Em uma conversa inspiradora, Camila abre o coração sobre maternidade, desafios, legado e a missão de construir um mundo mais inclusivo.Divulgação

Olá, meninas!
Algumas mulheres transformam a própria história em um caminho capaz de mudar a vida de milhares de pessoas.
Camila Rodrigues é uma delas. Bailarina, gestora pública e uma das maiores referências em acessibilidade e inclusão do Rio de Janeiro, ela faz da empatia, da coragem e do propósito a força que move cada passo da sua trajetória.
À frente de importantes políticas públicas de acessibilidade, ela mostra que ser um mulherão é transformar obstáculos em oportunidades para milhares de pessoas - Divulgação
À frente de importantes políticas públicas de acessibilidade, ela mostra que ser um mulherão é transformar obstáculos em oportunidades para milhares de pessoasDivulgação
Inspirada pelo legado da mãe e guiada pelo desejo de construir uma sociedade mais justa, Camila mostra que ser um verdadeiro mulherão vai muito além de ocupar cargos de liderança. É enfrentar desafios com sensibilidade, transformar o luto em luta e nunca deixar de acreditar que, quando mulheres estendem a mão umas às outras, elas são capazes de transformar o mundo.
Confira o bate-papo exclusivo que eu tive com esse verdadeiro mulherão:
1 - Você começou sua trajetória transformando vidas por meio da dança inclusiva e hoje é uma das principais referências em acessibilidade no Rio de Janeiro. Quando olha para sua caminhada, qual conquista mais representa a mulher que você se tornou?
A mulher que me tornei é fruto de toda a construção que vivi ao lado da minha mãe, dos ensinamentos, dos exemplos e das lições que ela me deixou ao longo da vida. Foi ela quem despertou em mim o propósito de lutar pelas pessoas com deficiência e de compreender que políticas públicas transformam vidas quando são feitas com compromisso e sensibilidade.
Hoje, dar continuidade ao legado que ela construiu e ampliar esse trabalho é a forma mais bonita de honrar sua história. Ver que esse sonho segue vivo, alcançando cada vez mais pessoas, faz toda a minha caminhada valer a pena. Comecei essa luta inspirada por ela e sigo movida pelo mesmo propósito: promover inclusão, cidadania e garantia de direitos.

2 - Em um mundo onde muitas mulheres ainda precisam provar sua capacidade todos os dias, quais foram os maiores desafios que você enfrentou para ocupar espaços de liderança e fazer sua voz ser ouvida?
As mulheres enfrentam desafios diariamente. Precisamos provar nossa competência o tempo todo e conciliar a maternidade com a vida profissional, muitas vezes carregando um sentimento de culpa. Em diversos momentos, precisei deixar minhas filhas aos cuidados da família para me dedicar ao trabalho.
Durante a pandemia, quando estive à frente da Subsecretaria de Políticas para as Mulheres do Estado do Rio de Janeiro, trabalhei ao lado de mulheres vítimas de violência doméstica que estavam confinadas com seus agressores, sem permitir que o medo da Covid-19 fosse maior do que o compromisso com elas.
Hoje, ao assumir a Coordenadoria Municipal de Acessibilidade de Niterói no lugar da minha mãe, apenas quatro meses após sua partida, transformo diariamente o luto em luta, honrando sua história e dando continuidade ao trabalho que ela construiu com tanta dedicação.

