A infância é o terreno mais fértil que existe, mas também o mais disputado. Nela, plantamos as sementes do caráter ou permitimos que o abandono gere frutos amargos. Quando abrimos um livro para uma criança, não estamos apenas decifrando letras; estamos entregando a ela uma espada para enfrentar a vida. A leitura infantil é a ferramenta de transformação social mais poderosa que conheço, pois ela permite que o pequeno cidadão enxergue além do seu horizonte, desenvolvendo empatia e senso crítico antes mesmo de entender o que é política.
O grande desafio que encontrei na gestão pública moderna é a luta contra o vazio. Como competir com o imediatismo das telas que sequestram a atenção de nossos filhos? A resposta exige planejamento eficaz: a leitura precisa transbordar os muros da escola. Ela deve ser o fio que costura a relação entre alunos e pais, um momento de afeto onde o conhecimento se mistura ao som da voz de quem protege. Se a família não lê com a criança, a escola fica sozinha em uma batalha desigual.
Em Saquarema, não assistimos a esse desafio de braços cruzados. Entendemos que uma educação de qualidade não se faz apenas com salas de aula físicas, mas com o incentivo visceral ao hábito da leitura. Por isso, consolidamos o programa municipal "Escola que Lê – Surfando na Onda da Leitura". Recentemente, a prefeitura iniciou a entrega de quase 20 mil Sacolas Literárias. Cada sacola contém quatro livros selecionados para serem lidos em casa, integrando as famílias e criando uma nova cultura literária no ambiente doméstico. O livro precisa estar na mesa do jantar, e não apenas na estante da sala de aula.
Essa estratégia reflete o que sempre acreditei: um atendimento público humanizado olha para o que acontece depois que o sinal da escola toca. O resultado desse compromisso público é concreto. Saquarema conquistou a 6ª maior nota do Estado do Rio de Janeiro no IDEB nos anos finais do ensino fundamental. Isso não é sorte; é gestão orientada a resultados que entende que a alfabetização plena é o primeiro passo para a dignidade. Por isso, nossas escolas tem diversas salas de leitura onde várias atividades pedagógicas são realizadas para incluir a BNCC (base nacional comum curricular).
Não estamos sós nessa visão. Cidades como Sobral, no Ceará, já provaram que o foco obsessivo na leitura e na formação continuada de professores é o que tira uma região do atraso e a coloca no topo do mapa do desenvolvimento. A inovação na educação não é apenas tecnologia; é saber usar o livro para despertar a alma. Como mulher dedicada às causas públicas e com a experiência de quem já exerceu o protagonismo feminino no Executivo, afirmo: investir na base é o único caminho para um país que se respeita. O desenvolvimento educacional deve garantir que o filho do trabalhador tenha o mesmo acesso ao imaginário que o filho do mais rico. Em Saquarema, projetos como o Conexão Universitária e o Escola Viva provam que o ciclo de aprendizado deve ser completo e sem interrupções.
Além disso, grandes eventos como a FLIS (Feira Literária Internacional de Saquarema), que realizamos anualmente e leva milhares de turistas para a cidade, mostram nosso compromisso com a leitura como um motor de desenvolvimento Saquarema. Mais do que um evento festivo, a feira é o ápice de um ciclo pedagógico onde nossos alunos têm a oportunidade única de interagir com os autores das obras que leram em casa, utilizando seus próprios vouchers para exercer autonomia na escolha de novos títulos. É a gestão pública transformando a cultura em um pilar de impacto social e econômico, provando que, quando há planejamento governamental sério, o livro se torna a ferramenta principal para a construção de uma cidade mais crítica, livre e preparada para os desafios do futuro.
Minha visão é clara: precisamos de uma administração pública que tenha a coragem de tratar o livro como artigo de primeira necessidade. A leitura é o alicerce da liberdade. Quando oferecemos acesso à cultura, estamos promovendo uma transformação urbana real, onde o cidadão deixa de ser espectador para se tornar o autor da sua própria história.
Dar um livro a uma criança é dar a ela o direito de sonhar; garantir que ela o leia é dar a ela o poder de realizar.
Manoela Peres é ex-prefeita e ex-Secretária de Governança e Sustentabilidade de Saquarema
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