Aventuras Maternas: E a educação, como fica?

Justiça do Trabalho proibiu a volta às aulas nas escolas e faculdades particulares do Rio até que exista uma vacina

Por Priscila Correia

Volta às aulas proibida pela Justiça
Volta às aulas proibida pela Justiça -
Rio - Na última quinta-feira (10), uma decisão da 23ª Vara da Justiça do Trabalho, proibindo a volta às aulas nas escolas e faculdades particulares do Rio até que exista uma vacina ou algum tipo de comprovação de que a reabertura dos espaços de ensino é segura para alunos e professores, gerou novo impasse sobre o presente da Educação em tempos de pandemia.
Antes da liminar, esta matéria já estava pronta, trazendo opiniões de especialistas sobre a possível volta às aulas no dia 14 de setembro, que, inclusive, lembravam que em todo o país existem diferentes realidades: crianças de baixa renda, que dependem da escola também para se alimentar; crianças que estão descobrindo no estudo remoto uma oportunidade a mais de desenvolver uma educação interdisciplinar e moderna; e o crescimento de um ensino híbrido, adequando, futuramente, uma socialização presencial e o uso da tecnologia para desenvolver habilidades.
Apesar dessas realidades, porém, há uma interseção: a saúde de profissionais do ensino, alunos e familiares. Diante disso, não seria mais indicado fechar o ciclo, com suas perdas que certamente vão acontecer no aprendizado, e começar um novo ano adequado somente em 2021? Escutamos profissionais de educação sobre diferentes abordagens, levando em conta consequências sociais, psicológicas e educacionais.
A resposta da educadora Roberta Bento, também fundadora do SOS Educação, pondera duas realidades. “Não sabemos quanto tempo vai levar para termos uma vacina que realmente garanta a proteção de todos. Além disso, o ano letivo de 2020 não termina no início de dezembro, como nos anos anteriores. Ele vai seguir integrado aos próximos anos letivos, até que, gradualmente, os alunos tenham conseguido formar a base de conhecimentos e habilidades para os anos seguintes. Ano calendário e ano letivo, por algum tempo, não vão coincidir totalmente. Outro fator é o quanto os alunos precisam de um período que possa funcionar como uma despressurização de tudo o que passaram ao longo do isolamento. Quanto antes pudermos garantir isso, mais estaremos ajudando no equilíbrio emocional de todos”.
Outra preocupação, segundo Carolina Campos, fundadora do Vozes da Educação, é a evasão escolar. “Alunos que passam muito tempo fora da escola tendem a evadir. Países como Uganda e Sierra Leoa, que viveram isolamento social por conta do surto de Ebola, apresentaram altas taxas de evasão após a retomada das aulas presenciais. Além disso, ficar fora da escola gera outros tipos de problemas: nesses países, por exemplo, houve um aumento de 65% na taxa de gravidez na adolescência, e 16% a mais de meninas evadiram da escola. Além de se configurar como uma rede de proteção, a escola também oferta alimentação adequada. Para muitas crianças e jovens, essa alimentação é, por vezes, a única adequada do dia. A escola vai muito além de sua função pedagógica, tem função social”.
Sob o ponto de vista psicológico, a psicóloga e psicopedagoga Grace Falcão ressalta que todas essas questões que cercam o retorno às aulas geram muita insegurança. "Nenhuma autoridade está convicta de que o retorno será benéfico para os professores, educadores e alunos. Definitivamente, até mesmo para que os estudantes não sintam medo de contrair a doença, é melhor que permaneçam em casa”, explica. Ela lembra, ainda, que além do medo da Covid-19, essa indefinição também pode causar bastante estresse. “A maioria já se acostumou com o estudo remoto. Então, o que mais tem causado ansiedade nos alunos é a falta do contato com os amigos. E as crianças, que normalmente são ainda mais ansiosas de forma geral, sofrem mais com essa indefinição. Inclusive, tenho aconselhados os pais a nem comentarem com os filhos menores sobre o retorno enquanto não for efetivamente verídico, para evitar essa ansiedade”, complementa.
Glenda Henrique Rodrigues, pedagoga e estudiosa da primeira infância, que está estruturando a Escola Casulo, destinada para bebês e crianças, lembra ainda que, no contexto da educação infantil, é complicado pensar na volta, ou em propostas a serem elaboradas à distância. “A creche, onde bebês e crianças pequenas se relacionam e descobrem a si e o mundo, é um espaço de puro contato, o que impossibilita, ou ao menos dificulta, o controle para os devidos cuidados de higiene e prevenção do vírus”, pontua.

