Niterói Discos: long play (LP) da banda Terceiro Lado, lançado em 1992Reprodução/Internet

Niterói – Depois de uma gestão curta e fraca assinada pelo músico Fernando Brandão, a Fundação de Arte de Niterói (FAN) retomou o fôlego com a entrada da presidenta Micaela Costa, oriunda do Ministério da Cultura. Apesar dos notórios avanços conquistados, uma recente mudança polêmica – de nome e da marca – do selo fonográfico municipal vem gerando confusão para quem sempre celebrou a cidade como uma das únicas do Brasil a promover o incentivo da música gravada e do mercado fonográfico independente através de política pública.

Sem qualquer consulta pública, a FAN mudou o nome do selo Niterói Discos para Niterói Música, justificando a transição a partir do avanço do mercado da música na área audiovisual. Com isso, dissolve-se a marca criada e fidelizada em 1991, quando o selo surgiu pelas mãos do ex-prefeito Jorge Roberto Silveira – quando o jornalista Luiz Antônio Mello, já experiente no meio da música, participava da equipe, após fundar e dirigir a histórica Rádio Fluminense FM (A Maldita).

De acordo com o release, “o selo institucional Niterói Discos, da Fundação de Arte de Niterói, entra em nova fase, com novo nome, nova direção e muitos planos. A iniciativa, estruturada em um momento de efervescente produção cultural e muitas barreiras tecnológicas, tornou-se uma das experiências mais duradouras de produção fonográfica pública no Brasil, com centenas de artistas registrados e um catálogo que reúne música popular, instrumental, erudita, samba, choro e projetos experimentais. Além de fomentar a produção musical local, o selo desempenha papel importante na preservação da memória cultural da cidade, constituindo um dos maiores acervos fonográficos municipais do país”. Em outro momento, o release oficial explica: “É preciso olhar para as transformações de forma inovadora, oferecendo ferramentas que estimulem artistas nesse mundo digital. Como parte dessas transformações, a Niterói Discos passa a se chamar Niterói Música. O novo diretor, músico e artista com histórico de participação no catálogo da Niterói Discos, Alessandro Cardozo, passou a ocupar a direção do selo na atual gestão municipal (2025-28). Sua nomeação representa uma continuidade da política de valorização da memória musical da cidade e do fortalecimento do acervo histórico do selo”.
O cantor, compositor, ativista cultural e ex-diretor do selo Niterói Discos, Claudio Salles, comentou a alteração. “O Niterói Discos, que já foi o maior selo municipal do país, foi substituído pelo Niterói Música sob a justificativa vazia de focar no audiovisual. Fui buscar as propostas dessa transição e não encontrei nenhum projeto estruturado. O que vi foi o novo nome assinando shows no Arte na Rua — um projeto que nós criamos na FAN durante a gestão do Arthur Maia. Além da falta de transparência e justificativa, apagar uma marca que era referência nacional em vez de modernizá-la soa como uma iniciativa de fachada e um desrespeito aos músicos da cidade. É frustrante ver um patrimônio cultural ser diluído em uma iniciativa que, na prática, não entrega o que o antigo formato garantia”, explicou ele, que esteve à frente do selo, na gestão do ex-prefeito Godofredo Pinto.

Para o também ex-diretor do selo, o músico e produtor Tavinho Torreão, não há motivos para a troca. “Não vejo motivo para a mudança de nome da Niterói Discos. O selo tem uma história relevante no cenário nacional e foi considerado o maior selo institucional do Brasil. Alem da importância na memória afetiva da cidade, artistas do selo conquistaram prêmios importantes como duas indicações para o Grammy, prêmios Sharp e Multishow, etc. Portanto, eu como artista da cidade, sou a favor da continuidade e da manutenção da Niterói Discos, que entra agora na versão digital e deve buscar novos caminhos”, contou ele.

O cantor, compositor e gestor público cultural Marcos Sabino – criador do hit Reluz, sucesso nacional – esteve na equipe de criação do projeto original. E ocupou o cargo de vereador no legislativo e realizou o tombamento dos selos Niterói Discos e Niterói Livros. “Estes projetos fazem parte do inconsciente coletivo da cidade, do Estado do Rio e do Brasil. É o maior selo fonográfico público do nosso país. Mudar o nome do selo? Não vejo razão. Ele faz parte da vida da música brasileira, ninguém foi consultado e, além do mais, foi tombado exatamente para que não acontecesse isso. Inclusive considero falta de respeito com a cidade, com os músicos e com o legislativo. Tenho certeza que é uma decisão isolada da FAN. Espero que a Fundação de Arte reavalie porque se trata de um patrimônio da marca é da cidade. É como mudar o nosso Italiano, o nosso Mineirinho, as nossas marcas afetivas. O selo Niterói Discos existe para o artista dar o primeiro passo na gravação fonográfica e faz parte da história, da memória e do inconsciente de todo niteroiense ligado à música e à cultura local”, concluiu Sabino.

