Empresas utilizam sistemas de IA no recrutamento para análise de currículos e realização de testesDragos Condrea / Magnific
Esse foi o caso do engenheiro agrônomo Alexandre de Meireles, de 28 anos. Ele relata que começou a fazer alterações em seu currículo nos últimos dois anos, porque sentia que não tinha sucesso nos processos seletivos aos quais se candidatava. Para isso, fez cursos e assistiu vídeos pela internet que indicaram as modificações que ele deveria realizar.
“Possivelmente, meu currículo não me apresentava da forma ideal para as vagas”, conta. “A principal mudança foi saber direcionar o meu perfil às vagas que combinam comigo e com a minha formação. Não dá para aplicar para posições mais elevadas se o que eu busco é estágio ou júnior. As vagas precisam se alinhar com esses interesses, e existem termos específicos para o setor que o recrutador e esses sistemas automatizados rastreiam nos currículos”, diz.
“A inteligência artificial vem sendo incorporada às etapas iniciais dos processos seletivos para ajudar recrutadores a lidar com um volume cada vez maior de informações. Entre os principais benefícios estão a agilidade na análise de informações, a otimização de tarefas operacionais e o apoio à tomada de decisão. Isso permite que recrutadores dediquem mais tempo às etapas que exigem julgamento humano, como entrevistas, avaliação comportamental e análise de potencial”, explica.
“Dentro da plataforma, a gente já tem um ranqueamento automático dos perfis que são mais aderentes à vaga. A gente consegue também incluir o que nós chamamos de fit cultural, que é um teste de adesão à nossa cultura. Toda vez que o candidato faz a inscrição nessa plataforma, além dele ser ranqueado por competências, ele também é ranqueado por fit cultural.”
Gerstner destaca, porém, que o sistema de ranqueamento pode eliminar bons candidatos que não tenham preenchido adequadamente o perfil na plataforma de seleção.
A IA pode eliminar um candidato?
“O impacto na escolha é real, mas sempre mediado por pessoas. A IA organiza e prioriza, mas sem aprovar ou reprovar ninguém sozinha; essas decisões são sempre humanas. Os testes e avaliações existem para ajudar recrutadores a entender como o candidato trabalha e o quanto ele se conecta com a vaga e a cultura da organização. Ou seja, são ferramentas de alinhamento, não de eliminação”, esclarece.
“Para os candidatos, o benefício talvez seja ainda maior [que em relação a empresas]: cada candidatura é analisada ao menos uma vez. Isso, que parece básico, simplesmente não acontecia antes”, afirma a diretora.
Apesar dos possíveis vantagens do uso da inteligência artificial no recrutamento, a maior parte dos candidatos – 71,4% – tem medo de ser eliminado de forma injusta por causa dos algoritmos. O dado está em um levantamento da Heach Recursos Humanos. O CEO da empresa, Elcio Paulo Teixeira, pensa que o temor é, na realidade, um “mito”.
“Acredito que existe um mito de que a IA elimina candidatos automaticamente. Na realidade, o que mais prejudica um profissional ainda é um currículo mal elaborado ou que não comunica adequadamente sua trajetória”, destaca.
'Caixa preta' dos processos seletivos
“Quando eu envio o currículo para essas grandes empresas, sinto como se fosse uma caixa preta. Envio o currículo e não sei o que está acontecendo. Por muitas vezes, não obtenho respostas, não sei em que fase o meu currículo está. Parece que ele está [sempre] em um estágio inicial de análise de uma inteligência artificial, e raramente consigo entrar em contato com uma pessoa de verdade para seguir com a vaga”, conta.
“Eu queria que essa informação fosse mais democratizada, tipo: como fazer com que, de fato, eu envie o meu currículo e seja chamado para uma entrevista e entre em contato com um humano de alguma forma.”
O HR Business Partner Matheus Gerstner observa outro problema no uso de sistemas automatizados na seleção de candidatos. Ele argumenta que pessoas que não têm familiaridade ou acesso a recursos tecnológicos são excluídas dos processos.
"Infelizmente, acaba que quem não sabe utilizar a tecnologia ou às vezes não tem uma acessibilidade de internet ou não tem um equipamento adequado, essa pessoa fica um pouquinho atrás. Hoje, nem todas as empresas também consideram os currículos impressos [entregues presencialmente]”, ressalta.
“O candidato, quando entra na plataforma, precisa ter essa visibilidade [de saber em que fase está], e muitas vezes não é o que acontece. O profissional que está ali por trás da plataforma, o recrutador, não atualiza, não tem essa rotina.”
Como fazer um bom currículo
Um bom currículo também deve conter palavras-chave presentes no anúncio da vaga. Para Ana Paula Prado, CEO da Redarbor Brasil, essa é uma forma de demonstrar que o candidato atende aos requisitos solicitados.
O diretor executivo da Michael Page, Lucas Oggiam, alerta que o uso da IA para fazer adaptação de currículos gerou um cenário de padronização. Dessa forma, acredita que o foco deve ser mostrar as capacidades do profissional.
Já Gerstner aponta que a formatação do documento é outro ponto de atenção. O ideal, diz, é enviar o documento em formato PDF. Ele também destaca que se deve evitar layouts complexos na hora de fazer o arquivo.
“O currículo tem que seguir uma formatação simples. Letra [tamanho] 12, fonte Arial ou Times New Roman. Quanto mais foto, caractere, lacuna, a IA não faz a leitura disso, o que leva a um ranqueamento baixo. O currículo tem que ser padrão: ele tem que ter que ter título, subtítulo, letra padrão e fonte padrão, porque senão a IA não faz essa leitura”, reforça.




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