Gustavo GrandinettiDivulgação

O ser humano sempre foi pródigo em inventar uma infinidade de deuses. Às vezes, porém, suas invenções, ainda que destituídas de fé religiosa, têm uma força equivalente à dos deuses. Próximo dos 3.000 anos a. C., os sumérios inventaram um modo de facilitar o comércio de produtos: um primeiro protótipo de dinheiro. A invenção do dinheiro acelerou e simplificou o comércio, permitiu a acumulação de riqueza, até chegarmos no estágio atual do capitalismo financeiro, que não produz nada, mas intermedia a riqueza.
O dinheiro mudou todos os hábitos. O trabalho de poucas horas dos povos originários, suficiente para a subsistência própria e de toda a tribo, foi substituído pela jornada de oito horas de trabalho, remunerada. A sociedade moderna vive para comprar e para acumular patrimônio. O horário de dormir e de acordar, antes regido pela natureza, passou a ser regido pelas necessidades do mercado. Assim foi criado o deus mercado/dinheiro, sob cuja influência gira a roda do mundo.
O final do século XIX e o século XX assistiram uma série de invenções integrantes da tecnologia da comunicação, até chegarmos na internet (1969). Embora tivesse uma origem militar, a internet, passou a ser concebida como um espaço de liberdade, em que cada pessoa poderia manifestar-se, desde que dominasse a complexa linguagem do computador. Como em toda atividade humana, alguns poucos mais capazes e que dominavam a tecnologia da computação, facilitaram o seu acesso, desde que o usuário usasse o seu sistema de gerenciamento.
Desse modo, esses gênios da computação se apropriaram da internet e de seus subprodutos tecnológicos: as redes sociais, os algoritmos e a inteligência artificial. As redes sociais passaram a ser o grande ambiente de informação, destronando os jornais impressos, o rádio e a televisão. O algoritmo é um conceito da matemática. Incorporado à computação, são operações lógicas capazes de assegurar a resolução de um problema. O próximo passo foi a inteligência artificial, que se desenvolve com tanta rapidez que não conseguimos acompanhar suas novas aplicações. Sua aplicação não tem limites. Os riscos também são enormes.
Não há dúvida que a tecnologia da informação trouxe e traz muitos benefícios. No entanto, a possibilidade de a humanidade ter criado mais um deus onipotente que aliena é imensa. Aliena porque muitos humanos vão se dispensar de raciocinar por si mesmos as questões mais complexas: basta perguntar e a resposta virá da IA. Até que ponto a humanidade conservará a sua capacidade de pensar?
Numa passagem atribuída a Sócrates, no antigo Egito, o deus Thoth recomendava ao deus Tamuz (Amon) a adoção da escrita para tornar os súditos mais sábios. Tamuz, ao contrário, respondeu: “tal coisa tornará os homens esquecidos, pois deixarão de cultivar a memória...pois eles recebem muitas informações sem instrução e se consideram homens de grande saber, embora sejam ignorantes na maior parte dos assuntos”. Sócrates, ou Amon, atiraram no que viram, mas podem ter acertado no que não viram.
Gustavo Grandinetti é desembargador aposentado do TJRJ, autor de livros jurídicos e professor visitante da Uerj