TRAJETORIA DA NITEROI DISCOS

Inspirada no projeto de dois músicos e produtores da cidade, Geraldo Brandão e Ézio Filho, a
Niterói Discos nasceu com o objetivo de oferecer aos artistas da cidade um instrumento de qualidade para a divulgação de seus trabalhos. Para seus idealizadores, o importante era dar visibilidade ao que estava surgindo de novo na cena musical niteroiense e resgatar a história de artistas que levaram o nome da cidade para todo o Brasil.

Logo nos primeiros meses, o selo lançou trabalhos de artistas como Bia Bedran, Saloon & Cia, Ricardo Giesta, Zé Neto, Paulinho Guitarra, Ronaldo do Bandolim, Alex Malheiros, Tião Neto e Zé Katimba, além de tradicionais projetos escolares como a Banda de Música do Colégio Salesianos e o Coral do Centro Educacional de Niterói. E os resultados não demoraram a aparecer. Já em 1992, três artistas do selo foram indicados ao Prêmio Sharp da Música Brasileira: Júlio São Paio, como revelação masculina; Andrea Dutra, revelação feminina na categoria pop-rock; e Sérgio Nacif, melhor arranjador instrumental.

Premiado em 2011 na Festa Nacional da Música, na cidade de Canela, no Rio Grande do Sul, como o principal selo institucional do Brasil, um dos momentos marcantes dessa história foi o
Festival Niterói Discos, realizado em 2010, no Abrigo de Bondes. Com a participação de 25 artistas, o Festival deu origem a cinco coletâneas de diversos gêneros.

Em 2022, o selo institucional lançou sua rádio online, uma ferramenta que tem como objetivo estimular e divulgar a intensa produção cultural da cidade. Além do acervo do selo, que já lançou mais de 180 trabalhos, a rádio abriu espaço para todos os artistas nascidos ou de alguma forma vinculados à Niterói. Muita música, podcasts e entrevistas fazem parte da programação voltada ao público e aos artistas locais, mas que pretende também levar, por meio das ondas digitais,nossa produção cultural a todo o mundo.

CIDADE POSSUI OUTROS SELOS E ESTUDIOS MUSICAIS

Famosa por ter músicos, donos de estúdios, produtores e artistas em sua população, Niterói é uma cidade com vocação artística, em especial para a música. É a cidade de Sergio Mendes, Zelia Duncan, Ismael Silva, Ronnie Von e Arthur Maia, entre tantos outros nomes díspares entre sí. Já teve uma cena independente mais forte, retratada no livro sobre o movimento Araribóia Rock, escritor pelo jornalista Pedro de Luna, com eventos independentes no Convés e o projeto Arte na Rua por fomento público, acontecendo em palco montado na Praça da Cantareira.

Selo fonográfico independente e com 27 anos de existência, o Astronauta Discos é especializado na profissionalização de novos artistas. Em seu catálogo já possui fonogramas com participações de nomes como Cassia Eller, Zé Ramalho e os mais jovens Chico Chico e Zé Ibarra. Outro selo da cidade é a Tomba Records, de Bruno Marcus, que possui um estúdio no bairro Pé Pequeno, e já gravou e participou de projetos com De Leve, Speed Freaks e Tomba Orquestra. Outras iniciativas, como os selos próprios de Paulinho Guitarra, Marvio Ciribelli e Marcos Sabino (Reluz Music), também fazem parte do cardápio musical da cidade, que já foi sede do selo e do estúdio dos saudosos Arthur Maia e Marcos Heizer, o Estúdio Arte, que ficava na Região Oceânica e diversas vezes recebeu Gilberto Gil e outros grandes nomes para ensaiar lá no meio da natureza, em Itaipu. Sem contar que o grande produtor que dirigiu duas multinacionais (EMI e PolyGram), produziu cinco discos da Legião Urbana (a discografia inteira, quase) e foi o criador do Curso de Produção Fonográfica da Estácio, Mayrton Bahia, é de Niterói. Mayrton ainda é o diretor artístico brasileiro que assina o surgimento de Sandy & Jr. e o primeiro contrato da Cássia Eller com a PolyGram. Em termos de música gravada, Niterói está sempre a frente e em movimento.

