De acordo com dados da Casas Bahia, 298 lojas físicas foram fechadas em todo o BrasilDivulgação / Casas Bahia

Rio - O Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial, após acumular R$ 17,3 bilhões em dívidas e prejuízo de R$ 10,1 bilhões apenas entre abril e junho. A situação da varejista se soma às dificuldades enfrentadas por outras grandes redes, que também fecharam lojas, demitiram funcionários e deixaram fornecedores em dificuldade.  O DIA ouviu especialistas para analisar os impactos desse quadro para a economia fluminense.
Em 2024, a companhia obteve a homologação de um plano de recuperação extrajudicial destinado a reorganizar bilhões de reais em dívidas. Pouco mais de dois anos depois, a Casas Bahia recorreu novamente ao Judiciário, agora por meio de uma recuperação judicial mais abrangente, alegando juros elevados, restrição de crédito e deterioração das condições financeiras.
Renato Franklin, CEO do Grupo Casas Bahia, afirma que, por mais que mudanças tenham ocorrido, elas não foram suficientes para mudar o cenário da empresa.
"Nos últimos anos, fizemos um trabalho importante de transformação da companhia. Mas precisamos reconhecer que essa evolução, embora crucial, não foi suficiente diante de um cenário de crédito mais restritivo, juros elevados e consumo pressionado. A realidade mudou e, junto ao nosso Conselho de Administração, tomamos decisões para adequar a Companhia a essa nova realidade", destaca Franklin.
De acordo com dados do grupo, 298 lojas físicas foram fechadas em todo o país, com redução de 1,9 mil postos de trabalho. O Rio de Janeiro contava, em maio, com 90 filiais. No entanto, a empresa não informou quantas unidades fluminenses foram afetadas.
"A estratégia daqui em diante é operar uma companhia menor, mais seletiva e concentrada nas atividades capazes de gerar retorno e caixa. Isso significa preservar as operações com maior capacidade econômica, adequar custos e investimentos ao novo nível de atividade, melhorar o giro de estoques e reduzir a necessidade de capital empregado", diz o CEO.
O professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Vicente Ferreira aponta que o crédito é um fator fundamental para explicar a situação atual do varejo.
Professor da área de microeconomia do Instituto de Economia da UFRJ, Vicente Ferreira - Arquivo pessoal
Professor da área de microeconomia do Instituto de Economia da UFRJ, Vicente FerreiraArquivo pessoal
"O varejo brasileiro ainda depende muito de crédito, e o crédito continua muito caro. Mesmo com a Selic caindo um pouco, isso praticamente ainda não teve efeito nas taxas de crédito para o consumidor. As famílias também estão no limite do endividamento, e os efeitos do Desenrola ainda vão levar algum tempo para serem sentidos na recuperação do poder de compra. É um caminho, mas ainda deve levar um tempo considerável", aponta o professor.
Os estabelecimentos físicos também sofrem com o avanço das vendas digitais, destaca Ferreira:
"Quando falamos especificamente do varejo físico, a questão dos marketplaces, que vêm ganhando cada vez mais espaço no mercado, torna esse cenário ainda mais difícil. Os juros altos não afetam apenas o crédito ao consumidor, mas também aumentam o custo de financiar os estoques das empresas."
Procurados, o Sindicato dos Lojistas do Comércio do Município do Rio de Janeiro (SindilojasRio) e o Clube de Diretores Lojistas do Rio de Janeiro (CDLRio) avaliam que o "fechamento das lojas e o crescente número de pedidos de falência e recuperação judicial são efeitos colaterais decorrentes da política de estabilização inflacionária".
"A política monetária ativa, com juros reais na casa dos 10% anuais, atinge a todos, mas preferencialmente os descapitalizados. Assim, as empresas que já passaram por dificuldades se tornam imprensadas pela ação do mercado. Nesse caso, a conjuntura parece que deprecia a capacidade de os agentes conseguirem sobreviver. Tanto empresas quanto famílias", afirmam as entidades em nota oficial.
