Da esquerda para direita: Allan Rodrigues, Melissa Simplício, Gabriella Santos, Isabele Fransozi, Isabelle Condor, Bruno Freitas, Renan Monteiro, Ruth Di Rada - Arquivo Pessoal
Da esquerda para direita: Allan Rodrigues, Melissa Simplício, Gabriella Santos, Isabele Fransozi, Isabelle Condor, Bruno Freitas, Renan Monteiro, Ruth Di RadaArquivo Pessoal
Por *Lara Nascimento
Rio - Doze jovens e um propósito: criar novas lideranças. Foi com esse intuito que estudantes do Nordeste e Sudeste foram selecionados pela Academia de Liderança da América Latina (LALA) para um intercâmbio de três meses em Medellín, na Colômbia, em 2021. A seleção aconteceu através de envio de redações e entrevistas, onde eles precisaram contar um pouco da sua história. Após a notícia da aprovação, os estudantes decidiram criar uma vaquinha online para custear a viagem.

A LALA é uma academia que desenvolve protagonismo em jovens, acreditando que isso é uma ponte para resolver problemas sociais da América Latina através de lideranças. O intercâmbio é feito em um acampamento imersivo, com grupos de diversas nacionalidades na intenção de buscar soluções e autoconhecimento. Cada estudante selecionado tem algo em sua trajetória pessoal que causou entusiasmo e merece atenção pelo potencial promissor de fazer a diferença e pensar no coletivo.

No Nordeste, Bruno Freitas, de 18 anos, e Allan Rodrigues, de 19 anos, foram os selecionados. Bruno, que além de estudante é professor particular de inglês, conta que sua trajetória começou em um bairro do subúrbio de Salvador, Bahia, quando percebeu que simplicidade da comunidade onde morava e as estatísticas que apontavam para região. "Eu não me lembro exatamente quando passei a ter que, toda vez ao sair de casa, levar comigo um documento de identificação, pois há uma grande chance de ser confundido com um bandido e morto pelas mãos da polícia. Não me lembro qual foi a primeira vez que minha mãe orou para que eu retornasse para casa ao sair. Mas, talvez, eu lembre a idade com que decidi que não faria parte
desse intenso e cruel número e tornaria o mundo um lugar um pouco melhor para mim e para minha comunidade", explica. Aos 12 anos, Bruno já fazia trabalhos voluntários, aulas de teatro e aprendeu inglês sozinho, mas entendeu a importância de passar o conhecimento adiante e criou um projeto para ensinar inglês e desenvolver inovação social.

Já Allan teve um percurso mais longo. Nascido na comunidade rural Ribeira do Piauí, no sertão piauiense, precisou sair de casa para ter acesso a educação básica e então ter a oportunidade de ingressar no ensino superior. "Aos 14 anos tive que fazer a difícil decisão se ficaria com o livro ou com a enxada, sem acesso à internet, cultura e educação, eu vi que não poderia ficar sentado esperando o mundo mudar, esperando as coisas melhorarem, eu tinha que criar os meus próprios mecanismos para ter acesso à educação, então subi num pau de arara e me mudei com meus irmãos para São João do Piauí, única possibilidade de cursar ensino médio", conta.
Oriundo de uma família que em partes ainda é analfabeta, Allan conseguiu uma bolsa e hoje cursa Direito. "Luto por direitos e por reparação, assim como Esperança Garcia, uma escravizada piauiense que em 6 de Setembro de 1770 escreveu uma carta ao governador reivindicando Direitos Humanos, no pior momento possível pra ser negro no Brasil. E hoje ela é reconhecida como a primeira advogada do Piauí", completa.

No Rio, quatro estudantes também estão arrumando as malas para o intercâmbio. Isabelle Condor, de 17 anos, Renan Monteiro, de 22, Melissa Simplício, de 17, e Gabriella Santos, de 19. Isabelle é ilustradora e escritora de quadrinhos e livros, iniciou cedo um processo de aceitação do TEA (Transtorno do Espectro Autista), que só ficou sabendo recentemente. Para ela, se inserir nesse bootcamp é uma oportunidade para um desenvolvimento pessoal. “Vejo na LALA um meio de me desenvolver melhor como indivíduo, líder e consequentemente conseguir avanços com minhas habilidades sociais, que ainda estão atrasadas por conta da demora no diagnóstico, pois em apenas uma semana no bootcamp, consegui desenvolver habilidades socioemocionais e comunicativas que foram muito significativas não só para minha família como também no meu ciclo social”, explica. Ela também tem como objetivo se formar em neuroengenharia para poder democratizar o acesso de pessoas com alguma deficiência em camadas da sociedade. “Almejo conseguir desenvolver novos métodos de tratamento para pessoas com deficiência, mesmo com fatores que seriam limitantes, não serão eles que irão me impedir de seguir meu sonho na ciência, ajudando outras pessoas e chegando em Medellín.”

