uma terapia que está sendo analisada não por um terapeuta, que tenha suas próprias experiências e vai fazer seus julgamentos, mas por uma máquina que está armazenando quem você é."
Nesse sentido, o que continua exclusivamente humano quando uma máquina consegue armazenar comportamentos, identificar padrões e antecipar respostas? Danni encontra essa diferença, principalmente, na imprevisibilidade. "O ser humano (...) pode mudar a opinião completamente. Mudar gostos completamente de uma hora para outra e isso é uma coisa da qual a máquina não tem controle... A criatividade é uma habilidade humana, a inovação é uma habilidade humana. Isso está diretamente ligado às nossas experiências individuais", lista.
Essa relação exige percepção na hora de se afastar e estabelecer os próprios limites. "Quando sinto que estou muito envolvida, até mesmo nos projetos, em telas, eu dou um tempo, fecho tudo, vou jogar tênis, vou surfar, cortar minhas plantas, fazer o jardim", conta. "Eu respeito esse meu tempo de não fazer nada e, se eu precisar não fazer nada todo dia, eu vou respeitar o meu não fazer nada todo dia", fala.
Os estudos sobre emoções e comportamento que embasam o livro também modificaram a forma como Danni enxerga seu trabalho no audiovisual. "Hoje entendo com mais maturidade o impacto do audiovisual na vida das pessoas, o quanto que as pessoas se espelham em determinados personagens, às vezes em filmes, o quanto que isso altera uma cultura de todo um país, de todo um comportamento das pessoas."
"Humanos do Futuro" surge, portanto, como uma extensão dessas pesquisas e questionamentos que já vinham transformando sua maneira de trabalhar, observar as relações e pensar as próprias escolhas. Apesar do título apontar para o que está por vir, Danni considera que a discussão começa no presente. "É um livro principalmente sobre quem a gente está se tornando e quem a gente pode, realmente, escolher ser agora."
É esse o impacto que ela espera provocar no leitor, estimulando uma reflexão sobre escolhas, vínculos e sobre o que a pressa do cotidiano pode deixar pelo caminho. "Você tem que estar interessado na vida, nas outras pessoas e por todas as possibilidades que ela (vida) apresenta."
O livro também pode abrir espaço para a próxima etapa dessa trajetória autoral. "Eu tenho várias séries escritas, filmes escritos que eu estou agora batalhando a captação para poder fazer acontecer. São super próximos, para agora. Estão todos prontos", adianta.
*Reportagem da estagiária Carolina Irigoyen, sob supervisão de Isabelle Rosa