"O peso dos juros nas alturas encarece o capital e também afeta contrariamente o consumo, investimentos e crédito. O comércio, situado entre produção e consumidor final, ao fazer essa ligação, se retrai. A fragilidade do setor fica exposta ao fechar as portas, vez que não foi possível levar os produtos que a sociedade necessita. Isso acontece quando as vendas enfraquecem ou porque os custos operacionais e financeiros tornam-se altos e inviáveis."
A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico informou que não possui dados específicos sobre o impacto dos fechamentos das lojas na cidade do Rio. Procurada, a Secretaria Estadual da Fazenda não retornou o contato. O espaço segue aberto para manifestações.
Impactos na economia fluminense
Roberto Kanter, economista e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), frisa que o impacto da crise do setor varejista pode ter efeitos expressivos sobre a economia fluminense.
Roberto Kanter, economista e professor da FGV - Arquivo pessoal
Roberto Kanter, economista e professor da FGVArquivo pessoal
"O impacto pode ser significativo porque o comércio possui enorme capilaridade econômica e capacidade de geração de empregos. Quando uma grande loja fecha no Rio de Janeiro, enxergamos imediatamente os empregos dos vendedores, caixas, gerentes e profissionais administrativos. Mas esse é apenas o primeiro círculo do impacto", observa.
Segundo Kanter, em torno de cada operação existem diversos serviços e atividades que não são visíveis.
"Ao redor daquela operação existem transportadoras, empresas de limpeza, segurança, manutenção, alimentação, estacionamento e diversos prestadores de serviços. Há também uma questão qualitativa relacionada ao emprego", pontua.
Milene Dellatore, especialista em finanças, investimentos e sócia-diretora do Grupo Mide, também destaca que o fechamento de grandes lojas gera um "efeito territorial".
Especialista em finanças, investimentos e sócia-diretora do Grupo Mide, Milene Dellatore - Arquivo pessoal
Especialista em finanças, investimentos e sócia-diretora do Grupo Mide, Milene DellatoreArquivo pessoal
"Uma loja de grande porte costuma gerar fluxo para restaurantes, estacionamentos, transportes e pequenos negócios do entorno. Quando ela fecha, há perda de renda e de circulação de consumidores naquela região", diz.
"Além disso, as novas vagas eventualmente criadas pelo comércio eletrônico não compensam necessariamente os empregos perdidos nas lojas físicas. São funções diferentes, muitas vezes concentradas em centros logísticos localizados em outros municípios ou estados", destaca a especialista.
Outras empresas afetadas 
A crise no varejo também afeta outras empresas, além da Casas Bahia. Recentemente, outras grandes redes passaram por dificuldades. Hugo Silveira, fundador e CEO do Grupo HRZ, holding voltada para o crescimento e as vendas no varejo, garante que casos como o da Americanas e do Grupo Pão de Açúcar mostram "gatilhos diferentes para o mesmo desfecho".
Hugo Silveira, fundador e CEO do Grupo HRZ - Arquivo pessoal
Hugo Silveira, fundador e CEO do Grupo HRZArquivo pessoal
"No caso do Grupo Pão de Açúcar, a empresa entrou em recuperação extrajudicial em março de 2026, depois de fechar 39 lojas em dois anos e de já ter encerrado a operação de hipermercados Extra em 2021. É uma reestruturação de dívida financeira, com operação preservada, mas o diagnóstico de origem é o mesmo: estrutura dimensionada para um ciclo de juros que não existe mais", afirma.
"Já o caso da Americanas é anterior e tem componente próprio, com inconsistências contábeis reveladas em 2023 e uma recuperação judicial de R$ 43 bilhões. Serve de referência para entender que o setor entrou nesta fase de juros altos já com balanços fragilizados", pontua.
De acordo com Silveira, essas redes foram construídas em um mundo em que a loja física era o único contato com o cliente:
"Hoje o ponto de contato é o celular e o crédito está pulverizado em fintechs, bancos digitais e no próprio marketplace. A loja continua importante, mas deixou de ser o ativo que sozinho justifica o custo fixo."