Renan, que é de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, teve a oportunidade de viajar para os Estados Unidos para um evento e percebeu que não poderia ser o único da sua comunidade a conquistar esse feito. O Técnico em Química usou a inquietude para fundar o projeto Educação Transforma Vidas e realização de palestras em escolas públicas na região em que mora. Ele se considera um "ativista pela educação" que não aceita a atual realidade da educação que o país oferece. "Imagino um futuro onde comunidades pobres tenham acesso a mesma realidade de educação, ciência e tecnologia que as cidades ricas possuem", diz. Ressaltando a importância do comprometimento de um apoio financeiro na luta antirracista, Renan defende sua participação no intercâmbio. "Me tornaria mais preparado para lidar com os problemas sociais que envolvem a desigualdade do acesso à educação e ciência em comunidades pobres do Brasil."

Gabriella, que é estudante de Direito na UFRJ, poeta e professora no Movimento de Educação Popular Mais Nós, no Complexo do Alemão, além de fazer parte de alguns movimentos sociais. Ellas, seu nome artístico, é praticante de slam e usa todas as oportunidades que conquistou para criar uma ponte de representatividade e liderança. "Eu quero e sou uma agente direta que luta para que o meu povo deixe de ser escravizado. Eu não quero ser a única nos espaços que ocupo, nem a última. Ao ver de perto todos os dias a escravidão do meu povo, por ser uma jovem negra, pobre, viva numa das melhores universidades da América Latina, sei que sou inspiração pra muitos."
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A estudante tem o sonho de "estabelecer a educação popular de qualidade nas favelas e presídios" do país e estabeleceu a meta de "libertar 500 pessoas pretas do cárcere". Toda essa motivação fez com que fosse selecionada para bootcamp em Medellín.

Melissa começou a se envolver com organizações sociais aos 13 anos. A estudante se deu conta de que precisava fazer algo para ajudar a melhorar a sociedade e principalmente as mulheres, focando sempre nos estudos. "Mesmo quando nova, já tinha a consciência de que afro-brasileiros eram representados em subempregos e, enquanto mulheres, eram ameaçadas com a possibilidade de sermos torturadas ou assassinadas por conta de nosso sexo. Assim, minha motivação vem de um lugar extremamente pessoal: não querer que outros passem pelo o que eu e minha família já passamos enquanto vítimas do sistema", desabafa. "Acredito fortemente que a educação é uma arma poderosa onde todos devemos beneficiar-nos dela. Por isso ergo a minha voz não porque posso, mas por não aguentar ser uma testemunha silenciosa da desigualdade que envolve minha comunidade", conta. Por isso, Melissa acredita que a experiência no LALA será única e decisiva para explorar as concentrações de Análise de Dados e Remodelando a História, "compreendendo como nossa história coletiva e manobra estatística podem levar à criação de políticas públicas aprimoradas."

A capital de São Paulo terá Ruth di Rada, de 17 anos, ingressando no intercâmbio. Ruth é estudante de Economia na USP e coordenadora pedagógica em um cursinho da FEAUPS, também faz parte da sociedade de debates da Universidade de São Paulo e da Associação de Negros Feanos. Com uma trajetória de destaque, Ruth vem trilhando um caminho importante através dos estudos. "Ao longo dos últimos anos, tive acesso e me empoderei de oportunidades que nunca poderia imaginar. Fui bolsista integral no ensino médio após ser aprovada no processo seletivo do instituto ISMART. Conquistei uma bolsa no programa internacional de verão sobre liderança jovem da Universidade de Notre Dame, iLED. Mas, atualmente, uma das coisas que mais me movem é ser coordenadora pedagógica do Cursinho FEAUSP, um curso pré-vestibular popular que, por ano, visa democratizar o acesso ao ensino superior para mais de 480 alunos de baixa renda", conta. 
A passagem pelo acampamento proposto pela LALA, é um caminho imprescindível para que Ruth atinja alguns ideais. "Chegarei um dia nos principais grupos de pesquisa pública político-econômica do Brasil e estarei no Planalto sendo a diferença. Mas, até lá, busco apoio financeiro para alcançar mais esse sonho e conquistar a possibilidade de ocupar esse espaço de resistência enquanto jovem líder afrolatina."

Isabele Fransozi, de 19 anos, é uma carioca que vive em Juiz de Fora, Minas Gerais. Integrante de projetos que visam a igualdade de gênero, Isabele luta para ajudar a levar educação e oportunidade para meninas do país, todo o esforço também é um catalisador que gera representatividade e ativismo através do acesso à educação. A proposta do intercâmbio coincide com os planos da estudante ao propor democratização e criação de lideranças. " A Academia de Liderança da América Latina me dá hoje a oportunidade de aprender com o mundo e com as pessoas, aprender com a diversidade em meio a um continente e um povo que tanto sofreram. Hoje não me dou ao luxo de não pensar em mudar o mundo, de não pensar em melhorar os lugares por onde passar."
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*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes