Sinal do Vale, em Caxias, recebe projeto de formação em restauração ecológicaDivulgação

Duque de Caxias - O Rio de Janeiro precisa restaurar mais de um milhão de hectares de floresta — e formar quem vai fazer isso é um dos maiores desafios do estado. Estima-se que 550 mil hectares de Áreas de Preservação Permanente e outros 450 mil hectares de mananciais sejam prioritários para restauração, áreas diretamente ligadas ao abastecimento de água dos 92 municípios fluminenses. Ao menos 24 deles têm menos de 20% de cobertura de Mata Atlântica — um sinal de alerta para a segurança hídrica, a biodiversidade e a capacidade das cidades de enfrentar as mudanças climáticas.
Sinal do Vale, em Caxias, recebe projeto de formação em restauração ecológica - Divulgação
Sinal do Vale, em Caxias, recebe projeto de formação em restauração ecológicaDivulgação


O estado ainda guarda cerca de 60% das espécies da Mata Atlântica e florestas que armazenam aproximadamente 50 milhões de toneladas de carbono. Mas esse patrimônio convive com um passivo enorme: apenas um terço da vegetação nativa que resta corresponde de fato à cobertura florestal. O restante é fragmento, degradação, paisagem que já não cumpre sua função ecológica.

Restaurar não é simples. Não se trata apenas de plantar árvores. A recuperação de ecossistemas exige diagnóstico, planejamento, manejo contínuo e decisões específicas para cada ambiente — da floresta à restinga, do manguezal à encosta. E exige, sobretudo, gente capacitada para fazer isso no território. Com 88% das propriedades rurais tendo até quatro módulos fiscais, a restauração depende de mobilizar milhares de pequenos proprietários, não de grandes operações centralizadas. É aí que está o nó.

"A gente conseguiu construir um mecanismo financeiro — o problema hoje não é mais a ausência de recurso. O gargalo é outro: criar uma cultura florestal e capacitar tecnicamente quem atua no território. Temos municípios com uma necessidade gigantesca de restaurar e não têm um viveiro, nem público nem privado", explica Telmo Borges, superintendente de Mudanças do Clima e Florestas da Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade (SEAS-RJ).

Para Thais Corral, fundadora e diretora do Instituto Sinal do Vale, a saída passa por uma mudança de lógica: conectar restauração, formação e bioeconomia em uma abordagem territorial integrada — de forma que comunidades e proprietários de terra deixem de ser beneficiários e se tornem protagonistas da transformação.
"A restauração não escala com projetos isolados. Ela escala quando o território passa a funcionar como um sistema vivo e interdependente. Sem essa integração, a tendência é permanecer pontual e dependente de financiamento externo", afirma Corral, que também é co-presidente do Conselho da Década da ONU para a Restauração dos Ecossistemas.

Foi dentro dessa lógica que o Sinal do Vale realizou, no Recôncavo da Baía da Guanabara, uma formação voltada a profissionais, gestores públicos, agricultores e estudantes interessados em atuar na restauração ecológica. A iniciativa integra o projeto Recôncavo da Guanabara – Escola de Restauração de Ecossistemas, realizado em parceria com a Petrobras. Ao longo de dois meses, os participantes percorreram o ciclo completo de um projeto de restauração — do planejamento à prática de campo — em áreas como a REGUA, a Maloca Florestal em Cachoeiras de Macacu e o Parque Natural Municipal Barão de Mauá, em Magé e no campus do Sinal do Vale.
Sinal do Vale, em Caxias, recebe projeto de formação em restauração ecológica - Divulgação
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Para Ébersson Conceição, guarda-parque na Serra da Tiririca, o curso chegou na hora certa:]
"Temos todas essas áreas — restinga, encosta, manguezal. Agora vou poder aplicar o que aprendi diretamente na nossa unidade de conservação."

A coordenadora executiva do projeto, Mari Chiba, resume o que está em jogo:
"O desafio já não é apenas ambiental — é de articulação entre pessoas, conhecimento e território, envolvendo diferentes atores públicos, privados e da sociedade civil. A restauração acontece na paisagem, mas depende de quem está nela — e é ela, enraizada no contexto de cada território, que inclusive vai nos dar as condições de adaptação às mudanças climáticas que estão por vir. Por isso, conectar conhecimento com prática é o que permite que essas soluções ganhem escala e se sustentem ao longo do tempo."