Há campeonatos que se ganham com a matemática. Outros, com a alma.
O Brasileirão de 2026, até aqui, tem sido uma espécie de travessia rubro-negra. O Flamengo não chegou à liderança caminhando sobre tapete vermelho. Chegou tropeçando, remendando o uniforme, procurando jogadores no departamento médico e ouvindo, durante meses, a pergunta que parecia perseguir o clube: “E os reforços?”
Houve lesões importantes. Arrascaeta ficou afastado após fraturar a clavícula. Cebolinha sofreu fratura na costela. Pulgar teve problema no ombro. Luiz Araújo enfrentou recuperação de lesão no joelho. Alex Sandro, Vitão, De La Cruz e Evertton Araújo também passaram pelo departamento médico em diferentes momentos.
E quando olhou para o mercado, o Flamengo encontrou portas que não se abriram.
Thiago Almada não veio. Luiz Henrique também não. A primeira parte da janela terminou sem os reforços esperados, provocando cobrança pública de Leonardo Jardim e críticas à condução do mercado. Depois, chegaram Anthony Valencia e Joaquín Freitas, jogadores de perfil diferente dos grandes nomes inicialmente perseguidos.
Anthony Valencia, José Boto, dirigente do Flamengo, e Joaquín FreitasReprodução / Flamengo TV
Como se não bastasse, o elenco também perdeu peças. Wallace Yan foi vendido ao Bragantino. Cebolinha rescindiu para seguir ao Santos. Viña foi emprestado ao Cruzeiro. Até a negociação de Plata com o Dínamo de Moscou fracassou nos exames médicos e devolveu ao Flamengo um jogador que parecia estar de partida.
E houve ainda o capítulo disciplinar. Carrascal foi denunciado pelo STJD após a entrada em Murilo no clássico contra o Palmeiras e acumulou suspensões. Jardim também foi denunciado após declarações sobre a arbitragem naquele confronto.
Mas talvez seja justamente aí que esteja a beleza desta campanha.
O Flamengo não precisou de uma estrada perfeita. Precisou continuar andando.
Enquanto o Palmeiras chegou a abrir vantagem e liderou boa parte da competição, o Rubro-Negro foi juntando seus pedaços. Após 14 rodadas, o Palmeiras tinha seis pontos de vantagem. Hoje, a fotografia é outra.
Na 28ª rodada, o Palmeiras foi à Arena do Grêmio e ficou no 0 a 0. O Flamengo, algumas horas depois, entrou no Maracanã sabendo que uma vitória mudaria o tamanho da noite. Venceu o Bragantino por 2 a 1, com gols de Varela e Pedro.
Sessenta pontos.
Dezoito vitórias.
Três pontos sobre o Palmeiras.
E duas vitórias a mais no primeiro critério de desempate.
Pedro comemora gol marcado pelo Flamengo sobre o Red Bull Bragantino, no MaracanãGilvan de Souza / Flamengo
O Palmeiras continua vivo, evidentemente. O campeonato ainda não terminou. Mas há uma diferença poética nesta fotografia: enquanto o rival deixou dois pontos na estrada de Porto Alegre, o Flamengo encontrou no Maracanã mais uma razão para acreditar.
O futebol é assim.
Às vezes, o campeão começa a nascer justamente quando tudo parece dar errado.
E o Flamengo de 2026, entre lesões, saídas, cobranças, suspensões, negociações frustradas e noites de sofrimento, continua de pé.
Porque há camisas que pesam.
E há camisas que, quando entram em campo, parecem carregar uma multidão inteira dentro delas.
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