Docy Moreira Pedro Lanna / Divulgação

Rio - Dar vida à uma personagem atravessada por traumas exigiu de Docy Moreira um ponto de partida essencial: a empatia. Foi a partir dela que a atriz construiu Domingas, da série "Os Outros", uma mulher marcada por contradições emocionais e relações complexas, especialmente com o próprio filho. "Seria impossível pensar nas dores dessa personagem sem a empatia", analisa. 


Na trama da produção do Globoplay, o afeto que Domingas demonstra pelos animais contrasta diretamente com a dificuldade em se conectar com Diego (Adanilo), seu filho. Para Docy, essa dualidade revela uma característica profundamente humana. "Somos duais. Quanto mais amamos, mais sensíveis somos e sofremos por isso. Por temer a dor da perda, ela tenta ignorar o amor pelo filho, e sofre ainda mais”, explica. A tentativa de se proteger acaba gerando um efeito inverso: "Ela se machuca, e ao outro também".

Esse movimento também ajuda a entender o isolamento da personagem. De acordo com a a atriz, Domingas não tem plena consciência desse afastamento. "No máximo, ela culpa o filho e se distancia, mas não percebe que está se protegendo da dor", analisa.
Grande parte da relação entre Domingas e Diego é construída a partir de silêncios e sentimentos não verbalizados. Para dar conta desses "não ditos", Docy destaca o trabalho de conexão entre os dois em cena. "Muita concentração, foco e troca. E com música, sempre compartilhando alguma melodia que nos sintonizasse", conta. A parceria com Adanilo, inclusive, foi determinante nesse processo. "Foi perfeito. Ele é um artista autêntico e trouxe profundidade ao personagem", elogia. 
A dinâmica da história se intensifica com a chegada de novos personagens, Roberto e Marta, vividos por Lázaro Ramos e Mariana Lima. Docy comenta que essas interações despertam algo adormecido em Domingas. "Atiça a curiosidade dela e traz de volta uma vontade de interação praticamente esquecida", explica a atriz, destacando ainda que os acontecimentos provocam reviravoltas que impactam diretamente o passado e o futuro da personagem.
Ao resumir a mãe de Diego, Docy escolhe poucas palavras, mas carregadas de significado: "Intensa paixão pela vida". A artista conta que a produção, que mergulha em traumas e relações familiares complexas, lhe provocou reflexões pessoais. "Amor e dor são companheiros complementares. A morte é o destino de todos os amores e essa é uma dor inevitável", diz.
Entre as cenas mais marcantes das gravações, uma em especial a atravessou de forma inesperada. Ao lado de um animal em um curral, durante um momento decisivo da história, Docy foi impactada por uma troca silenciosa. "A vaca me olhou nos olhos com um olhar tão doce, tão acolhedor, que só de lembrar choro até hoje. Acho que nenhum ser humano nunca será tão amável quanto uma vaca", relata.
Com mais de quatro décadas de carreira, a atriz aponta o teatro como base fundamental para sua atuação no audiovisual. "Tudo que você vê ali, de improviso e fluidez, é fruto do exercício teatral ao longo dos anos".