Candidato à Presidência da República durante o Flow Podcast, que teve 1,6 milhão de visualizaçõesReprodução/ Canal Flow Podcast

Depois de recusar o convite para participar do debate com candidatos à Presidência da República na TV Globo, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, participou, na noite desta quinta-feira (1º), do Flow Podcast, transmitido ao vivo pelo canal do programa no YouTube e pelo IG. Também nesta noite, a emissora carioca cancelou o debate após as decisões judiciais alterarem as regras do programa. 
A entrevista foi conduzida por Igor Coelho, conhecido como Igor 3K. O programa contou com mais de 1,6 milhões de pessoas acompanhando a transmissão em tempo real. O Flow ganhou projeção nacional com entrevistas de longa duração e formato informal e, ao longo dos últimos anos, recebeu políticos, influenciadores, empresários e personalidades de diferentes áreas.

Lula iniciou a entrevista comentando a decisão de não comparecer ao debate da TV Globo. "A disputa para a Presidência da República é coisa séria, não é sobre quem vai lacrar mais. Esses debates da Globo não produzem nada e começam a fazer gracinha, fazer piada, pegadinha. A Presidência da República é coisa séria. Não é quem vai lacrar mais. Não dá para levar quem está com 45% para disputar com quem está com 1%. Então, decidi não ir. As pessoas me conhecem bem", disse.

Lula afirmou ainda que acredita que as eleições possam ser definidas já neste domingo (4). "Acho que as eleições serão definidas no primeiro turno". 

Críticas a Flávio Bolsonaro

Durante a entrevista, Lula também fez críticas ao adversário na corrida presidencial, o senador Flávio Bolsonaro (PL). "Uma coisa é disputar a Presidência com uma pessoa desqualificada como Flávio Bolsonaro. Ele não tem passado, não tem presente, não tem futuro. Nunca trabalhou na vida. Viveu a vida com dinheiro público e passa a ideia de que não é política. O passado dele é tenebroso. O que ele tem é o anti-Lula e anti-PT. Meu adversário não tem qualificação para ser nem síndico de prédio. [...] Esse rapaz nunca trabalhou na vida, foi eleito deputado aos 21 anos e seguiu a vida ganhando dinheiro público", afirmou.

Caso Banco Master

Questionado se o caso envolvendo o Banco Master seria o maior escândalo do país, Lula afirmou que ainda não seria possível fazer essa avaliação, mas disse que a dimensão das investigações poderia levar a essa conclusão. As apurações sobre o banco envolvem suspeitas de fraudes bilionárias e têm como um dos principais alvos o empresário Daniel Vorcaro. O caso envolve operações com instituições financeiras e precatórios.

"É preciso investigar todo mundo. E não ter proteção, do presidente da República ao ministro do STF, deputado e senador. Eles pegaram um agiota e transformaram em banqueiro. Eu transformei o banqueiro deles num prisioneiro. Eles criaram o Banco Master. Vorcaro não era apenas um ladrão, era um mágico. Ele envolvia todo mundo, até o Luciano Huck. Que banca o moderno e, de repente, a gente descobre que ele usava o avião do Vorcaro para baratear a produção do programa dele na Globo", afirmou Lula, ao comentar a atuação de Daniel Vorcaro.

O presidente também afirmou que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), deveria dar explicações à população sobre a sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e sobre os contratos milionários do escritório de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, com o banco.

"Acho que nós temos que apurar todo o mundo. Eu disse ao Alexandre de Moraes: 'você deve uma explicação à sociedade brasileira, você poderia ter dito 'a mulher é dona do meu escritório, ela herdou o escritório, ela que fez o contrato, eu não sou advogado, faz 15 anos que eu não advogo, o escritório é dela''. Mas você não diz nada", afirmou. Lula também voltou a defender as investigações sobre todos os ministros do STF que possam ter relação com o Banco Master. 

Proibição das bets

Lula comentou sobre a proibição das bets e afirmou que o problema começou a ser enfrentado quando seu governo começou: "A gente começou a tentar regular, e eu fui percebendo que estava cada vez mais difícil".
Na última sexta-feira (25), o Governo Federal anunciou a proibição total de apostas de quota fixa no país, as chamadas bets. A vedação inclui também jogos online e cassinos virtuais no país. A proibição, feita a nove dias das eleições, foi formalizada em uma Medida Provisória (MP) assinada pelo presidente Lula.
"Eu vou acabar com as bets doa a quem doer. A Globo vai ficar chateada porque é dona da BetMGM. Sabia que ia ter como adversário alguns influencers que ficaram rico incentivando pessoas a jogar bet. Agora dizer que vai acabar com futebol?", disse o presidente ao comentar sobre a proibição. 

