Grafiteira Panmela Castro comanda ONG que atende mulheres da periferia

Vítima de violência doméstica, a artista visual faz de sua arte um instrumento de luta contra os abusos sofridos pelas mulheres

Por Gabriel Sobreira

Panmela Castro diante de sua obra no Stedelijk Museum, em Amsterdam, na Holanda. Abaixo, a artista em Londres, na Inglaterra
Panmela Castro diante de sua obra no Stedelijk Museum, em Amsterdam, na Holanda. Abaixo, a artista em Londres, na Inglaterra -

Rio - A artista visual Panmela Castro viveu por três anos com um parceiro que, em 2004, a espancou e a manteve em cárcere privado. Até chegar a este ponto, o agressor praticava violências que "não deixavam" marcas, como falar coisas que abalavam a autoestima da companheira ou a colocar no chuveiro frio por horas.

"Eu poderia citar motivos para ele ter me agredido, porém nada justifica a violência doméstica. O motivo da agressão é a sensação de poder que o agressor tem sob a mulher, como se elas fossem mais uma de suas posses como os demais objetos da casa", lembra a artista carioca, de 38 anos, que foi convidada para pintar a fachada do Museu de Arte Contemporânea de Amsterdam (o Stedelijk Museum), na Holanda, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher.

"O Stedelijk Museum é um dos mais importantes museus de arte contemporânea da Europa e, como uma mulher negra latino-americana, ocupar esse espaço é muito importante", defende ela, que é autora do vídeo 'Caminhar', uma performance em que ela anda com um vestido branco de longa cauda, mergulhado em tinta vermelha e marcando o chão da cidade em uma alusão ao feminicídio. A arte está em cartaz até hoje na Backspace Art Gallery of Ballarat, em Victoria (Austrália), e no Museu de Arte Brasileira da Faap, em São Paulo, até 15 de dezembro.

ARTE SÍMBOLO

Na época em que Panmela sofreu a violência doméstica, o crime era considerado de baixo potencial ofensivo e o então companheiro nunca foi punido. "Essa experiência me trouxe ao feminismo e, quando a Lei Maria da Penha foi aprovada em 2006, me dediquei para que minha arte se tornasse um dos símbolos de promoção do fim da violência contra a mulher", frisa a artista, que está à frente da Rede Nami.

Desde 2010, já participaram diretamente mais de 9 mil mulheres e, só no projeto AfroGrafiteiras, que funciona desde 2015, passaram 560 mulheres negras de periferia. "O AfroGrafiteiras é um curso de grafite focado em nossos direitos e tem duração de seis meses. É totalmente gratuito, inclusive o material. As inscrições para a turma que inicia em maio podem ser feitas também em nosso site (www.redenami.com)", avisa a carioca.

REAÇÃO

O fim do pesadelo das agressões aconteceu após ela ficar em cárcere privado por uma semana. O ex saiu e esqueceu o celular. Panmela ligou para a família, que foi resgatá-la. "Na época, eu estava sofrendo violência psicológica e moral há um tempo e nem sequer era capaz de identificar. Se fosse hoje, entenderia que estaria numa relação abusiva", lembra.

DÉJÀ VU

Quando começou com os projetos sobre a Lei Maria da Penha, há 10 anos, a artista se viu em uma nova relação abusiva. Desta vez, o então namorado, que também era artista, tentava controlar a vida de Panmela com violências morais e psicológicas.

"Logo identifiquei que estava em uma relação abusiva e rompi o namoro. Agora, 10 anos depois, ele resolveu me perseguir, me enviando mensagens e cobrindo minhas pinturas pelas ruas. Ciente de que tal ato era uma violência patrimonial, moral e psicológica, eu o denunciei na delegacia, consegui uma medida protetiva, e ele parou de me perseguir", desabafa. "Tive dificuldades de fazer aceitarem minhas denúncias, mas como compreendo meus direitos, eu os exigi. As coisas acontecem diferentes quando você entende seus direitos", completa.

LEIS

Panmela não acha que a arte salva vidas. Para ela, a atividade artística pode ser o meio de pensar e existir. "O que salva a vida das mulheres são leis direcionadas à sua proteção e as políticas públicas focadas nelas", ensina. "Hoje, o país segue sucateando os aparelhos de proteção às mulheres e banalizando leis e a cultura de violência contra nós. Existe um tipo de 'sentimento de permissão' de agressão às mulheres, e isso é o que explica os altos casos de feminicídios que estamos acompanhando nos últimos meses", afirma ela, que já no próximo mês embarca para Los Angeles (Estados Unidos), onde apresenta uma nova exposição de pinturas.

"Quando eu voltar, quero construir novos murais por aqui. As pessoas que tiverem paredes que possam ser pintadas por mim podem me mandar um 'oi' lá no meu Instagram @panmelacastro", avisa.

MENSAGEM

E Panmela tem uma mensagem para as mulheres, sejam as que sofrem algum tipo de violência ou não. "A violência pode aterrissar na vida de qualquer uma, a qualquer momento, e é preciso estar preparada. Procurem desconstruir pensamentos que as aprisionem, desconfiem quando alguém quiser decidir sobre suas vidas, tornem-se rainhas de si mesmas", diz.

Galeria de Fotos

Panmela Castro diante de sua obra no Stedelijk Museum, em Amsterdam, na Holanda. Abaixo, a artista em Londres, na Inglaterra Claire Bontje/Divulgação
Panmela Castro em Londres Acervo Pessoal

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