Hebe Camargo deixou um legado eterno para todas nós mulheresReprodução/Internet
Há 14 anos, no dia 29 de setembro de 2012, o Brasil se despedia de Hebe Camargo. Há algo muito simbólico nessa data: uma mulher de profunda fé partiu justamente no dia em que a Igreja Católica celebra São Miguel Arcanjo. Hebe era católica, tinha uma relação muito forte com a fé e era devota de Nossa Senhora.
Hoje, porém, não quero falar apenas como apresentadora. Quero falar como fã.
Acompanho Hebe desde criança. Eu era uma menina diante da televisão, encantada com aquela mulher que parecia iluminar a tela. Anos depois, já vivendo a minha própria história na TV, tive a felicidade de conhecer seu filho, Marcello, e construir com ele uma amizade. E a vida ainda me reservou algo que jamais poderia imaginar naquela época: hoje guardo em minha casa alguns objetos pessoais que pertenceram a Hebe. Seu carro, seu piano, a cadeira de seu closet e algumas de suas imagens religiosas, que estão no meu altar.
Às vezes me perguntam por quê.
A resposta é simples: por respeito.
Respeito à mulher, à comunicadora, à pioneira e à história que ela ajudou a escrever.
Hebe nasceu em Taubaté, no interior de São Paulo, em 1929. De origem simples, começou muito jovem no rádio, como cantora, e acompanhou praticamente o nascimento da televisão brasileira. Em 1955, na TV Paulista, tornou-se apresentadora de “O Mundo é das Mulheres”, um programa pioneiro que marcou o início de uma trajetória que a transformaria em uma das maiores comunicadoras da história do país.
E eu gosto de parar nesse nome: “O Mundo é das Mulheres”.
Estamos falando de 1955. Pensem no significado disso naquele momento. Em uma época em que a televisão e tantos outros espaços profissionais eram predominantemente masculinos, Hebe estava ali. Falando, entrevistando, conduzindo, ocupando o seu lugar.
E abrindo caminho para todas nós que chegaríamos depois.
Hebe foi uma mulher à frente do seu tempo sem precisar abrir mão de sua feminilidade para demonstrar força. Era poderosa e afetiva. Sofisticada e espontânea. Divertida, irreverente, sensível, autêntica. Tinha coragem para dizer o que pensava e uma capacidade extraordinária de fazer o público sentir que estava conversando com alguém de casa.
Seu sofá entrou para a história. Seus vestidos, suas joias, seu riso inconfundível, os famosos selinhos e aquele jeito absolutamente impossível de copiar fizeram dela muito mais do que uma apresentadora.
Hebe virou uma linguagem da televisão brasileira.
E talvez seja justamente por isso que sua ausência física nunca conseguiu apagar sua presença.
Eu sou apresentadora e conheço a responsabilidade e a beleza de estar diante de uma câmera. Por isso tenho consciência de que, se hoje tantas mulheres podem entrar em um estúdio, conduzir um programa, entrevistar, opinar e ocupar esse espaço com autoridade, é também porque outras chegaram antes.
Hebe chegou antes.
Se hoje eu estou aqui, diante de uma câmera, uma parte desse caminho eu devo a ela.
É também por isso que guardo seus objetos com tanto carinho. Não os enxergo simplesmente como pertences de uma celebridade. Para mim, são fragmentos da história da televisão brasileira. São lembranças de uma mulher que ajudou a construir a profissão que escolhi para a minha vida e que inspirou não apenas a minha geração, mas certamente continuará inspirando muitas outras.
Quatorze anos se passaram. Fica a saudade, mas fica, sobretudo, o legado.
Existem pessoas que conseguem uma coisa muito rara: partem sem realmente ir embora.
Hebe é uma delas.
As gerações mudam. A televisão muda. A maneira de se comunicar muda. O mundo muda. Mas algumas referências permanecem porque foram verdadeiras demais para pertencer apenas ao seu tempo.
E quando se falar em pioneirismo, espontaneidade, coragem, feminilidade e televisão brasileira, um nome continuará atravessando gerações: Hebe Camargo.
Deixo aqui, neste 29 de setembro, minha gratidão, minha admiração e, principalmente, meu respeito.
Porque rainhas não precisam estar no trono para continuarem sendo rainhas.
Hebe foi, é e sempre será a Rainha da Televisão Brasileira.





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