Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Romeu ZemaCarlos Elias Júnior/Agência O DIA

O cancelamento do debate presidencial que seria promovido pela TV Globo na noite desta quinta-feira (1º) provocou reações imediatas dos candidatos que compareceram aos Estúdios Globo, na Zona Sudoeste do Rio. Sem a realização do encontro, postulantes à Presidência aproveitaram entrevistas concedidas à imprensa para criticar decisões judiciais que antecederam o evento, além da ausência de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
A emissora decidiu cancelar o debate após a confirmação de que Lula e Flávio não participariam do encontro. A decisão ocorreu horas depois de o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizar a participação de Renan Santos (Missão) no programa. Antes disso, uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já havia determinado alterações nas regras previstas para o debate.

O primeiro a falar foi o candidato Romeu Zema (Novo). O ex-governador de Minas Gerais afirmou que o episódio demonstra uma interferência do Judiciário no processo político.

"Estamos assistindo o Judiciário fazer política no Brasil. Nada contra a participação de qualquer candidato, mas sempre tivemos regras para serem obedecidas. Faltando poucos minutos, uma decisão judicial sem pé nem cabeça muda tudo e um outro desiste. Estamos vendo a Justiça a serviço do Lula", declarou.

Zema rebateu especulações sobre uma eventual retirada de sua candidatura. "Vou completar 62 anos e nunca desisti de nada da minha vida no meio do caminho. Um time que está em campo aos 45 do segundo tempo vai desistir? Em hora nenhuma desistimos da campanha. Levarei a campanha até o final", acrescentou.

Outro que fez duras críticas foi o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD). O candidato classificou o cancelamento como um ataque ao processo democrático e afirmou que decisões judiciais influenciaram diretamente o cenário eleitoral.

"Acho que é um atentado à democracia brasileira, destruíram o processo eleitoral no país. Desde o primeiro momento, o Lula fez questão de não comparecer e buscar uma linha paralela para tentar esvaziar. A partir daí, tivemos as decisões do TSE e do STF", disse.
Caiado também elevou o tom contra integrantes do Judiciário. "Eles desejam chegar ao ponto da ditadura da toga. Querem decidir entre eles quem vai ser o presidente da República. Os responsáveis pelos poderes constituídos estão destruindo, levando esses poderes à ruína perante a sociedade brasileira", afirmou.

O escritor Augusto Cury (Avante) também demonstrou insatisfação com o cancelamento e direcionou críticas tanto ao Judiciário quanto aos dois líderes da corrida presidencial.

"Será que estamos precisando de psiquiatra nesse teatro da política? Essa insegurança jurídica precisa terminar. O STF tem que ser discreto. Ninguém sabe nomes da Suprema Corte americana, mas, no Brasil, sabemos todos. O STF ganhou protagonismo inaceitável", declarou.

Segundo Cury, sua candidatura enfrenta dificuldades para alcançar maior visibilidade. "Já calaram minha voz pelo algoritmo. Foi cruel. Apenas 40% das pessoas sabem que eu sou candidato. Isso é atentado à democracia", afirmou.

O candidato ainda dirigiu críticas diretamente a Lula e Flávio Bolsonaro. "Vocês se acovardaram. Vocês amam muito mais o cargo do que amam a sociedade brasileira. São duas famílias querendo sequestrar o Brasil. Querem calar a verdadeira terceira via", disse.

Flávio Bolsonaro culpa o STF

Já o candidato Flávio Bolsonaro (PL), que também desistiu de participar do encontro, se pronunciou por meio de uma transmissão ao vivo nas redes sociais. O candidato atribuiu o cancelamento do debate às decisões judiciais que antecederam o evento e criticou a atuação do Judiciário.

“Em protesto indignado à censura e à interferência do Judiciário que levou a Globo a cancelar o debate. Nunca tinha visto uma interferência tão descarada, que desrespeitou milhões de brasileiros que esperavam ver um debate”, afirmou.

Segundo o candidato, ele já se preparava para seguir em direção aos estúdios da emissora quando tomou conhecimento das decisões. Entretanto, às 19h24, Flávio Bolsonaro anunciou na rede social X que não iria à sabatina. 

"Eu estava pronto para ir à Globo para fazer um debate saudável. Antes daquele que seria o principal momento da campanha, onde milhões de pessoas assistiriam ao confronto de ideias, decisões instauraram a censura do debate", declarou.

Ele também criticou a determinação que impedia candidatos presentes de direcionarem perguntas ao presidente, caso ele não comparecesse ao encontro. "A proibição de mostrar o púlpito do Lula e, pior do que isso, a determinação de que os candidatos presentes não poderiam fazer perguntas ao Lula representam a maior censura dos últimos tempos", disse.

Renan Santos critica

O candidato Renan Santos (Missão) também reagiu ao cancelamento. Em vídeo publicado nas redes sociais, ele atribuiu a desistência de Flávio Bolsonaro ao receio de confronta-lo.

"Flávio Bolsonaro cancelou sua participação três minutos após a minha participação ser oficializada. Três minutos. O medo, a paúra que esse cara tem de mim fez o cancelamento dele rolar três minutos depois”, declarou.

Renan afirmou que sua equipe tentou acessar os Estúdios Globo, mas não conseguiu entrar após a decisão da emissora. "A Rede Globo, por alguma razão, não deixou minha equipe entrar. Minha equipe foi até o Projac. Não abriram a porta. Eu estava indo para lá quando descobri que o debate foi cancelado", disse.

O candidato também criticou a ausência dos dois líderes das pesquisas de intenção de voto e logo depois partiu para um ato na frente da sede do jornalismo da Globo, no Jardim Botânico.

"Essa é uma eleição em que você não saberá as propostas da maior parte dos candidatos porque eles não querem falar. O Lula já tinha avisado que não iria. O Flávio, três minutos depois da minha participação ser oficializada, fugiu também. O que eu tenho, o que eu digo, que dá tanto medo nessa gente?", questionou.

A TV Globo informou que cancelou o encontro devido às "sucessivas decisões judiciais tomadas momentos antes da realização do debate", classificadas pela emissora como fator de insegurança jurídica. Lula já havia anunciado na quarta-feira (30) que não participaria do programa. O presidente optou por conceder entrevista ao Flow Podcast no mesmo horário em que o debate seria transmitido.

O cancelamento ocorreu a três dias do primeiro turno das eleições presidenciais, em um momento em que as pesquisas apontam disputa apertada entre Lula e Flávio Bolsonaro. Segundo o Datafolha divulgado nesta quinta-feira, Lula aparece com 42% das intenções de voto no primeiro turno, contra 38% de Flávio. Em uma eventual segunda rodada, o petista tem 48%, enquanto o candidato do PL registra 45%, resultado dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.