Clubes se manifestaram e defenderam mercado regulado de apostas no BrasilReprodução

Os clubes de futebol do Brasil se manifestaram, nesta quinta-feira (17), em defesa do mercado regulado de apostas no país. A posição, no entanto, não foi bem recebida por torcedores cariocas, que criticaram os times nas redes sociais. As equipes acompanham a possibilidade de o Governo Federal publicar uma Medida Provisória para proibir os jogos de cassino on-line e temem que a decisão crie um desequilíbrio, além de fortalecer plataformas clandestinas.
"Inviabilizar esse modelo não fará com que as apostas deixem de existir. Apenas abrirá o caminho para que os consumidores migrem integralmente para plataformas clandestinas, que não pagam impostos, não respeitam limites, não oferecem instrumentos de proteção e não colaboram com as autoridades. A consequência não será apenas uma porta escancarada para as apostas clandestinas, mas um golpe fatal para o futebol brasileiro, levando muitos clubes à insolvência", diz um trecho da nota.
No documento, os clubes ressaltam que "o investimento das empresas de apostas autorizadas tornou-se uma das principais fontes de receita do esporte" e que o próprio Estado criou uma regulamentação para fiscalizar o mercado. Por fim, defenderam que é preciso "combater a ilegalidade, fortalecer a fiscalização e aperfeiçoar os mecanismos de proteção".

Assunto gera polêmica entre os torcedores

Entre os clubes que fizeram parte do manifesto estão Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco, além da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro. Os principais clubes de São Paulo e Minas Gerais, assim como as federações locais, também fizeram parte do movimento. Nas redes sociais, o assunto gerou debate. Em resposta, muitos torcedores reclamaram da postura dos clubes que defenderam as bets.
"Como botafoguense eu tenho vergonha desse post e dessa atitude. O futebol não precisa crescer e se sustentar em cima de milhões que sofrem com as consequências do vício em apostas, são sugados e ficam endividados em prol de poucos que lucram em cima da desgraça alheia", disse um torcedor do Botafogo.
"Vai diminuir para todo mundo, mas vamos seguir. O prejuízo pras famílias é muito pior do que uma diminuição de receita para os clubes. Quem faz o futebol são as pessoas, e elas estão adoecendo por causa dessa praga de apostas", afirmou um flamenguista.
"Vergonhosa essa postura de ir pelo caminho mais fácil. Se a conscientização da população der certo, as receitas cairão e a consequência será menos investimentos em futebol, publicidade. Vamos ser criativos, oferecer um bom produto que os investimentos chegam", pontuou um torcedor do Fluminense.
"Que posicionamento lamentável para um clube com uma história tão bonita, provavelmente a mais admirável do Brasil, justamente pela consciência social. Reage, Vasco", completou um torcedor do Vasco.

Veja a nota completa:

"O FIM DO FUTEBOL BRASILEIRO
O futebol acompanha com atenção as discussões sobre o mercado de apostas no Brasil e reconhece os desafios que sua expansão traz. Os impactos sociais, especialmente sobre as pessoas mais vulneráveis, exigem atenção permanente do Poder Público, das empresas e de todos os setores envolvidos.
Por isso, é fundamental aprimorar as medidas de proteção, fiscalização, educação e prevenção, para reduzir riscos e garantir um mercado responsável.
O Brasil escolheu enfrentar esse desafio pela regulamentação. A regulamentação estabeleceu regras rígidas para as empresas autorizadas a atuar no país, com regras claras que permitem ao Estado fiscalizar o mercado, responsabilizar quem descumpre a lei e combater a atuação de plataformas clandestinas.
Importante ressaltar que, nos últimos anos, o investimento das empresas de apostas autorizadas tornou-se uma das principais fontes de receita do esporte. Este investimento impulsionou o futebol brasileiro de tal forma a dominar o cenário sul-americano em competições como a CONMEBOL Libertadores e a CONMEBOL Sul-Americana e a colocar clubes brasileiros em posição de protagonismo.
Essa presença não se limita aos maiores clubes. Os recursos também alcançam equipes de menor expressão, divisões de acesso e competições com menor exposição comercial. Para muitas destas agremiações, especialmente aquelas localizadas no interior do país, não existe hoje outro segmento econômico capaz de substituir imediatamente esse investimento.
Essas receitas são fundamentais para manter estruturas administrativas, centros de treinamento, profissionais, projetos sociais e departamentos que não geram recursos suficientes para se sustentar de maneira independente, como parte do futebol feminino e a formação de futuros talentos, os primeiros investimentos ameaçados quando a receita cai de forma abrupta.
Assim, os rumores sobre mudanças abruptas na regulamentação do mercado de apostas têm gerado enorme preocupação em todos os clubes, federações e entidades de administração do esporte. Uma mudança abrupta nas regras reduziria a capacidade de investimento dos clubes e criaria desequilíbrios dentro e fora do país. Contratos regularmente firmados, planejamentos plurianuais e compromissos financeiros foram estabelecidos sob um marco regulatório construído pelo próprio Estado.
Para responder a um mercado que já existia e movimentava ilegalmente bilhões de reais, o país instituiu um ambiente regulado. Empresas foram autorizadas, passaram a recolher impostos e assumiram obrigações relacionadas à proteção do consumidor, ao bloqueio de menores, à prevenção de práticas abusivas e ao combate à lavagem de dinheiro e à manipulação de competições. Foi justamente a regulamentação do mercado que retirou o Brasil da liderança do ranking mundial de casos de manipulação.
Inviabilizar esse modelo não fará com que as apostas deixem de existir. Apenas abrirá o caminho para que os consumidores migrem integralmente para plataformas clandestinas, que não pagam impostos, não respeitam limites, não oferecem instrumentos de proteção e não colaboram com as autoridades.
A consequência não será apenas uma porta escancarada para as apostas clandestinas, mas um golpe fatal para o futebol brasileiro, levando muitos clubes à insolvência. Isso, sem falar na insegurança jurídica e profissional que a medida acarretaria, especialmente para contratos regularmente firmados e planejamentos construídos sob o marco regulatório aprovado pelo Congresso Nacional e estabelecido pelo próprio Estado.
O que o futebol entende que deve ser feito, com o máximo rigor, é combater a ilegalidade, fortalecer a fiscalização e aperfeiçoar os mecanismos de proteção, sem colocar em risco um mercado que foi regulamentado pelo próprio Estado".