Morre o poeta e compositor Marcelo Diniz Martins, o Paredão
Professor da UFRJ, letrista e figura marcante da boemia e da literatura niteroiense, o artista faleceu aos 58 anos após um infarto; o sepultamento ocorre nesta segunda-feira no Parque da Colina
Niterói: Marcelo Diniz Martins, o Paredão, deixou a cidade de luto no último dia da FLIN 2026 - Reprodução/Internet
Niterói: Marcelo Diniz Martins, o Paredão, deixou a cidade de luto no último dia da FLIN 2026Reprodução/Internet
Niterói — A cena cultural e acadêmica de Niterói se despede de um de seus nomes mais talentosos. Morreu no último domingo (16), aos 58 anos, o poeta, professor e compositor Marcelo Diniz Martins, carinhosamente conhecido entre amigos, alunos e frequentadores da boemia local como "Paredão". O artista foi vítima de um infarto. O velório e o sepultamento ocorrem nesta segunda-feira (17), no Cemitério Parque da Colina, em Pendotiba, onde familiares, amigos, parceiros da música e a comunidade acadêmica prestam as últimas homenagens.
Mestre da rima e pilar da MPB contemporânea
Nascido e criado em Niterói, Marcelo "Paredão" construiu uma trajetória sólida na literatura e na música. Na década de 1980, ainda nos bancos escolares da cidade, uniu-se aos amigos Fred Martins e Manoel Gomes. O trio, que refinou o talento ao redor das mesas de bar e em rodas de violão transcrevendo clássicos da MPB, tornou-se o berço da vitoriosa carreira do cantor e compositor Fred Martins. Marcelo assinou letras fundamentais em toda a discografia de Fred Martins, incluindo o aclamado álbum Ultramarinho (lançado pela gravadora Biscoito Fino). Suas rimas ágeis e precisas deixaram marca registrada na poética da canção brasileira contemporânea.
Trajetória acadêmica e legado literário
Além das letras de música, Marcelo teve atuação de destaque na literatura e na vida universitária. Graduado pela Universidade Federal Fluminense (UFF), tornou-se mestre e doutor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde atuava como professor adjunto da Faculdade de Letras ministrando disciplinas de Teoria Literária e Literatura Comparada, além de oficinas de escrita criativa.
Como autor, publicou trabalhos marcantes: +1 (2019), livro focado na estrutura de sonetos e poemas visuais; Rimas (2019), plaquete lançada na prestigiada coleção megamini, da editora 7Letras; e ofereceu contribuições teóricas, como autor de verbetes de referência para o Dicionário Drummond (Instituto Moreira Salles), abordando temas como rima, ironia, soneto e a morte.
A origem do apelido "Paredão"
Muito conhecido nas rodas de conversa e nos saraus da Praça da Cantareira — lendário reduto boêmio da UFF no Gragoatá —, o apelido "Paredão" nasceu como uma gíria do meio musical e estudantil niteroiense. A alcunha era uma referência carinhosa tanto à sua presença física e carismática quanto à solidez métrica e à versatilidade de suas poesias construídas ao vivo nas rodas de composição. A morte de Marcelo Diniz Martins deixa um vazio profundo no ensino superior e na rica tradição de letristas e poetas formados em solo niteroiense.
Lembrança Poética
Para homenageá-lo, uma poesia de sua autoria:
Ócio
O sono não aguarda pautas e, no espelho, um canto de quarto, uns retratos que ninguém olha.
O sol novamente se arrasta, confere o cálculo e se afasta sem deixar vestígio de glória.
As palavras todas na página e aquele mesmo armário aberto, aquele mesmo espelho absorto.
Se a luz traduzisse em segredo a distensão dos semitons, cada nuança de sua incidência oblíqua e filtrada, a modorra teria o dorso de uma fêmea.
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