3 - Seu trabalho impacta diretamente a vida de milhares de pessoas. O que te move diariamente e de onde vem a força para seguir defendendo causas tão importantes?
Minha maior inspiração sempre foi minha mãe. Aos três anos, ela contraiu poliomielite e, superando todas as barreiras, tornou-se médica neurologista formada pela UFF. Foi ela quem me ensinou que determinação e propósito são capazes de transformar vidas.
Aos 16 anos, fundei o Grupo Corpo em Movimento, da ANDEF, que se tornou o maior grupo de dança inclusiva da América Latina. Essa trajetória fortaleceu meu compromisso com a inclusão, que levei para a Subsecretaria de Políticas para as Mulheres do Estado, dando visibilidade às mulheres com deficiência. Hoje, à frente da Coordenadoria Municipal de Acessibilidade de Niterói, trabalhamos para ampliar políticas públicas que promovam autonomia, inclusão e cidadania.
Entre os principais serviços estão o NITLIBRAS, que oferece atendimento em Libras, por meio de QR Codes, nos órgãos públicos municipais e delegacias, garantindo acessibilidade na comunicação para pessoas surdas; o Ponto a Ponto, serviço de transporte acessível porta a porta destinado a pessoas com deficiência com mobilidade reduzida; o CEVE (Cartão de Estacionamento para Vaga Especial), que assegura o direito ao uso de vagas reservadas, promovendo mais autonomia e acessibilidade; a CIPTEA (Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista), que facilita a identificação da pessoa autista e garante atendimento prioritário nos serviços previstos em lei; e o Programa Niterói Inclusivo, que reúne iniciativas como o Praia Sem Barreiras e eventos inclusivos promovendo lazer, acolhimento e inclusão para pessoas com deficiência e suas famílias.
Também implantamos o Manual de Acessibilidade para Grandes Eventos e a primeira sala de autorregulação do Estado do Rio de Janeiro para pessoas com Transtorno do Espectro Autista, consolidando Niterói como referência em acessibilidade e inclusão.
Minha força vem de Deus, da minha mãe, que continua sendo minha maior inspiração, da minha família, da minha equipe e, principalmente, das pessoas com deficiência, que renovam diariamente meu propósito de construir uma sociedade mais acessível, inclusiva e com mais oportunidades para todos.
Com uma trajetória marcada pela empatia e pelo compromisso com o próximo, Camila mostra que a verdadeira liderança nasce do cuidado com as pessoas - Divulgação
Com uma trajetória marcada pela empatia e pelo compromisso com o próximo, Camila mostra que a verdadeira liderança nasce do cuidado com as pessoasDivulgação


4 - Que mensagem você gostaria de deixar para as mulheres que sonham em transformar a sociedade, mas ainda têm medo de dar o primeiro passo?
As mulheres são múltiplas e desempenham inúmeros papéis todos os dias. Para isso, precisamos de resiliência, determinação e força. Mas também precisamos de uma rede de apoio, porque ninguém transforma o mundo sozinha.
Só consegui me dedicar integralmente ao Grupo Corpo em Movimento e, hoje, às políticas públicas para milhares de pessoas com deficiência porque sempre contei com pessoas que caminharam ao meu lado.
Acredito que nenhuma mulher deve desistir dos seus sonhos. Como diz a frase: "Sonho que se sonha só é apenas um sonho; sonho que se sonha junto se torna realidade." Quando mulheres apoiam outras mulheres, construímos uma sociedade mais justa e mais humana.
Aprendi com as pessoas com deficiência que limite é um lugar que não existe quando há determinação. Mesmo acordando de madrugada para cuidar da minha filha mais nova, todos os dias encontro forças para recomeçar e continuar lutando por uma sociedade com igualdade de direitos e oportunidades para todos.

5 - Camila, para você o que é ser um mulherão?
Para mim, "mulherão" é toda mulher que acorda cedo, trabalha o dia inteiro, enfrenta a dupla jornada e, ainda assim, segue cuidando da família, dos seus sonhos e das pessoas ao seu redor, sem perder a sensibilidade.
Ser mulherão é ser reconhecida, respeitada e ter seus direitos garantidos. É poder viver com dignidade, ocupar todos os espaços e exercer o direito mais básico de qualquer ser humano: o de ir e vir sem medo.
Ser mulherão é enfrentar as adversidades, superar os desafios que uma sociedade ainda marcada pelo machismo nos impõe e, mesmo assim, seguir transformando realidades com coragem, competência e empatia.