Talles Costa rescindiu seu contrato com o Polissya no dia primeiro de abril deste anoReprodução/polissyafc.com
Brasileiro rescinde com clube ucraniano por causa da guerra e relata pânico: 'Janela tremia'
Jogador morava na Ucrânia desde fevereiro de 2024
Rio - O meia Talles Costa, de 23 anos, formado nas categorias de base do São Paulo, deixou o Brasil em 2023, rumo à Ucrânia. Com sua esposa grávida, a decisão foi difícil, mas as promessas de uma boa estrutura o convenceram. A cidade de Zhytomyr, em que jogava pelo clube Polissya, não era o ponto central da guerra, mas ficava a 140km da capital Kiev. Portanto, era possível escutar os acontecimentos do conflito.
"Teve um período na cidade que a gente começava a ouvir explosões. Como a capital fica a uma hora e meia daqui, passam drones, shahed (drone "kamikaze" desenvolvido pelo Irã e utilizado pela Rússia na guerra com a Ucrânia), mísseis balísticos aqui em cima, sabe? Escutava o barulho. Já atacaram uma usina de eletricidade a um quilômetro daqui", contou o jogador ao "ge".
"Estava tomando café no clube e escutei. Do nada, minha esposa liga falando que explodiu ali do lado. Aquele nervosismo. O clube adiou o treino e falou para as famílias que quisessem, que podiam ir para o clube porque era mais seguro. Ficamos três dias no clube até tudo se acalmar", completou.
As noites de sono eram difíceis em Zhytomyr. Com ataques de madrugada, era necessário manter a atenção em grupos que avisavam sobre as explosões: "Eu ia dormir e minha esposa ficava de olho no grupo de Telegram que avisava qual cidade estava sendo atacada, pra onde estavam indo os mísseis", disse.
"Às vezes, ela me acordava falando que tinha que descer. Às vezes escutava algo, janela tremia. A gente descia e ficava no primeiro andar, que é o que eles aconselham. Se eu te falar que caiu um míssil aqui do lado, foi só aquela vez. A cidade é até tranquila comparada às outras, mas para a gente que vem de fora, assusta", concluiu Talles.
Com mais experiência em lidar com o conflito, o time tinha um "bunker" (esconderijo) e alertas para avisar os jogadores: "O bunker do clube, eu diria que é o vestiário, na verdade, porque ele fica embaixo. É bem estruturado", observou.
"Lembro de uma vez que eles mandaram mensagem no grupo do nosso do time, falando: não ignorem os alertas dessa noite. Eles nunca tinham enviado uma mensagem dessa. Falei: vai acontecer alguma coisa. E era a época que a Rússia estava atacando forte. Fui deitar já com uma bolsa separada, passaporte. Tocou a sirene, desci para o bunker do clube", lembrou o ex-São Paulo.
Com um filho de dois anos, Talles viu que a estrutura que prometeram a ele não estava sendo entregue, o que deixava a família com medo: "Passaram muita segurança para a gente. Eu vi a estrutura do clube. Sempre deixei claro essa questão familiar, da minha esposa grávida", contou.
"Foi muito difícil para a gente, porque viemos com uma expectativa de que seria exatamente como foi combinado, só que não foi. Foi combinado que eu teria todo o suporte necessário aqui para que ela ganhasse o meu filho aqui. O clube tem uma estrutura muito boa, mas eles não tinham ainda toda essa experiência de como tratar os estrangeiros na parte extracampo", destacou o meia.
Cansado das noites mal dormidas e do receio diário, Talles decidiu deixar o time. As conversas foram longas, cerca de duas semanas, mas quando o clube liberou o jogador, a janela de transferências já havia encerrado. Agora, o jogador precisará esperar até o meio do ano, na próxima janela, para acertar com outro clube.
"Primeiramente, quero um país que não tenha guerra. Isso daí, certeza. As janelas estão fechadas, não concordei com a forma como aconteceu aqui no clube. Penso em voltar para o Brasil, para a minha família, e manter os trabalhos que eu venho fazendo individualmente, me preparando. E esperando ver qual vai ser esse meu próximo passo", projetou.
Para Talles, o mais importante no momento é estar próximo da família, no Brasil, recuperar-se das aflições na Ucrânia e manter seus treinamentos individuais, enquanto não consegue encontrar outro clube. Enquanto isso, os ucranianos seguem amargando novos episódios da guerra que já supera quatro anos de duração.
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