Quem já ouviu a música de Luísa Sonza, que vem viralizando ao falar de Ofélia?
Acho que toca fundo porque não é apenas sobre uma personagem literária ,é sobre um estado emocional que muitas de nós mulheres reconhecem. Ao resgatar Ofélia, figura trágica de Hamlet, Shakespeare, a canção transforma dor antiga em espelho contemporâneo. Ealvez seja por isso que tanta gente se identifica: porque a sina de Ofélia nunca deixou de existir.
Ofélia não enlouqueceu por amar demais.
Ofélia adoeceu por calar demais.
Na obra de Shakespeare, ela não teve direito à própria voz. Amava, mas foi mandada se afastar. Sofria, mas não podia reclamar. Sentia, mas precisava obedecer. Cercada por homens que decidiam seu destino : o pai, o irmão, o amado.
Ofélia foi sendo empurrada para dentro de si mesma, até não caber mais.
Quando o pai morreu, algo dentro dela também se rompeu. E ninguém percebeu a tempo.
Porque mulheres ensinadas a agradar aprendem cedo a sofrer em silêncio. A chamada “sina de Ofélia” não é sobre fraqueza. É sobre acúmulo. E como acumulamos não é ?
É o peso de expectativas, de renúncias, de amores não acolhidos, de dores invalidadas.
É quando a mulher some para que todos ao redor permaneçam confortáveis.
Quantas de nós já se sentiram assim?
Confusas entre o que sentem e o que esperam que sintamos.
Entre ser quem somos e ser quem nos pediram para ser.
Dizem os especialistas que a “síndrome de Ofélia” se manifesta quando a mulher:
•vive para atender demandas externas;
•romantiza a própria dor;
•acredita que amar é se anular;
•e normaliza o sofrimento como parte do afeto.
Mas há uma saída, e ela começa quando entendemos que Ofélia não precisava morrer para ser profunda.
Ela precisava ser ouvida. Sabe aquele nó na garganta que só passa quando nós libertamos daquilo que nos aprisiona?
Sair da sina de Ofélia é escolher falar antes de adoecer.
É colocar limites onde antes havia culpa.
É entender que amar não pode custar a própria identidade. E quantas se anulam em nome de um amor doentio ?
A mulher que se cura da síndrome de Ofélia aprende algo essencial: sentir não é fraqueza, mas silenciar-se por tempo demais é.
Que nenhuma mulher precise se afogar nos próprios sentimentos para ser percebida.
E que, diferente dela, a gente escolha a vida inteira, consciente e com voz.
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