Relação com Trump

Ao falar sobre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Lula contou que pretende enfrentá-lo no campo do discurso. O presidente citou artigos publicados na imprensa norte-americana como uma forma de dialogar com a população dos EUA e disse que exige respeito na relação entre os dois países.
Na sequência, Lula chamou Flávio Bolsonaro de "vira-lata" e "traidor da pátria" e afirmou que o senador teria enviado o irmão, Eduardo Bolsonaro, aos Estados Unidos para falar mal do Brasil. O presidente também alegou que recursos destinados ao filme "Dark Horse", uma biografia sobre Jair Bolsonaro, seriam usados para manter Eduardo no país.

Vorcaro feminino

Questionado sobre fotos ao lado da lobista Roberta Luchsinger e sobre o caso envolvendo Lulinha, Lula negou conhecer a mulher ou ter se reunido com ela. O presidente afirmou que costuma tirar fotos com pessoas que o abordam e que os registros não indicam, por si só, uma relação pessoal entre eles. "Se ela tiver mais foto comigo, eu tiro com todo mundo", afirmou.
Lula também negou a alegação atribuída à lobista de que teria oferecido a ela um cargo no governo. Segundo o presidente, ela teria mentido sobre sua influência e enganado diversas pessoas. Ao compará-la a Daniel Vorcaro, Lula disse: "Deve ser o Vorcaro feminino".

Educação

Durante a entrevista, Lula prometeu ampliar para 1 mil o número de institutos federais no país e investir na formação de jovens em áreas relacionadas à inteligência artificial. Ele relembrou a expansão da rede federal de ensino durante seus governos e afirmou que o Brasil tinha 140 institutos federais quando assumiu a Presidência, em 2003. Segundo ele, o país deve encerrar este ano com 802 unidades.

"Em 100 anos, a elite brasileira fez 140 institutos federais. Eu, agora, em três, quatro anos, estou fazendo 112. Ou seja, estou fazendo em quatro anos o que eles fizeram em 100 anos. Porque o Brasil nunca apostou na educação”, declarou. Para o presidente, a ampliação da rede federal de ensino faz parte de um projeto de desenvolvimento que reúne educação, ciência, tecnologia e geração de empregos qualificados. Lula apontou a formação tecnológica como uma das prioridades para os próximos anos.
Ao final da entrevista, Lula agradeceu a confiança da população e disse que foi preciso coragem para eleger "um cara como ele". "Tenho orgulho de ser o primeiro presidente eleito três vezes nesse país. Se Deus quiser, vou ser eleito a quarta. Tô achando que vou ser eleito domingo", finalizou.

TV Globo cancela debate

A TV Globo cancelou o debate presidencial que aconteceria nesta quinta-feira (1º), às 21h30, após Lula e o Flávio Bolsonaro anunciarem que não participariam do encontro. A decisão da emissora ocorreu horas depois de o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizar a participação de Renan Santos (Missão) no debate.
"A Globo tem longa tradição na organização de debates eleitorais. Nosso propósito é promover a discussão de ideias para o Brasil. Oferecer aos eleitores a oportunidade de comparar projetos. Nosso dever é o de promover a democracia. Mas as sucessivas decisões judiciais tomadas momentos antes da realização do debate causam insegurança jurídica e representam uma interferência indevida na liberdade que os veículos de imprensa tem de organizar os debates eleitorais. Por essa razão, a Globo decidiu cancelar o debate desta noite", diz um trecho do comunicado da emissora.

Lula foi criticado por candidatos

Sem a realização do encontro, postulantes à Presidência aproveitaram entrevistas concedidas à imprensa para criticar decisões judiciais que antecederam o evento, além da ausência de Lula e Flávio Bolsonaro. O primeiro a falar foi o candidato Romeu Zema (Novo). O ex-governador de Minas Gerais afirmou que o episódio demonstra uma interferência do Judiciário no processo político.
Outro que fez duras críticas foi o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD). O candidato classificou o cancelamento como um ataque ao processo democrático e afirmou que decisões judiciais influenciaram diretamente o cenário eleitoral.
O escritor Augusto Cury (Avante) também demonstrou insatisfação com o cancelamento e direcionou críticas tanto ao Judiciário quanto aos dois líderes da corrida presidencial.