Há momentos em que o evidente precisa ser reafirmado, sobretudo quando a insistência em ignorá-lo contribui para aprofundar uma crise institucional.
É inconcebível imaginar que as decisões tomadas por José Boto, diretor-técnico do Flamengo, ocorram à revelia do presidente Luis Eduardo Baptista, o Bap. Em uma estrutura hierárquica consolidada, a permanência de um executivo em posição estratégica pressupõe, inevitavelmente, o respaldo e a confiança irrestrita da mais alta autoridade administrativa da instituição.
Caso assim não fosse, sua permanência no cargo já teria sido interrompida. No futebol de alto rendimento, a continuidade de um dirigente raramente sobrevive à perda de confiança de seu superior imediato.
Naturalmente, cabe ao presidente exercer o papel de restaurador da ordem quando os resultados deixam de corresponder às expectativas. E, sob essa ótica, a substituição de José Boto surge como uma consequência lógica para aqueles que entendem que sua passagem pelo Flamengo ainda não foi capaz de apresentar entregas compatíveis com a dimensão esportiva e institucional do clube.
Curiosamente, a meritocracia — conceito reiteradamente exaltado por Bap durante o período eleitoral — parece ter perdido protagonismo diante da sucessão de equívocos atribuídos ao departamento de futebol. A coerência entre discurso e prática torna-se inevitavelmente objeto de questionamento quando os resultados permanecem aquém do esperado sem que haja qualquer responsabilização administrativa.
Luis Eduardo Baptista, o BAP, presidente do Flamengo segue dando respaldo a José Boto diretor-técnico do clubeCanal do YouTube Resenha Rubro Negra
A discussão já não se limita às conhecidas restrições impostas pelo mercado internacional, tampouco à concorrência financeira exercida pelos grandes clubes europeus. O cerne da controvérsia reside, sobretudo, na percepção de fragilidade na condução do futebol, na dificuldade de interlocução com atletas, funcionários, representantes e demais agentes que compõem o complexo ecossistema da modalidade. Mais do que obstáculos mercadológicos, são apontadas deficiências de liderança, sensibilidade e capacidade de articulação.
Diante desse contexto, não faltam argumentos para aqueles que defendem uma mudança na direção técnica, entendendo que a atual gestão ainda produziu contribuição inferior às expectativas depositadas quando de sua contratação.
Entretanto, enquanto essa mudança não se concretiza, a responsabilidade política transcende a figura do diretor-técnico e alcança, inevitavelmente, quem o mantém investido de autoridade. Ao optar por preservar José Boto à frente do departamento, o presidente sinaliza confiança em sua condução e, consequentemente, assume para si os ônus decorrentes dos resultados produzidos.
Sob essa perspectiva, eventual fracasso na condução da atual janela de transferências não pode ser atribuído exclusivamente ao executivo responsável pelo futebol. A responsabilidade alcança também a presidência, cuja prerrogativa de nomear, respaldar ou substituir seus dirigentes faz do chefe do Executivo rubro-negro o principal responsável político pelos rumos adotados pelo clube.
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