Isa Colli é jornalista e escritora Divulgação
Diante desse cenário, impõe-se uma pergunta essencial: qual é o lugar do Brasil nesse novo mapa global?
O país reúne atributos que o colocariam entre os protagonistas do século XXI. É potência ambiental, líder na produção de alimentos, detentor de recursos estratégicos e possui uma matriz energética relativamente limpa. Soma-se a isso um mercado interno relevante e uma posição geopolítica privilegiada.
Ainda assim, o Brasil segue aquém de sua capacidade.
O principal entrave não está na falta de potencial, mas na ausência de direção. O país não consolidou um projeto nacional consistente, capaz de atravessar governos e orientar decisões estratégicas. Sem isso, permanece oscilando entre avanços pontuais e recuos previsíveis.
A cultura política também precisa ser enfrentada com clareza. Não é admissível que mandatos públicos sejam tratados como instrumentos de interesse pessoal.
Representantes eleitos não podem se orientar por benefícios próprios, de seus familiares ou por rixas partidárias sem qualquer benefício público, esquecendo o compromisso com a sociedade. Sem essa mudança, o país continuará desperdiçando oportunidades.
Outro obstáculo é a persistência de uma mentalidade de dependência. O Brasil ainda busca validação externa, em vez de afirmar sua própria relevância, o que limita sua atuação e reduz sua capacidade de influência.
Como observa o economista Daniel Balaban, do Programa Mundial de Alimentos da ONU, o Brasil tem condições de exercer protagonismo, mas não liderança hegemônica. Sua força está na articulação diplomática e na construção de agendas, especialmente voltadas ao Sul Global.
Hoje, o país atua como um “líder de nicho” em temas como clima, combate à fome, agricultura sustentável e governança global.
Trata-se de um protagonismo relevante, porém ainda restrito.
Para ampliá-lo, será necessário avançar em estabilidade política, crescimento econômico sustentado e desenvolvimento tecnológico e industrial, além de transformar compromissos em políticas concretas.
A reorganização global não aguardará indefinições. O espaço para influência está sendo ocupado agora.
Resta ao Brasil decidir se continuará sendo uma promessa recorrente ou se assumirá, com consistência, o papel compatível com sua grandeza.

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