Lançamento do Anuário do Petróleo no Rio reuniu representantes da indústria, especialistas e gestores públicos em MacaéFoto: Moisés Bruno H. Santos

Macaé - Macaé vive um momento em que o petróleo volta a ganhar força, mas a cidade já olha para além dele. A produção da Bacia de Campos apresenta novos sinais de crescimento, grandes projetos avançam e o município discute como transformar a riqueza gerada pela indústria de energia em desenvolvimento para as próximas décadas.

Esse cenário está retratado na 11ª edição do Anuário do Petróleo no Rio, lançado nesta quinta-feira (3), na sede da Firjan em Macaé. A publicação reúne dados, análises e projeções sobre petróleo, gás natural e energia e apresenta um recorte específico do Norte Fluminense.

Lançamento do Anuário do Petróleo no Rio reuniu representantes da indústria, especialistas e gestores públicos em Macaé - Foto: Moisés Bruno H. Santos
Lançamento do Anuário do Petróleo no Rio reuniu representantes da indústria, especialistas e gestores públicos em MacaéFoto: Moisés Bruno H. Santos
Os números ajudam a dimensionar a força que a indústria ainda exerce sobre a economia regional. Em 2025, a produção de petróleo do Rio de Janeiro alcançou aproximadamente 1,2 bilhão de barris, o maior volume já registrado pelo Estado. O resultado representa crescimento de 13% em relação ao ano anterior.

A Bacia de Campos também mantém trajetória de recuperação. A produção chegou a 741 mil barris por dia em 2025, alta de 9% em relação a 2024. Nos primeiros sete meses de 2026, a média diária ficou 11% acima do registrado no mesmo período do ano anterior.

Mais de 75% do petróleo produzido na Bacia de Campos em 2025 teve origem no Estado do Rio. Na região Norte Fluminense, a produção avançou 4% no mesmo período e os primeiros meses de 2026 mantiveram o ritmo de crescimento, com média diária 5% superior à registrada em 2025.

Lançamento do Anuário do Petróleo no Rio reuniu representantes da indústria, especialistas e gestores públicos em Macaé - Foto: Moisés Bruno H. Santos
Lançamento do Anuário do Petróleo no Rio reuniu representantes da indústria, especialistas e gestores públicos em MacaéFoto: Moisés Bruno H. Santos
A transformação da própria Bacia de Campos ajuda a explicar esse movimento. Se em 2010 cerca de 90% dos campos da porção fluminense estavam sob operação de uma única empresa, hoje a Petrobras responde por pouco mais de 40%. O restante está dividido entre quatro operadoras independentes, que passaram a investir na recuperação de ativos maduros.

Para Macaé, os efeitos aparecem também nas perspectivas de produção e de novos negócios. Durante o lançamento do anuário, o prefeito Welberth Rezende afirmou que a produção local deve chegar a 400 mil barris neste ano. Segundo ele, a Petrobras projeta alcançar a marca de um milhão de barris nos próximos cinco anos, sem considerar a produção dos operadores independentes.

O prefeito também citou dois projetos considerados estratégicos para a economia local. O Raia, com investimento estimado em US$ 9 bilhões, e o Programa de Revitalização e Incentivo à Produção de Campos Marítimos, o Promar, que prevê cerca de US$ 20 bilhões em investimentos na revitalização de campos maduros.

A força da indústria também aparece nas contas públicas. A previsão orçamentária de Macaé para este ano chega a R$ 5,1 bilhões, segundo dados apresentados durante o evento. O secretário de Desenvolvimento Econômico, Silvio Mussi Lopes, destacou que aproximadamente 70% da receita municipal é formada por impostos e taxas, enquanto cerca de 30% corresponde aos royalties.

O desafio, no entanto, está justamente em transformar esse ciclo de expansão em desenvolvimento duradouro.

A administração municipal apresentou durante o encontro projetos voltados à diversificação econômica, com investimentos previstos ou em discussão para setores como turismo, agropecuária, ensino superior, formação técnica, energia e infraestrutura. Entre as iniciativas estão a ampliação dos voos do aeroporto, novos investimentos em termelétricas, fortalecimento da produção agropecuária, expansão do turismo e a possibilidade de instalação de uma fábrica de fertilizantes.

Lançamento do Anuário do Petróleo no Rio reuniu representantes da indústria, especialistas e gestores públicos em Macaé - Foto: Moisés Bruno H. Santos
Lançamento do Anuário do Petróleo no Rio reuniu representantes da indústria, especialistas e gestores públicos em MacaéFoto: Moisés Bruno H. Santos
Macaé também discute a criação de um Fundo Soberano Municipal para reservar parte dos recursos obtidos no atual ciclo econômico e formar uma espécie de poupança para o futuro. A proposta foi apresentada como uma forma de reduzir a dependência das receitas ligadas ao petróleo e garantir recursos para as próximas gerações.

A estratégia acompanha uma mudança no perfil econômico da cidade. Além da posição consolidada na indústria de óleo e gás, Macaé ampliou sua atuação na produção de grãos, na criação de gado confinado e no turismo. A expansão da Cidade Universitária e dos investimentos em ensino técnico também aparece entre as medidas para preparar mão de obra para os setores que devem crescer.

O mercado de trabalho é outro ponto de atenção. Welberth Rezende destacou que Macaé foi o município que mais criou empregos no Brasil no ano passado, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, o Caged. Para o secretário Silvio Mussi Lopes, o desafio agora é fazer com que os moradores da cidade estejam preparados para ocupar as vagas que surgem com a expansão da indústria.

A discussão também envolve o futuro energético da região. Durante o painel realizado no evento, o secretário executivo de Políticas Energéticas de Macaé, Rodrigo Vianna, defendeu a ampliação da produção da Bacia de Campos e a criação de um ambiente capaz de atrair novos investimentos.

O analista de pesquisa energética da Empresa de Pesquisa Energética, Carlos Augusto Pacheco, destacou que o Norte Fluminense ocupa posição estratégica na geopolítica energética brasileira. Para ele, o avanço do petróleo e do gás pode coexistir com novas fontes de energia e contribuir para financiar a transição energética.

A gerente-geral de Petróleo, Gás, Energias e Naval da Firjan, Karine Fragoso, também apontou essa possibilidade ao defender uma visão mais ampla para Macaé. Na avaliação dela, a cidade pode deixar de ser conhecida apenas como um polo de petróleo e assumir uma posição de integração entre diferentes matrizes energéticas.

Enquanto a produção cresce e novos investimentos chegam, outro indicador mostra o peso desse ciclo para o Estado. Em 2025, a indústria gerou R$ 30,2 bilhões em royalties e R$ 14,7 bilhões em participações especiais para o Rio de Janeiro e seus municípios.

No Norte Fluminense, royalties e participações especiais chegaram perto de R$ 3 bilhões no ano passado, mesmo com a redução do preço médio do petróleo. Até junho de 2026, os municípios da região já haviam arrecadado o equivalente a 56% do total registrado em todo o ano anterior.

O cenário combina dois movimentos que podem definir o futuro econômico de Macaé: a retomada da Bacia de Campos e a tentativa de aproveitar esse novo ciclo para construir alternativas além do petróleo.

O anuário lançado em Macaé funciona, assim, como um retrato de uma indústria que ainda tem espaço para crescer e, ao mesmo tempo, como um alerta sobre a necessidade de planejamento. Para a cidade que cresceu junto com a Petrobras, o próximo desafio não é apenas produzir mais, mas decidir o que fazer com a riqueza gerada por essa nova fase.