Depois de perder a audição, artista transformou o silêncio em inspiração para novas obrasReprodução/Instagram

Olá, Meninas!
Têm histórias que fazem a gente parar e pensar na força que existe dentro de cada mulher. A da Paula Boechat é uma delas. Ela já viveu muitas vidas em uma só: morou fora do Brasil, passou por Fernando de Noronha, voltou para o Rio, se descobriu artista e fez da pintura uma das grandes companheiras da sua caminhada.
Mas foi depois de enfrentar uma meningite e perder completamente a audição dos dois ouvidos que precisou aprender a enxergar e sentir o mundo de uma outra maneira. E foi justamente nesse momento tão delicado que a arte ganhou ainda mais força.
Hoje, Paula pinta, cria esculturas a partir de materiais que seriam descartados e transforma até o silêncio em inspiração. Conversei com ela sobre essas mudanças, os recomeços, a arte e, claro, sobre o que é ser um verdadeiro mulherão.
Paula, você já viveu muitas fases e em lugares diferentes, de Paris a Fernando de Noronha, além do Rio. Como essas experiências influenciaram a mulher e a artista que você se tornou?
Essa pergunta é interessante, porque um filme passa na cabeça; Acredito muito na transformação do ser através do ambiente, e com certeza isso foi acontecendo gradualmente a cada fase da vida, na juventude busquei o conhecimento da arte, minha paixão desde muito nova, aos 19 anos fui para os EUA e lá me entendi como artista.
Depois de formada em design, no Rio e de assistir a muitas aulas maravilhosas na Escola de Artes Visuais do Parque Laje que pude mergulhar nesse universo de pessoas” fora da caixa”, e entendi meu lugar no mundo, também através do meu grande amigo Tunga (in memorian).
Depois disso, a maternidade como principal vórtice veio por inteiro; exerci a criatividade indo morar em Fernando de Noronha, onde construí grandes amizades e feitos em prol da maternidade. O Rio porém, é minha grande base e inspiração, onde vi minha família crescer, meu pai genial e amoroso, nossos mares, nossas montanhas, sim, penso que o meio tem grande potência em relação ao que vivemos. A beleza encontrará sempre sua função na cabeça de cada um.

A arte sempre esteve presente na sua vida. Quando você percebeu que a pintura era mais do que uma paixão e que realmente queria construir sua trajetória profissional através dela? E o que você busca transmitir com seus quadros?
Minha “veia artística”, veio através do meu avô Boechat, na pequena Guaçuí no Espírito Santo; ainda criança com 10 anos, adentrei um salão de carnaval que ele havia decorado no clube, e me deslumbrei.
Não conheci minha avó, mas sei que ela bordava e desenhava muito bem além de tocar piano... Na UCLA, um professor de pintura após uma aula, me olhou bem nos olhos e falou: você sabe que você tem que pintar, não é? Aquilo me deu uma coragem extra, voltei pro Rio determinada a pintar, o fato de ter tido uma juventude abastada e livre me ajudou muito, eu não pensava carreira com todas as responsabilidades da vida adulta, ainda sendo mulher no Brasil.
A pintura é muito orgânica em mim, o fato de ter construído meu infinito de “tubos’ me ajudou a organizar esse olhar e esse fluxo.

Você passou por uma grande transformação na vida depois de ter meningite e ficar totalmente surda dos dois ouvidos. Como foi enfrentar esse momento e, principalmente, encontrar forças para se reinventar?
A perda da audição foi um choque muito grande, primeiro porque eu era obcecada por vida saudável, e não imaginava nunca, acordar de um coma, surda! a música tem enorme influência na minha vida, não escutar meus filhos, agora que precisam tanto... Ainda estou enfrentando este luto, tentando ouvir de outras maneiras.

Mesmo diante de tantas mudanças, você continuou produzindo e recentemente também começou a trabalhar com esculturas, inclusive utilizando o lixo como matéria-prima. O que essa nova fase representa para você e qual mensagem deseja passar através dessas obras?
Continuar produzindo foi a única maneira de me sentir no mundo. A Surdez traz essa sensação de “desconexão’.
Porém, muito comum nas pessoas com perda auditiva, desenvolvi o “zumbido”, que por uma falta de estímulos sonoros, o cérebro reproduz um som aleatório, no meu caso: O mar.
Isso me trouxe diversos pensamentos acerca dos oceanos e o que temos feito através do consumo, as esculturas nasceram com vida própria através desse olhar, a Costela de Baleia feita de mensagens na garrafa (“messages in the bottle”), as medusas, e a capsula do tempo, são objetos feitos de “lixo”, os quais poderão falar sobre nos como civilização no futuro.

Hoje, olhando para toda a sua trajetória, desde as experiências fora do Brasil até os desafios pessoais e a retomada da carreira artística, quem é a Paula que existe por trás dos quadros? O que a arte representa na sua vida atualmente?
A Paula de hoje tenta entender essa nova realidade e a pintura tem sido a ferramenta perfeita, por isso jamais irei acreditar na “JMorte da pintura”

Paula, para você o que é ser um mulherão?

Cara, mulherão, é um pouco de TODAS nós ! Me lembro disso ser um problema para meu ex marido; Sim, eu era a Mulher Maravilha.! Somos mães, provedoras, educadoras, gerentes de logística, artistas, donas de casa, e muitas outras coisas! Penso que vale o esforço quando gozamos o amor e a amizade!