Ardência, urgência e escapes de urina não precisam fazer parte da rotina femininaReprodução/Internet

Olá, meninas!
Quando o assunto é saúde da mulher, alguns cuidados ainda ficam esquecidos. E a saúde urinária é um deles.
Muitas mulheres só procuram um urologista quando os sintomas já estão incomodando bastante, sem saber que infecções urinárias recorrentes, perda de urina, vontade excessiva de ir ao banheiro e até aquela necessidade de sempre procurar um banheiro por onde passam merecem atenção.
Para falar sobre esses sinais e esclarecer dúvidas tão comuns no dia a dia feminino, conversei com o urologista Dr. Ailton Fernandes (@ailtonfernandesurologia), que explica quando é hora de procurar ajuda, quais hábitos podem prejudicar a bexiga e o que podemos fazer para cuidar melhor do nosso sistema urinário.
Quais são os principais sinais de que uma mulher precisa procurar um urologista? Muitas ainda associam o especialista apenas à saúde dos homens.
Esse é um mito bastante comum. O urologista não é o médico do homem; é o especialista no aparelho urinário, tanto de homens quanto de mulheres. Rim, ureter, bexiga e uretra também fazem parte da saúde feminina.
A mulher deve procurar avaliação quando apresenta, por exemplo, infecções urinárias frequentes, ardência para urinar, sangue na urina, dor na região dos rins (região das costas), dificuldade para esvaziar a bexiga, vontade de urinar muitas vezes ao dia ou durante a noite, urgência para chegar ao banheiro ou perda involuntária de urina com necessidade ou não de uso de absorventes ou até mesmo fraldas.
Um exemplo muito comum é a mulher que começa a escolher onde vai sair de acordo com a localização dos banheiros. Ela vai ao shopping e primeiro procura o banheiro; entra no cinema e prefere sentar perto da saída; evita viagens mais longas com medo de não conseguir parar. Quando a bexiga começa a comandar a rotina, alguma coisa merece ser investigada.
Outro exemplo é a perda de urina ao tossir, espirrar, correr ou fazer exercício. Muitas mulheres consideram isso uma consequência normal da idade ou da gravidez.
É frequente, mas frequente não significa normal. Existem tratamentos muito eficazes.
Infecção urinária de repetição é normal ou merece uma investigação mais cuidadosa? Quando a mulher deve se preocupar?
Ter episódios repetidos de infecção urinária não deve simplesmente virar parte da rotina da mulher.
De maneira prática, chamamos atenção especialmente para quem apresenta duas ou mais infecções em seis meses ou três ou mais em um ano. Nesses casos, é importante avaliar por que isso está acontecendo e discutir estratégias de prevenção.
Um erro comum é a mulher sentir ardência, lembrar do antibiótico que tomou da última vez e repetir a medicação por conta própria. É aquela velha história: “o barato pode sair caro”. O uso repetido e inadequado de antibióticos favorece a resistência bacteriana e pode dificultar o tratamento das próximas infecções.
Sempre que possível, principalmente nos quadros recorrentes, é importante realizar exame de urina e urocultura para saber se realmente existe infecção e qual bactéria está envolvida.
Também é preciso procurar atendimento com maior rapidez quando a infecção vem acompanhada de febre, calafrios, dor lombar, náuseas, vômitos ou queda importante do estado geral, porque pode não ser mais apenas uma infecção da bexiga: a bactéria pode ter alcançado os rins.
E existe outro ponto importante: nem toda ardência para urinar é infecção urinária. Alterações ginecológicas, atrofia genital após a menopausa, cálculos urinários e algumas doenças da própria bexiga podem produzir sintomas semelhantes.
Segurar a vontade de fazer xixi por muito tempo pode prejudicar a saúde da bexiga? Quais problemas esse hábito pode causar?
A bexiga foi feita para armazenar urina, portanto não precisamos correr para o banheiro ao primeiro sinal de vontade. Mas uma coisa é adiar ocasionalmente; outra é passar o dia inteiro ignorando repetidamente uma bexiga cheia.
