Eduardo Paes (PSD) fala sobre desistência de Garotinho (Republicanos) Reprodução/Redes sociais

O candidato ao Governo do Rio Eduardo Paes (PSD) classificou como uma "manobra política" a desistência de Anthony Garotinho (Republicanos) do recurso contra o indeferimento de sua candidatura. Em vídeo publicado nas redes sociais nesta segunda-feira (5), o ex-prefeito da capital afirmou que a decisão teria sido articulada com Douglas Ruas (PL).
Com a retirada do recurso, os 274.411 votos recebidos por Garotinho podem ser anulados, o que elevaria o percentual de Ruas para mais de 50% e poderia levar à eleição do candidato do PL ainda no primeiro turno.
"Hoje, um dia depois das eleições, o país recebe a notícia que o próprio Garotinho decidiu se declarar inelegível no TSE para os votos dele serem anulados e Douglas Ruas ser declarado vencedor. Ou seja, impedir que o segundo turno aconteça. Uma clara interferência no processo eleitoral. Estamos presenciando uma agressão sem precedentes à democracia", disse Paes em um trecho do vídeo.

Em outro momento, o ex-prefeito afirmou que, desde o início da campanha, tentou alertar sobre um suposto plano de Garotinho e Ruas para "tumultuar" as eleições. "Demorou, mas hoje finalmente está todo mundo sabendo da armação de Garotinho com Douglas Ruas para o candidato do PL vencer a eleição no 'tapetão'. Na minha campanha, a gente avisou desde o início que Garotinho era um candidato laranja. A Justiça disse que ele não poderia ir às urnas por causa dos crimes e condenações. O único objetivo dele era tumultuar a eleição, mas a Justiça deixou ele livre", disse.

Paes também direcionou críticas a Douglas Ruas, que pode enfrentá-lo em um eventual segundo turno. "O filho do Garotinho é afiliado ao PL, que foi eleito ontem. Ou seja, uma manobra podre que quer, a todo custo, tomar de volta o controle do Rio. Eu quero que ele [Douglas Ruas] responda o que ele negociou com Garotinho para fazer essa manobra", afirmou.

Ao fim do vídeo, Paes disse esperar que o resultado das urnas seja respeitado e defendeu a realização do segundo turno. "Espero de verdade que a decisão do povo do Rio de Janeiro seja respeitada e que haja segundo turno. Eu desafio o Douglas Ruas a debater o estado do Rio comigo", finalizou.
No domingo, após votar no Catete, Garotinho afirmou que sua defesa havia apresentado um novo recurso para tentar garantir a validade dos votos recebidos por ele. Nesta segunda-feira, porém, após a conclusão da apuração, o ex-governador voltou atrás.
Em agosto, uma liminar do TSE havia permitido que Garotinho continuasse a campanha, com acesso a recursos públicos, propaganda eleitoral e debates. A decisão, no entanto, foi posteriormente derrubada pelo ministro Floriano de Azevedo Marques, que determinou que os votos eventualmente recebidos pelo candidato fossem registrados como anulados sub judice enquanto permanecesse o indeferimento de seu registro.

Desistência de Garotinho 

No pedido, direcionado ao ministro Floriano de Azevedo Marques, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Garotinho diz ter tomado a decisão de forma livre. "A manifestação apresentada é voluntária, consciente e desprovida de qualquer vício de vontade, razão pela qual deve ser regularmente recebida e homologada", diz um trecho.
Em live, momentos depois da desistência, Garotinho afirmou que a população fluminense teria que arcar com as consequências de ter votado em Ruas e em Paes. "A votação de ontem representou a consagração dos corruptos. Aqueles que vão participar do segundo turno têm cúmplices do alto escalão da corrupção. Diante do resultado nas urnas, não me resta outra opção, desistir, de forma livre, do Recurso Ordinário judicial. Deixa o que povo arcar com as consequências do que eles fizeram", disse.
Garotinho afirmou ainda que, caso a Justiça decida pela realização de um segundo turno, não apoiaria nem Ruas nem Paes. Questionado se não estaria tirando da população a oportunidade de escolher entre os dois candidatos no segundo turno, ele disse que sua decisão não mudaria o cenário.

O que diz o TSE

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou, nesta segunda-feira (5), que a Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE) se manifeste, no prazo de dois dias, sobre o pedido de desistência apresentado por Garotinho. A decisão é do ministro Floriano de Azevedo Marques, relator do processo, e adia a definição sobre a eleição para governador do Rio.
O órgão ainda não homologou a desistência. O ministro determinou a remessa dos autos à PGE justamente para que o órgão dê seu parecer antes da análise do pedido. Depois da manifestação, o TSE deverá decidir sobre a desistência do recurso. O resultado vai decidir se o estado do Rio terá segundo turno, ou se Ruas será eleito ainda no primeiro turno.

Condenação na origem da disputa

O caso teve origem em uma ação de improbidade administrativa relacionada ao período em que Garotinho ocupou a Secretaria de Estado de Governo, durante a gestão de sua mulher, Rosinha Garotinho, entre 2005 e 2006.
O processo está relacionado ao projeto Saúde em Movimento e a contratos envolvendo a área da Saúde. Em 2018, o Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ) condenou Garotinho por improbidade administrativa e determinou, entre outras medidas, a suspensão dos direitos políticos por oito anos. O tribunal também estabeleceu ressarcimento aos cofres públicos superior a R$ 234 milhões.

A própria Justiça estadual descreveu, no processo, questionamentos sobre contratações e subcontratações realizadas no âmbito do projeto. Decisões judiciais apontaram irregularidades em contratos e ausência de licitações e concursos públicos em parte das operações analisadas.

A discussão que chegou às eleições de 2026, porém, não se restringiu ao conteúdo da condenação. A defesa de Garotinho passou a questionar principalmente quando começou a contar o período de oito anos de suspensão dos direitos políticos.

Em agosto, após determinação da 4ª Vara da Fazenda Pública da Capital para comunicar a suspensão dos direitos políticos ao TSE e ao TRE-RJ, a defesa sustentou que a punição já havia terminado em 1º de agosto de 2026. Os advogados argumentaram que o trânsito em julgado deveria ser considerado em 1º de agosto de 2018 e que decisões posteriores dos tribunais superiores apenas teriam natureza declaratória. O entendimento não foi acolhido pela Justiça Eleitoral.
Ao O DIA, a assessoria de Garotinho informou que ele não comentaria as declarações de Paes neste momento. A reportagem também procurou a defesa de Ruas, às 20h25 desta segunda-feira (5), para um posicionamento sobre as declarações, mas ainda não obteve retorno. O espaço permanece aberto para manifestação.