Saúde e educação em debate

Kiusam de Oliveira, Doutora em Educação pela USP, também não concorda com a volta em 2020, o que vai ao encontro do posicionamento da Justiça do Trabalho. “O retorno, na minha visão, deverá acontecer, se a vacina for eficaz, somente em 2021. Não é possível promover o retorno às escolas em 2020 sem colocar a vida de pessoas em risco. Crianças vão para as escolas em transportes públicos, outras em vans, outras caminhando; profissionais da educação estão da mesma forma expostos a esses mesmos meios de transporte; as salas de aulas com super lotação. O revezamento das turmas que foi proposto é inviável para um ensino de qualidade. Este retorno que está sendo imaginado trará prejuízo psicológico para as crianças, ainda mais para os mais novos. É importante lembrar que, sem a vacina, não há protocolo de segurança capaz de impedir a contaminação da comunidade escolar: a quantidade de estudantes, funcionários e pessoas do entorno que acessam a escola é enorme. E mesmo que surja uma vacina, haverá de se dar um tempo para comprovar a sua eficácia tendo em vista a saúde, o bem-estar e a segurança da população escolar”
Por outro lado, a escola, sobretudo de educação infantil, é de extrema importância para o desenvolvimento da criança. Existem as grandes janelas do conhecimento, chamadas também de janelas de oportunidades. "O desenvolvimento do ser humano está vinculado à maturação cerebral e no período que chamamos de os primeiros mil dias (que consiste desde a gestação até quase 3 anos), essas janelas se abrem e tornam as crianças mais sensíveis para a aprendizagem de habilidades ou desenvolvimento de aptidões e competências. Isso quer dizer que durante as janelas de oportunidades, as crianças que estão recebendo determinados estímulos e têm mais facilidade de desenvolvê-los em sua totalidade. Como o próprio nome remete – janela – ela também se fecha, e a oportunidade passa. Muitas crianças estão presas em casa, sem poder ir ao parque ou passear e sem contato com outras pessoas da família. Os pais querem proporcionar o melhor aos filhos, o que nem sempre é possível. Muitos estão trabalhando on-line e muitos outros já estão saindo para trabalhar, pois as empresas estão retornando às atividades. E as crianças? Será que elas estão sendo cuidadas e respeitadas em todas as suas necessidades? Será que as crianças estão recebendo todos os estímulos para desenvolverem todas as suas potencialidades?”, argumenta Rosana Ramos da Silva, Pedagoga e Diretora da Escola de Educação Infantil Quacatú.
As opiniões se dividem, mas o objetivo de educadores, de uma forma geral, é proteger o aprendizado e o ensino desde a primeira infância, como direito fundamental. Em 2020, foram abertos debates e impasses que colocaram saúde e educação em lados opostos, quando na realidade os dois precisam caminhar juntos pelo bem da comunidade. O futuro é incerto. Não há previsão para vacinação, não há data para o retorno às salas de aula, não há definição sobre quando o índice de contágio vai alcançar níveis baixos, acendendo a luz verde. Mas uma coisa é certa: mesmo em casa, as crianças precisam ser estimuladas e participativas, entendendo as diferentes realidades sociais.
O que fica de bom? “Acredito que a sociedade entendeu a importância do professor. Não há escola e, muito menos aprendizagem, sem essa figura. Não há live capaz de substituir nossos docentes. Desejo que a sociedade passe a valorizar mais esses profissionais, que estão se desdobrando para apoiar nossos alunos”, lembra Carolina Campos, do Vozes da Educação. Isac Oliveira da Silva, Professor do Canal dos Concurseiros, acredita também que uma nova escola irá nascer. "O elemento virtual/ internet terá muito mais espaço no ensino. Isso nos mostrou que até o reforço, a partir de agora, pode ser virtual. Se todas as aulas on-line foram bem dadas, se houve a participação do aluno – que é muito importante, assim como o professor conseguir fazer um plano de tarefas e de aulas de forma correta -, eu acho que a missão foi cumprida. Mas no ano que vem eu faria uma escola com um apoio maior, para recuperar alguns alunos que tiveram problemas de aprendizado. Porque não podemos nos esquecer de que cada aluno é único”, finaliza.

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