Por thiago.antunes
Publicado 13/12/2014 00:42 | Atualizado 13/12/2014 02:16

Rio - Dois dias depois da divulgação do relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV), o encontro entre a presidenta Dilma Rousseff e os três comandantes das Forças Armadas nesta sexta-feira foi marcado por um constrangimento. Além deles, entre os militares que participaram da solenidade de inauguração do prédio principal do estaleiro de construção de submarinos da Marinha, em Itaguaí , estava o almirante de esquadra Alfredo Karam. Ele é o número 21 da lista de 377 militares apontados pela CNV como responsáveis pelas torturas, mortes e desaparecimentos cometidos durante a ditadura.

Karam é listado no relatório final entre os que tinham responsabilidade político-institucional pelas estruturas da repressão, já que foi ministro da Marinha entre 1984 e 1985, no governo do general João Figueiredo. Ao longo de sua trajetória, entre outros comandos, ele dirigiu o 1º Distrito Naval, no Rio, em 1979. Karam também recebeu a medalha do pacificador do Exército em 1976, uma honraria concedida com frequência, à época, aos militares que trabalhavam no “combate à subversão”. Karam participou da cerimônia porque é considerado na Marinha um dos precursores do projeto do submarino.

Na solenidade%2C Dilma e o ex-ministro Alfredo Karam%2C apontado como um dos precursores do submarino nuclear Carlo Wrede / Agência O Dia

O discurso de Dilma no evento foi pelo fortalecimento das Forças Armadas. “Em um futuro cada vez mais próximo, a força naval brasileira poderá escrever mais um feito na sua história: ter contribuído decisivamente para que a nossa nação, para que o nosso país integre o seleto grupo de cinco países do Conselho de Segurança da ONU que dominam a tecnologia de construção de submarinos com propulsão nuclear”, ressaltou Dilma.

A presidenta também ressaltou que o Brasil é um país de paz, mas o investimento é necessário. “Somos uma das poucas regiões do mundo em que nós vivemos há mais de 150 anos em paz com os nossos vizinhos”, completou.

O projeto é desenvolvido no Centro Tecnológico da Marinha, em São Paulo, com transferência de tecnologia francesa. O comandante da Marinha, almirante de esquadra Julio Soares de Moura Neto, explicou que trabalham no projeto 131 engenheiros e projetistas. No ano que vem, o número deve ultrapassar 300 pessoas.

No edifício inaugurado agora, as seções de submarinos serão unidas e também será instalada a propulsão do submarino nuclear. A construção do submarino, em si, deve ser iniciada em 2016 e encerrada em 2023. O governador Luiz Fernando Pezão também participou do evento e chamou Dilma de “Mamãe Noel do Rio”. Pezão afirmou que a parceria do Estado com o governo federal já atraiu quase R$ 100 bilhões em investimentos em obras de infraestrutura. “Só aqui nessa região, com a Usina Nuclear Angra 3, com o submarino nuclear, com o Arco Metropolitano e a CSA, vamos perto de R$ 100 bilhões em investimentos”, afirmou.

‘A Comissão Nacional da Verdade cumpriu o papel dela’

O comandante da Marinha, almirante Júlio Soares de Moura Neto, afirmou nesta sexta que ainda não analisou o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, que responsabilizou 377 pessoas por tortura, mortes e sumiços durante a ditadura militar.

“A Comissão Nacional da Verdade cumpriu o papel dela. Fez um relatório, que não tivemos oportunidade de nos debruçar para poder analisar o que está escrito lá”, disse almirante. Ao lado da presidenta Dilma Rousseff, ele e os outros dois comandantes das Forças Armadas — o general do Exército Enzo Peri e o brigadeiro Juniti Saito, da Aeronáutica — participaram ontem da inauguração do prédio principal do estaleiro de construção de submarinos da Marinha, em Itaguaí, na Baixada Fluminense.

“É realmente a primeira vez que nós nos encontramos com a presidente, desde a divulgação do relatório, e esse assunto não foi tocado com ela. Nos limitamos a falar sobre a inauguração desse prédio”, afirmou Moura Neto.

Segundo ele, as Forças Armadas vão esperar orientação do governo brasileiro para se posicionar de maneira mais clara sobre o resultado da comissão. “Na realidade, o relatório foi entregue à presidente da República e as Forças Armadas estão aguardando exatamente o que ela disse que iria fazer, de que iria se debruçar sobre o relatório. A partir do momento que ela fizer isso talvez saiam algumas orientações, algumas determinações”, disse.

Presidenta almoça em Piraí com pais de Pezão

A visita ontem da presidenta Dilma Rousseff (PT) a Piraí, terra natal de Luiz Fernando Pezão, tumultuou a pequena cidade do Sul Fluminense, e superou as expectativas de dona Ercy e seu Darcy de Souza, pais do governador reeleito. “Ela é tão simples. É gente como a gente”, encantou-se Ercy, econômica nas palavras.

No almoço de duas horas e meia que reuniu Ercy e Darcy%2C pais de Pezão%2C a presidenta Dilma teria conversado com o governador sobre ministériosErnesto Carriço / Agência O Dia

Foram duas horas e meia de almoço, cujo cardápio era leitão pururuca e churrasco, embora a presidenta, visivelmente mais magra — seis quilos a menos, segundo Pezão — estivesse de regime. No encontro, um primo do governador fez as vezes de cantor. O prefeito do Rio, Eduardo Paes, e o ex-governador Sergio Cabral, que incentivou a debandada de parte do PMDB do Rio para a candidatura a Presidência de Aécio Neves (PSDB), também apareceram ao convescote.

Todos juram que não trataram de ministério. “Zero de política”, garantiu Pezão, após se despedir da presidenta. Especula-se que Dilma veio tratar da vaga de um indicado do PMDB do Rio ao seu governo. “Não podemos pedir nada a ela, que já fez muito para o nosso estado”, despistou o governador. Pela manhã, Paes dissera a mesma coisa na saída de seu encontro com a petista, num hotel em Copacabana. Dona Ercy, porém, entregou uma conversa política: “Pedi para que continue a ajudar o meu filho a governar o Rio”.

Visita anima população

Enquanto o rega-bofe ia tarde adentro na casa dos pais do governador, na rua, cerca de dez pessoas enfrentavam o sol e o clima abafado na esperança de ver a presidenta. Dois deles se diziam brizolistas — das fileiras de onde saíram Dilma e Pezão — e dois militantes da juventude do PCdoB.

Luiz ficou frustrado por não ter servido torresmo para DilmaErnesto Carriço / Agência O Dia

Não foi a primeira vez que Piraí recebeu a visita de um presidente da República. Em 2009, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve na cidade. Mas, ao contrário de Dilma, fez uma agenda pública, na praça da cidade. “Ela é mulher, não pode ficar apertando e sendo apertada por todo mundo, tem que ser mesmo mais reservada”, defendeu Odair José, 42.

Luiz Geraldo Teixeira, 67, do Rei do Torresmo, bar preferido do governador Pezão e que serviu sua iguaria ao ex-presidente, estava esperançoso de que conseguiria repetir a dose com a petista. No fim do dia, frustrado, lamentou não ter recebido encomenda para o almoço. “Mas não tem problema, o Pezão adora e sempre come aqui comigo.”

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