Isso é muito comum em mulheres que trabalham em ambientes onde não conseguem parar, professoras durante as aulas, profissionais de saúde durante plantões ou pessoas que evitam banheiros fora de casa.
A bexiga também funciona melhor quando respeitamos os sinais do corpo. Segurar urina excessivamente pode provocar desconforto e, em determinadas situações, favorecer problemas de esvaziamento e infecção.
No outro extremo, também não é interessante adquirir o hábito de urinar a toda hora “só por garantia”, mesmo sem vontade. A mulher pode acabar condicionando a bexiga a trabalhar com volumes muito pequenos.
Como diz o ditado, “nem oito, nem oitenta”: não é necessário correr ao banheiro a todo momento, mas também não devemos passar horas suportando uma vontade intensa de urinar.
É verdade que beber pouca água pode aumentar as chances de infecção urinária e outros problemas urinários? Quanto uma mulher deve beber por dia?
Sim. Uma hidratação adequada aumenta a produção de urina e ajuda o funcionamento do sistema urinário. Em mulheres com infecção urinária recorrente que bebem pouca água, aumentar a ingestão hídrica pode inclusive ajudar a reduzir novos episódios.
Mas não existe um número mágico que sirva para todas as pessoas. A necessidade de líquidos depende do peso, alimentação, temperatura ambiente, atividade física, perdas pelo suor e de algumas condições de saúde.
Para muitos adultos, algo em torno de 1,5 a 2,5 litros de líquidos por dia pode ser uma referência inicial, mas pessoas que trabalham no calor ou praticam exercícios podem precisar de mais. Por outro lado, pacientes com determinadas doenças cardíacas ou renais podem ter orientação médica para restringir líquidos.
Uma maneira muito simples de acompanhar a hidratação é olhar a cor da urina.
Urina amarelo-clara, semelhante à cor de uma limonada clara, geralmente indica boa hidratação. Se estiver constantemente amarelo-escura, principalmente ao longo do dia, pode ser um sinal de que está faltando água. A primeira urina da manhã naturalmente costuma ser mais concentrada.
Também não precisamos transformar a hidratação em competição. Urina completamente transparente durante todo o dia não é um objetivo. Beber água em excesso também não traz benefício adicional e, em situações extremas, pode ser prejudicial.
Uma regra prática é: mais importante do que andar contando copos é observar o corpo, a sede e a urina.
Quais cuidados simples no dia a dia podem ajudar a manter a bexiga e o sistema urinário saudáveis? Há hábitos que as mulheres deveriam abandonar?
A saúde da bexiga depende muito mais de bons hábitos repetidos todos os dias do que de soluções milagrosas.
O primeiro cuidado é manter uma hidratação adequada. Também é importante não passar longos períodos segurando uma vontade intensa de urinar, evitar o uso de antibióticos por conta própria e procurar avaliação quando os sintomas urinários se repetem.
Outro ponto importante é o funcionamento intestinal. Bexiga e intestino são vizinhos e conversam muito entre si. Prisão de ventre pode piorar sintomas urinários, especialmente urgência, frequência e dificuldade de esvaziamento.
Café, bebidas energéticas, álcool e alguns refrigerantes podem aumentar a urgência e a frequência urinária em pessoas mais sensíveis. Isso não significa que todas as mulheres precisem abandonar completamente o café. O importante é perceber se existe uma relação entre o consumo e os sintomas.
Também é fundamental não normalizar determinadas situações. Perder urina ao tossir não precisa ser considerado “coisa da idade”. Acordar cinco ou seis vezes durante a noite para urinar não deve ser simplesmente aceito. E ter infecção urinária várias vezes ao ano não significa apenas que a pessoa tem uma “bexiga fraca”.
O corpo costuma dar sinais antes de um problema se tornar maior. Como diz o ditado, “é melhor prevenir do que remediar”. Na urologia isso significa prestar atenção aos sintomas, manter hábitos saudáveis e procurar avaliação quando alguma coisa começa a se repetir ou interferir na qualidade de vida.