Procurada, a assessoria da Americanas afirmou, por meio de nota, que aguarda a decisão da Justiça:
"A Americanas afirma que aguarda apenas a decisão do juízo para o encerramento da Recuperação Judicial, solicitado em março de 2026, após concluir os compromissos previstos no Plano, aprovado por 91% dos credores. Tanto o Ministério Público quanto o Administrador Judicial já se manifestaram favoravelmente ao pedido, confirmando o cumprimento das obrigações pela Companhia, que segue avançando de forma consistente em sua estratégia de 100 anos, a serem completados em 2029, que tem a loja física no centro. A disciplina na gestão e o foco em crescimento sustentável já se refletem na melhora operacional acumulada de cerca de R$ 500 milhões em dois anos e no desempenho do negócio."
A reportagem entrou em contato com o Grupo Pão de Açúcar, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto.
Mercado imobiliário 
Outro setor que pode ser diretamente impactado pelo fechamento das lojas do varejo é o mercado imobiliário. A especialista em finanças Milene Dellatore avalia que o fechamento de grandes redes pode gerar impactos significativos.
"As grandes redes ocupam áreas extensas e funcionam como âncoras de fluxo. Nem sempre é simples encontrar outro locatário disposto a assumir um imóvel desse tamanho e com o mesmo valor de aluguel", explica.
"Quando uma loja âncora fecha, o proprietário pode precisar reduzir o aluguel, conceder carência ou investir na divisão e adaptação do espaço. Nos shoppings, a perda de uma âncora também pode diminuir o fluxo para as lojas menores, pressionando vendas, aluguéis e taxas de ocupação", explica.
Já Hugo Silveira acrescenta que, apesar de os dados do setor ainda não apontarem aumento da vacância, que corresponde à quantidade de imóveis comerciais desocupados, há risco de o mercado imobiliário ser impactado.
"O problema não é a quantidade de vacância, mas o tipo. Uma loja de eletromóveis ocupa entre 800 e 3 mil metros quadrados, com pé-direito e layout específicos. Não existe substituto natural na proporção de um para um. O empreendedor precisa fatiar o espaço em unidades menores ou converter o uso", frisa.
Segundo o especialista, a reconversão de uso é uma saída que já está em curso.
"Os espaços que estão absorvendo essas áreas são clínicas e centros de saúde, academias, educação, alimentação, entretenimento e serviços. É a transformação do shopping em centro multifuncional, e ela explica por que o fluxo de visitantes caiu 1% em 2025, mas o tempo de permanência subiu para 80 minutos, recorde histórico, e o gasto médio passou de R$ 121 para R$ 126."
O CEO também pontua que o comércio de rua acaba sendo mais afetado. Segundo ele, nos imóveis em vias públicas, não há uma gestão centralizada capaz de coordenar a reconversão dos espaços.
"Um imóvel grande vago em corredor tradicional do Centro, de Madureira, de Campo Grande ou nos centros da Baixada demora mais para reciclar, pressiona o preço do metro quadrado da quadra inteira para baixo e degrada a percepção de segurança da região."
Datas importantes para o varejo
Até o final do ano, o comércio ainda conta com datas importantes, como o Dia das Crianças, a Black Friday e o Natal, que poderão aumentar o faturamento, afirma o especialista da FGV Roberto Kanter.
"Black Friday e Natal podem aumentar o faturamento, acelerar o giro dos estoques e melhorar a geração de caixa. Mas uma empresa muito endividada não resolve seu problema estrutural simplesmente vendendo mais", alerta.
Kanter também destaca que a forma de comprar do consumidor mudou.
"Existe ainda uma característica nova. O consumidor chega à Black Friday extremamente informado. Muitas vezes entra na loja física com o celular na mão, comparando aquele preço com o site da própria empresa, marketplaces e concorrentes. Isso aumenta extraordinariamente a transparência do mercado", conta.
"Portanto, acredito que essas datas beneficiarão principalmente as empresas capazes de combinar preço competitivo, disponibilidade de estoque, entrega rápida, experiência digital e atendimento qualificado", conclui.