A despedida de Lucas Nunes, de 40 anos, terminou com uma história que pode continuar em outras vidas. Após a confirmação da morte encefálica do servidor público, a família autorizou a doação de órgãos e o Hospital Público Municipal (HPM) de Macaé realizou, nesta quinta-feira (10), uma captação múltipla que mobilizou equipes médicas e uma operação de transporte em ritmo de urgência.
Lucas era técnico em radiologia do Pronto-Socorro Municipal, no bairro Imbetiba. Natural de Nova Friburgo, ele morava em Macaé havia cinco anos, era divorciado e deixou uma filha de 11 anos.
A morte ocorreu após uma colisão frontal de moto registrada em 29 de agosto. O diagnóstico de morte encefálica foi confirmado na quarta-feira (9), encerrando a possibilidade de recuperação e iniciando outra corrida: a preparação para a doação e a busca por pacientes compatíveis na fila de transplantes.
A decisão da família seguiu um desejo manifestado por Lucas ainda em vida.
“A doação significa amor. Saber que o meu irmão revive em outras pessoas é o que nos conforta neste momento da partida dele, ainda mais no mês de doação de órgãos. Queremos que este nosso gesto, que era a vontade do Lucas, seja um incentivo para que outras famílias também doem e salvem outras vidas”, afirmou Lidiane Nunes Monteiro Novaes, irmã do servidor.
A confirmação da morte encefálica ocorreu justamente no dia do aniversário de Lidiane. A mãe de Lucas, Lívia, também precisou de atendimento médico após passar mal diante da notícia. Mesmo com a família mergulhada no luto, a autorização para a doação foi mantida.
Antes da entrada no centro cirúrgico, Lidiane ainda beijou o irmão na maca e fez uma última despedida. Poucos minutos depois, recebeu a confirmação de que o coração já havia sido retirado para seguir até o receptor.
Coração, fígado, rins, córneas e ossos foram captados O procedimento realizado no HPM envolveu a captação de coração, fígado, rins, córneas e ossos. O coração foi o primeiro órgão desse tipo captado no hospital em 2026.
A operação exigiu uma logística precisa. Os órgãos foram acondicionados de forma adequada e transportados de helicóptero para unidades onde pacientes já aguardavam pelo transplante. Por razões de segurança e sigilo, os nomes e as cidades dos receptores não foram divulgados.
A enfermeira Waneska Madeira, coordenadora da equipe Doação de Órgãos para Transplante (e-DOT), destacou que os pacientes compatíveis já estavam identificados nos hospitais de destino quando a captação começou.
Os números também mostram o papel do HPM no sistema de transplantes. Entre janeiro e junho deste ano, a unidade realizou 14 captações e alcançou taxa de aceitação de 55,5% nos casos considerados viáveis para doação. O índice supera a média registrada no Estado do Rio de Janeiro, de 33%.
Para a família, porém, nenhum número traduz a dimensão daquele momento. Lidiane destacou o acolhimento recebido desde a chegada ao hospital e citou a atuação da enfermeira Waneska Madeira, do médico Paulo Fernando e dos demais profissionais envolvidos no atendimento.
“Eles choraram abraçados com a nossa mãe e comigo. Este é o maior valor de uma equipe porque tem humanidade, empatia com a vida do próximo. Deus colocou os profissionais certos no nosso caminho neste momento de extrema dor”, disse.
Ana Cristina Faria de Jesus, amiga de longa data da família e considerada uma tia por Lucas, também acompanhou o processo. Segundo ela, o desejo do servidor de doar os órgãos era conhecido pelos familiares.
“Doar seus órgãos era o desejo dele. A família, sempre muito amorosa e cristã, sabe que hoje ele renasce salvando outras vidas”, afirmou.
Como funciona a captação A confirmação da morte encefálica abre uma sequência de procedimentos médicos e administrativos. Após a autorização familiar, são realizados exames para confirmar as condições dos órgãos e a Central Estadual de Transplantes é comunicada.
Os dados do doador entram no sistema utilizado para identificar pacientes compatíveis. São considerados critérios como tipo sanguíneo, características físicas e compatibilidade necessária para cada órgão.
Com os receptores definidos, equipes especializadas organizam a retirada e o transporte. O tempo é um dos principais fatores do processo, sobretudo para órgãos como o coração, que possui uma janela reduzida para chegar ao paciente que aguarda o transplante.
No HPM, a captação foi realizada no centro cirúrgico. Depois, os órgãos seguiram acondicionados em condições específicas até os hospitais responsáveis pelos transplantes.
O resultado é uma operação que reúne profissionais de diferentes áreas e transforma, em poucas horas, uma situação de perda irreversível em uma possibilidade concreta de sobrevivência para quem está na fila.
Congresso fecha programação do Setembro Verde A campanha de conscientização sobre a doação de órgãos terá uma programação especial em Macaé no fim de setembro.
Nos dias 28 e 29, das 9h às 15h, a e-DOT Macaé realizará o Congresso Municipal de Conscientização de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante, na Câmara Municipal. O tema será “Doar é transformar uma despedida em novos começos”.
O encontro será aberto à comunidade e terá como proposta ampliar o acesso à informação, esclarecer dúvidas sobre o processo de doação e estimular o diálogo dentro das famílias.
A história de Lucas surge justamente durante o Setembro Verde, período dedicado à conscientização sobre a importância da doação. Para os familiares, a decisão tomada diante da dor representa também a continuidade de um desejo que ele já havia manifestado em vida.
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