Naruna Costa interpreta Valéria em ’Coração Acelerado’Globo/Beatriz Damy

Rio - A chegada de Valéria em "Coração Acelerado", novela das 19h da TV Globo, colocou a personagem no centro do debate sobre abandono materno. Intérprete da mulher que desamparou a filha Eduarda (Gabz), Naruna Costa buscou construir a personagem para além do julgamento imediato do público com o momento no qual ela combina que a amiga e funcionária de um abrigo buscaria a criança, mas acaba fugindo antes por impulso. 
"Ela já entrou na trama com um julgamento muito forte. Mas eu fui ouvir pessoas que foram abandonadas, apesar disso ser pouco divulgado, existem muitas histórias parecidas com a da Eduarda, né? De pessoas que, de alguma maneira, se reconectaram com suas mães depois de um tempo e conseguiram compreender os motivos", afirma a artista de 43 anos. 
A atriz reflete sobre como a falta de responsabilidade paterna é tratada com naturalidade pela sociedade enquanto mulheres são mais cobradas. "A Valéria viveu o abandono do pai que colocou ela na rua quando soube da gravidez e do próprio companheiro. Ninguém pergunta sobre o pai que também abandonou. Ela criou a filha sozinha na rua. Então, quando viu uma oportunidade de melhorar de vida, ela tomou uma atitude que não raramente os homens tomam, que é escolher a si mesma". 
Naruna também aborda a importância do folhetim em mostrar a pressão social imposta às mulheres quando o assunto é o desejo de ter filhos. "É super importante a gente falar isso porque de alguma maneira a questão da maternidade é um grande tabu. A gente tem as mulheres no papel de mãe como uma obrigatoriedade e nem todas as mulheres nasceram para isso ou tem condição financeira e saúde mental para sustentar uma maternidade. E é interessante mostrar isso, porque isso acontece na vida real". 
O reencontro com Eduarda despertou na personagem o arrependimento por não ter explicado antes o motivo do abandono. "Ela não toma essa decisão em função de um relacionamento, mas em função da sobrevivência. Elas viviam numa vida de muita precariedade, então escolher esse relacionamento foi, de alguma maneira, escolher ter uma vida menos vulnerável. Acredito muito que ela tenha se arrependido". 
Além da forma dura em que foi recebida, Eduarda se chocou ao saber da existência de Sol (Ana Alice Rocha), outra filha de Valéria. Para Naruna, saber que a personagem se tornou mãe novamente foi uma surpresa e representa uma tentativa de recomeço. 
"Achei muito forte quando eu descobri. Uma tentativa um pouco inútil de tentar resolver as questões de ter abandonado a primeira filha com uma outra filha e onde ela pudesse ser uma mãe de verdade. Com condições possíveis de criação, ela pode de alguma maneira exercitar o papel de mãe que não conseguiu com a primeira filha", explica. 
O drama vivido por mãe e filha em "Coração Acelerado" causou reações nos telespectadores e fez a atriz receber diversas mensagens nas redes sociais. "Em primeira mão, as pessoas ficam indignadas porque é um tabu a questão da maternidade não bem-sucedida como foi o caso da Valéria durante essas décadas", diz. 
Com o passar dos capítulos, a artista percebeu a mudança na forma como parte do público passou a enxergar Valéria. "Depois as pessoas procuram refletir junto também, porque existe uma questão de abandono paternal muito forte, muito grande e os números são altas. Isso foi naturalizado no Brasil. Trazer essa questão sobre a perspectiva de uma mulher é quase inacreditável". 
O distanciamento das personagens é quebrado após Eduarda formar dupla sertaneja com Agrado (Isadora Cruz) e fazer sucesso com a música "As Donas da Voz", o que gera uma reaproximação de Valéria. O contato, entretanto, despertou desconfiança no público. 
"A Valéria aparece quando, curiosamente, a Eduarda faz sucesso, acho que isso tem uma coisa muito interessante de levar o público a imaginar que é por conta do sucesso da garota, mas são muitas viradas. Achei interessante ela ter essa coragem de chegar, porque ela precisa mesmo arreatar esses laços", opina.
Em capítulos recentes, a personagem foi levada às pressas para o hospital. Ela revelou para Eduarda que tem um aneurisma cerebral e precisaria passar por uma arriscada cirurgia. "O mesmo impulso que ela teve quando abandonou a filha, teve agora de reatar os laços. Para essa sensação de que talvez ela morra sem conhecer a filha e as histórias dela. Acho muito sincero da parte dela dividir isso. Claro que a atitude gera consequências, Eduarda pode escolher não ter essa relação com a mãe, mas eu acho que a atitude de tentar mostra o caráter dela". 
Naruna considera a possibilidade de reconstrução do vínculo entre Valéria e Eduarda mesmo após o trauma do abandono. "Acredito muito nesse amor incondicional de mãe e filha, que eu acho que as duas carregam. A mãe nunca esqueceu dela e sempre se preocupou. A filha também nunca esqueceu a mãe, sempre tentou compreender por que a mãe fez aquilo", analisa. 
Outros projetos
Além de "Coração Acelerado", Naruna Costa também se prepara para lançar um novo projeto no cinema. A atriz estrela "Dolores", que chega às telonas brasileiras em junho. "É um filme que foi escrito pelo Chico Teixeira e que ele deixou de herança", conta. Após a morte do diretor, o projeto foi assumido por Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar. "É um longa que fecha a trilogia do Chico Teixeira sobre afeto". 
A artista divide o protagonismo com Carla Ribas e Ariane Aparecida em uma história centrada no universo feminino. "São três mulheres, vó, mãe e filha, em busca de exercer os seus sonhos. É um filme bastante poético e bonito sobre mulheres da periferia que eu me sinto muito feliz de ter feito parte e de estar agora estreando", celebra.