Leandro LimaBrunno Rangel / Divulgação
Leandro Lima analisa complexidade de Herculano em 'Três Graças': 'Medo de sujar a própria imagem'
Ator também fala sobre a família e a morte do pai, em decorrência de um câncer no pâncreas
Rio - Em destaque no horário nobre, Leandro Lima, de 44 anos, vive um de seus personagens mais complexos em "Três Graças", da TV Globo. Na pele de Herculano, um bem-sucedido diretor de banco, apaixonado pela mulher e disposto a tudo para vê-la feliz, o ator atravessa uma fase decisiva da trama com a chegada do bebê que o casal havia comprado de Samira (Fernanda Vasconcellos). A criança em questão é fruto da relação de Joélly (Alana Cabral) e Raul (Paulo Mendes).
Na trama, Herculano é um homem pragmático, moldado pelo mundo corporativo, que vê sua vida sair do controle quando o desejo de maternidade de Lena (Bárbara Reis) se transforma em obsessão. A aproximação do casal com Samira, funcionária e che do restaurante da Fundação Ferette, dá início a uma sequência de decisões que colocam em xeque valores, ética e limites morais dos personagens. "A novela mostra que ninguém é uma coisa só. Ninguém é 100% vilão e ninguém é 100% mocinho", resume o ator.
Após Joélly dar à luz, Samira leva a criança sem o consentimento da adolescente e a entrega para Herculano e Lena. Em seguida, a vilã, que é funcionária e chef do restaurante da Fundação Ferette, orienta o casal a deixar a casa por alguns dias para despistar suspeitas, em um plano arriscado que pode desmoronar a qualquer momento.
Para o artista, Herculano tem consciência da gravidade da situação. "Ele alerta a Lena várias vezes que ela está meio alheia a isso, que ela está cega pelo desejo de ser mãe. Ele várias vezes chega pra ela e fala que isso é crime, que o que eles estão fazendo não é certo", afirma. O ator observa que o personagem também teme as consequências sociais. "Por vezes, eu fico achando que ele alerta com medo de sujar a própria imagem, já que ele é um executivo e tem isso como uma das coisas mais importantes da vida", completa.
Interpretar um personagem que divide opiniões tem sido um estímulo para Leandro. "Isso é o mais interessante do personagem. Ele é esse cara executivo do mundo corporativo, das metas, de cumprir objetivos profissionais, e isso muitas vezes tira a humanidade de uma pessoa", analisa. "Paradoxalmente, ele é um cara muito humano quando você vê o amor que ele tem, o cuidado, a vontade de proteger quem ele ama. E, para isso, ele acaba deixando a moral um pouco de lado", acrescenta.
O ator acredita que a reação do público reflete esse conflito. "Tem gente que fala ‘ah, ele só quer o filho, ele quer realizar o desejo da esposa’. Outros dizem ‘não, ele é vilão, ele está comprando uma criança’". Ele, ainda, chama atenção para a frieza do discurso do personagem. "Muitas vezes ele fala ‘a gente vai concluir essa transação’ de uma maneira que não parece que está falando de uma criança. É bem dúbio".
Entre as cenas mais intensas da semana está um momento de briga entre o casal. "Teve uma cena em que o Herculano sai do sério, sai gritando com ela pela primeira vez. Chega um momento em que ele fala ‘chega, você está maluca, não vai fazer mais isso'... Foi interessante ver essa explosão". O cuidado, no entanto, veio fora de cena. "No final dessa cena, a Bárbara estava ali chorando e, na hora que cortou, abracei ela e a acolhi";
Ao analisar o conjunto da obra, Lima reforça a proposta da novela. "A própria mocinha, a Gerluce, é uma pessoa boa, do bem, e comete um roubo. Isso mostra os dois lados das pessoas".
Perda do pai
O momento profissional intenso coincidiu com uma perda pessoal profunda. No início de fevereiro, o pai de Leandro, Marcos Antônio, morreu após uma batalha contra um câncer no pâncreas. O ator atravessou o luto em meio às gravações e destacou o apoio da equipe. "Foram uns 50 dias muito intensos. Eles fizeram de tudo para que eu passasse o maior tempo possível com meu pai", conta. "É muito bom estar numa equipe que é cobrada pela produtividade, mas que não deixa a humanidade de lado nunca".
Nas redes sociais, Leandro publicou um vídeo que repercutiu ao falar sobre a doença do familiar e a importância do diagnóstico precoce. "Meu primo, que é médico, falou da importância de eu falar sobre isso. Eu recebi tantos relatos de pessoas que passaram por isso e agradeceram. Eu me senti feliz de estar servindo as pessoas num momento tão difícil".
Família e vida pessoal
Pai de Giulia, de 25 anos, fruto do relacionamento com a jornalista Daniela Lins, e de Toni, de 2, filho do casamento com Flávia Lucini, Leandro vive hoje uma nova fase da paternidade. "Com 17 anos, eu ainda estava tentando entender quem eu era. Eram mil preocupações... Foi um período bem difícil para mim, mas eu passei por isso de forma muito digna".
Hoje, a experiência é outra. "Agora, sendo pai quase 20 anos depois, é completamente diferente. Hoje eu tenho consciência de muita coisa. Existe muito material sobre educação infantil e eu faço questão de procurar coisas que me ensinem. O Toni veio para dar mais um propósito à minha vida".
Apontado com frequência como símbolo de beleza, o ator relativiza o rótulo. "Tenho consciência de que sou visto dessa forma, mas eu não incorporo isso. A beleza é efêmera e é problemático fazer disso a tônica da vida". Vaidoso na medida certa, ele defende uma relação mais natural com o envelhecimento. "Acho uma loucura essa febre que existe hoje. Você nasce de um jeito e quer mudar sua cara. Existem personagens velhos, então é preciso aceitar ser velho. Meu rosto é minha identidade, eu não posso mexer nisso".










