Rita Batista interpreta Ladisa em ’A Nobreza do Amor’Reprodução de vídeo / TV Globo

Rio - Rita Batista, de 47 anos, deixou o comando do "É de Casa", da TV Globo, para estrear como atriz em "A Nobreza do Amor", novela exibida na faixa das 18h na emissora, em um ato que ela mesmo define como "de coragem". Depois de mais de duas décadas de carreira na comunicação, entre rádio, jornalismo, apresentação e debate, a baiana chega à dramaturgia como Ladisa. 
A personagem entra para a resistência ao governo de Jendal (Lázaro Ramos) após a morte do marido Ngozi (Paulo Guidelly) em um protesto contra a tirania instalada no reino. Ela, então, se aproxima da luta política em Batanga, se alia a Akin (André Luiz Miranda) e vive também uma relação de desconfiança com Dumi (Licínio Januário), chefe da guarda real. Ladisa é apresentada como uma guerreira africana, mas, para Rita, a força da viúva também está na maneira em como atravessa essas dores do seu próprio jeito. 
Ao falar de Ladisa, Rita reconhece um ponto de encontro com a personagem no entendimento da resistência. "Mulheres negras aprendem cedo sobre resistência e, na minha casa, sempre foi assim. Fui criada por mulheres e aprendi que eu fui criada para dar certo, para me bancar", conta. Esse ensinamento aparece na forma como ela ocupa os próprios espaços e a confia na própria capacidade. Como a artista costuma dizer, "eu sou a melhor coisa que pode acontecer na vida de qualquer pessoa ou corporação".
A distância entre a atriz e Ladisa aparece justamente no silêncio. Rita se define como uma mulher da palavra. A personagem, por outro lado, é mais introvertida. "Talvez eu tenha me sentido distante dela justamente na forma como ela silencia algumas dores. Eu sou uma mulher muito da palavra, do afeto dito. Ladisa às vezes guarda muito pra si", explica.

Ao longo da carreira, Rita esteve conectada à opinião, à escuta pública, à apresentação e ao jornalismo. Na dramaturgia, essa linguagem passa por outro caminho. "Quando sou eu falando, existe um lugar muito racional da minha opinião, da minha construção de pensamento. A personagem me obriga a acessar outras emoções, outras dores, outros silêncios... Nem tudo passa pelo que você pensa, mas pelo que aquela mulher viveu", comenta. 

Para dar vida à guerreira, Rita repensou a própria ideia de força. "Ladisa tem uma força muito silenciosa. E isso me toca profundamente. Porque às vezes a gente associa força à dureza, e ela me ensinou muito sobre firmeza com delicadeza", conta.
Estreia em novelas
O início da trajetória em novelas devolveu a Rita uma sensação que ela já não encontrava com a mesma frequência na comunicação: o frio na barriga. Depois de anos diante das câmeras, a ansiedade antes de uma estreia costumava estar mais ligada à resposta do público do que à novidade do trabalho em si. Com a dramaturgia, isso mudou. "Voltou! E eu achei isso maravilhoso... A dramaturgia me devolveu esse frio na barriga, é uma mistura de ansiedade com alegria e nervosismo. Acho importante sentir isso às vezes. Significa que você ainda está viva artisticamente". 

A mudança no rumo profissional, segundo Rita, não veio sem afeto pelo caminho anterior. Pelo contrário. Ela fala do "É de Casa" como um espaço de crescimento profissional e pessoal. "Foi uma decisão muito emocional, mas também muito consciente. Eu tenho uma relação de amor profundo com o "É de Casa", porque ali eu cresci muito como comunicadora e como mulher também", ressalta. Ainda assim, a apresentadora sentiu que era hora de abrir espaço para outro desejo. "A vida pede coragem da gente em alguns momentos. Eu senti que era hora de me permitir viver um outro sonho". 
A vontade de atuar não surgiu do nada. Rita entende que a comunicação sempre teve uma dimensão de interpretação, ainda que de outra maneira. "A atuação sempre me atravessou de alguma forma. Quem trabalha com comunicação também interpreta emoções, histórias, silêncios. Só que agora isso ganha um outro corpo", comenta. O "momento perfeito", segundo ela, talvez nunca existisse. Por isso, a pergunta que a moveu foi mais simples: "Por que não agora?". 

Ao chegar ao set, Rita conta que encontrou acolhimento. "Como eu estava chegando nesse lugar da dramaturgia pela primeira vez, existia um medo natural meu, mas fui recebida com muita generosidade. E isso faz toda diferença", recorda. 
'A vida pode recomeçar aos 40'
Aos 47 anos, Rita vê em Ladisa um lembrete de que uma trajetória consolidada não a impede de viver novos começos. "Essa personagem chega pra me lembrar que a vida não acaba quando a gente acha que já construiu uma carreira sólida. A vida pode recomeçar aos 40, tenho 47 anos e bati na porta de uma nova profissão". A atriz, ainda, diz que a personagem abriu uma reflexão sobre presença e permanência.
Para ela, esse encontro a fez pensar nas mulheres que vieram antes e abriram caminho para que outras pudessem ocupar determinados espaços. Isso aparece na forma como fala da personagem e também da própria virada profissional.

Apesar da estreia na dramaturgia, Rita não vê esse novo passo como uma ruptura com a comunicação e o jornalismo. São 22 anos de carreira em um campo que continua fazendo parte de sua identidade profissional. "Não fechei as portas para a comunicação, apenas abri um leque diante das minhas multifacetas". A atuação, segundo ela, abriu "uma porta muito bonita" em sua vida.
*Reportagem da estagiária Carolina Irigoyen, sob supervisão de Isabelle Rosa