Outras diversas iniciativas na música vêm surgindo localmente, pelas mãos de novas bandas, como o coletivo Acido Gato e o Estúdio Salvação (Icaraí), e espaços como a Cervejaria Gentalha, na Cantareira, e o Bar Kombi, também em São Domingos - que reúnem artistas jovens e promovem apresentações ao vivo. O cantor e compositor niteroiense Enzo Yuki é o criador e produtor de dois festivais focados na nova cena musical: o Aurora Fest e o Tayunna Fest.

A VOLTA DO COMPACT DISC NO MUNDO

Em sua rede social profissional, a Business Affairs Fernanda Guttman, graduada em Berkeley, comentou sobre o novo crescimento do CD, que vem surgindo como tendência mundial após a volta do vinil Nos dias atuais, o CD virou um objeto de arte que toca.
"Comecei a ler o Midyear Report deste ano, da Luminate, com o panorama semestral do consumo de música, filme e TV, e me chamou a atenção o crescimento das vendas de CDs. O relatório aponta que o formato cresceu 16% no primeiro semestre de 2026, chegando a 16,3 milhões de unidades. Esse número supera até mesmo o vinil, que cresceu 2,4%. Excluindo as vendas do BTS e do catálogo K-pop, o crescimento do CD ainda é de 6,7%. O fato mais surpreendente é que quase metade dos compradores de Gen Z e Millennials que adquiriram um CD não tem aparelho para tocá-lo. A Luminate interpreta esse movimento como uma mudança no papel do CD. Segundo o relatório, ele deixou de ser um meio funcional de ouvir música para se tornar um item de coleção acessível. Talvez isso explique por que o valor do CD hoje esteja menos na possibilidade de reproduzir a música e mais na forma como ele materializa a relação com um artista, sua obra e sua trajetória", explicou ela.

O QUE DIZ A FAN?

Procurada por O DIA Niterói, através da Ascom, a Presidenta da Fundação de Arte de Niterói (FAN), até o fechamento desta reportagem, não respondeu aos questionamentos. O espaço segue sempre aberto para as respostas.

Linha do Tempo Administrativa

1990–1992

Prefeito: Jorge Roberto Silveira

* Diretor: Ivan Macedo;
* Estruturação e criação da Niterói Discos;
* Início das atividades do selo em setembro de 1991.

1993–1996

Prefeito: João Sampaio

* Direção de Ivan Macedo;
* Continuidade das atividades do selo;
* Expansão do catálogo fonográfico.

1997–2002

Prefeito: Jorge Roberto Silveira

* Direção: Ivan Macedo e Paulo Renato Rocha;
* Consolidação da Niterói Discos como política cultural permanente;
* Ampliação significativa do número de lançamentos;
* Transição tecnológica do vinil para o CD.

2003–2008

* Prefeito: Godofredo Pinto;
* Direção: Talitha Ascoli e Cláudio Salles;
* Gestão associada à retomada de projetos contemplados em editais anteriores e à manutenção das atividades do selo durante aquele período.

2009–2012

Prefeito: Jorge Roberto Silveira

* Direção: Carlos Tatoo;
* O selo permaneceu em atividade;
* Premiação em 2011 na Festa Nacional da Música, na cidade de Canela.

2013–2020

Prefeito: Rodrigo Neves

* Direção: Luiz Otávio Torreão;
* Continuidade das atividades culturais da Niterói Discos;
* Realização do projeto Palco Niterói Discos, no Solar do Jambeiro.

2021–2024

* Prefeito: Axel Grael;

* Direção: Luiz Otávio Torreão;
* Lançamento da Rádio Niterói Discos;
* Lançamento do Catálogo do selo;
* Celebração dos 30 anos da Niterói Discos;
* Criação da Rádio Niterói Discos;
* Implantação da Sala dos Selos na Biblioteca Parque;
* Desenvolvimento do podcast Resenha Musical.

2025–Presente

* Prefeito: Rodrigo Neves
* Diretor: Alessandro Cardozo
* Mudança de nome para Niterói Música
* Digitalização dos áudios dos LPs