Tragédia é a mais letal no Nepal desde o terremoto que deixou quase 9.000 mortos em 2015Prabin Ranabhat / AFP

Os esforços de resgate avançam com muita dificuldade neste domingo (30) no Nepal e na China, onde equipes de emergência trabalham contra o tempo para tentar encontrar sobreviventes quatro dias após o devastador deslizamento de terra que deixou mais de 797 mortos e causou extensos danos.
LEIA MAIS: Moradores do Nepal enfrentam correnteza para recuperar botijões

Ao menos 3.048 pessoas permanecem desaparecidas nesta região isolada do Himalaia e a esperança de encontrar sobreviventes em meio ao mar de lama e destroços que soterrou aldeias inteiras diminui a cada hora que passa.

Na quarta-feira, o colapso de uma geleira no Himalaia desencadeou um enorme deslizamento de terra que soterrou aldeias inteiras e destruiu tudo em seu caminho.

Além da magnitude da tragédia, que deixou inúmeras famílias sem notícias de seus entes queridos, as equipes de resgate enfrentam múltiplos riscos devido a estradas intransitáveis, comunicações interrompidas e à ameaça de novos desastres naturais.

As autoridades nepalesas voltaram a pedir, neste domingo, que os socorristas ajam com cautela diante do aumento do rio Bhotekoshi, no distrito de Rasuwa.

Utilizando equipamentos de perfuração, os socorristas avançaram neste domingo em direção à entrada de um túnel no canteiro de obras da usina hidrelétrica Trishuli-3, onde as autoridades acreditam que cerca de 100 trabalhadores ainda estejam presos desde o desastre.

Segundo o Ministério da Energia, "quatro pontos de acesso foram abertos (...) e os preparativos estão em andamento para entrar diretamente no túnel (...) e realizar operações de busca e resgate".

No sábado, as equipes de resgate — cerca de 80 nepaleses, com especialistas da Índia, China e Coreia do Sul — tiveram que suspender as operações devido às fortes chuvas e à elevação do nível da água.

'A primeira vez que vejo algo assim'

Do lado chinês, na região do Tibete, equipes de resgate foram levadas para locais seguros após um deslizamento de terra ter criado um lago, informou a mídia estatal.

O número oficial de mortos na tragédia, ainda provisório, era de 768 corpos recuperados desde quarta-feira: 752 no Nepal e 16 no Tibete chinês.

As vítimas foram encontradas sob uma espessa camada de lama e entre os escombros de prédios, estradas, pontes e instalações destruídas pela avalanche semelhante a um tsunami.

Mais de 3.000 pessoas continuam desaparecidas: 2.502 no Nepal e 546 em território chinês.

As autoridades nepalesas começaram a enterrar, neste domingo, algumas das centenas de corpos recuperados após o desastre.

Antes do enterro, equipes médicas coletaram amostras de DNA de cada corpo e registraram sua localização para que as famílias pudessem identificá-los e exumá-los posteriormente para os ritos funerários tradicionais.

O gabinete do primeiro-ministro nepalês informou que os esforços de resgate continuaram durante toda a noite.

"As pessoas querem recuperar os corpos de seus parentes, vivos ou mortos, mas não conseguimos encontrá-los", disse Kawan Koirala, membro da Defesa Civil nepalesa, à AFP após 18 horas de trabalho incansável.

"É muito difícil para mim também. É a primeira vez que vejo algo assim", acrescentou.
Turistas, peregrinos e moradores
A lista de desaparecidos inclui centenas de turistas, peregrinos a caminho do sagrado monte Kailash, no Tibete, trabalhadores estrangeiros e moradores das aldeias devastadas.

No centro de operações de emergência montado em Bidur, a esperança das famílias dos desaparecidos se esvai pouco a pouco.

"Já se passaram mais de três dias", disse Rishi Shrestha, que ainda não tem notícias do primo, à AFP no sábado. "Há 99% de chances de ele não estar mais vivo."

Gokarna Kunwar veio da Arábia Saudita para procurar a esposa do chefe. "Já fui a todos os hospitais de Katmandu", disse ele à AFP neste domingo, da janela de um hospital universitário. "Meu chefe continua me ligando, mas não tenho notícias."

Embora ainda seja cedo para uma avaliação precisa, o ministro das Relações Exteriores do Nepal estimou que o custo da reconstrução chegará a "vários bilhões de dólares" e pediu "o apoio da comunidade internacional".

Ao auxílio anunciado pela União Europeia juntou-se, no sábado, os Estados Unidos, que liberaram 3,6 milhões de dólares (18,7 milhões de reais) em assistência humanitária para o Nepal, incluindo ajuda alimentar emergencial para os moradores das áreas afetadas.

Especialistas e cientistas atribuem a catástrofe ao colapso de uma enorme geleira, que transformou um rio tranquilo em uma torrente devastadora e furiosa em questão de instantes.

"O aquecimento global causado pela queima massiva de carvão, petróleo e gás torna tragédias como esta, e tantas outras ao redor do mundo, muito mais prováveis, frequentes e graves", alertou Simon Stiell, chefe da ONU Clima, em um comunicado.

"O Nepal emite menos de 0,01% dos gases de efeito estufa, mas o povo nepalês está entre as maiores vítimas da mudança climática", lamentou o ministro das Relações Exteriores, Shisir Khanal.