Movimentação na histórica confeitaria Manon, no CentroReginaldo Pimenta / Agência O Dia
Confeitaria com mais de 80 anos tem 'boom' de visitas após cenas em 'Ainda Estou Aqui'
Manon, localizada na Rua do Ouvidor, conservou a decoração e arquitetura, se tornando um ponto de referência do Centro histórico
Rio - Os cariocas que já comeram um 'pão madrileño' no Centro do Rio provavelmente reconheceram o ambiente de duas cenas do filme 'Ainda Estou Aqui', indicado ao prêmio Oscar de Melhor Filme e Melhor Filme Internacional de 2025. O doce é uma unanimidade entre os clientes da confeitaria Manon, localizada na Rua do Ouvidor, onde a família Paiva aparece em dois momentos: antes e depois do desaparecimento de Rubens Paiva (Selton Melo). A cena emocionante chama atenção pela atuação da Fernanda Torres, que recebeu indicação ao Oscar de Melhor Atriz por interpretar Eunice Paiva, mulher de Rubens.
Fabiula González López é sócia e filha de um dos fundadores da confeitaria, inaugurada em 1942. Ao DIA, ela contou que, com a repercussão do longa, o estabelecimento voltou a receber turistas de diferentes cantos do Brasil e do mundo. Segundo Fabiula, o principal 'boom' de visitas começou após a vitória da Fernanda Torres no prêmio Globo de Ouro como Melhor Atriz em Filme de Drama e a indicação ao Oscar.
"Sempre teve muita movimentação, porque um prédio histórico, uma confeitaria histórica. Mas aumentou! No mês de fevereiro, que era um mês fraco no Centro, estamos vendo que tem muito turista, muita gente diferente, não só quem trabalha por aqui. Normalmente nesse período, o Centro fica mais vazia por conta das férias de verão, mas o povo está vindo para conhecer. Parece que o pessoal quer viver essa cena, é muito emocionante", explicou.
"Hoje, a maioria do pessoal que está aqui é turista, principalmente brasileiro. A gente recebeu alguns turistas que há muito tempo não víamos, como russos, italianos, franceses… Estamos recebendo gente do mundo todo. Na sexta-feira, tinha uma mesa enorme de um pessoal da Zâmbia. O movimento do restaurante passou a não ser mais o movimento da comida daqueles que trabalham por aqui. Os que trabalham chegam aqui às 11h30, ao meio-dia. Agora, a partir de 13h dá um 'pico' e às 13h30, é outro", diz Fabiula.
A sócia ainda explicou que foram cinco meses de trabalho no restaurante para a produção das cenas. A confeitaria Manon é tombada pela Prefeitura do Rio desde 1993 e carrega a arquitetura característica ao Art-Déco. É um dos poucos estabelecimentos que conservam a decoração interna no "estilo moderno", dos anos 40 e 50, como explica o decreto que tombou a confeitaria. No local, também foram filmadas cenas dos filmes A Vida Invisível, lançado em 2019, e Dercy de Verdade, de 2012.
No início da tarde desta terça-feira (25), o babalawô Ivanir dos Santos almoçou no seu "escritório", como ele apelidou a confeitaria Manon. Ele se sentou na mesa onde gravaram as cenas do filme "Ainda Estou Aqui" e reivindicou que sempre ocupou a mesma cadeira no estabelecimento, mesmo antes das gravações.
Pós-doutor em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ivanir contou frequenta o restaurante há um bom tempo, porque dá aula nas proximidades, e reconheceu o ambiente no momento em que assistia ao filme. Além disso, não deixou de indicar que os clientes peçam o famoso 'pão madrileño'.
"Aqui é um lugar histórico, do ponto de vista de uma referência importante, até por causa do 'madrileño'... Não tem como fazer um filme histórico, ainda mais que se passa nos anos 70, sem passar no Centro. O Centro da cidade tem muita preservação, tanto do século XIX, algumas do século XVIII… Mas principalmente com a revigoração que veio nos anos 40, 50 para cá. Qualquer filme que for retratar um período histórico vai ter que lidar com o Centro da cidade, onde estão remanescentes dessa arquitetura", comentou Ivanir.
O professor ainda ressaltou que o filme também se mostrou importante para retratar a história do Rio, não só marcada pelas riquezas naturais. "Isso é bom, ainda mais um filme que está rodando, está sendo uma referência no mundo, mostrar esse Rio. Não só o Rio do Pão de Açúcar, que também é importante para nós, do Cristo… Mas também o Rio que tem suas memórias expressadas nas fachadas de prédios e casas - que são poucas remanescentes bem cuidadas - no Centro da cidade. Aqui é um lugar que nem precisa saber o endereço: pode falar só 'vamos na Manon' e todo mundo já sabe onde é", celebrou.
Mesmo sendo um ponto histórico da cidade, a confeitaria também está aberta para os novos clientes que chegaram após a exibição do filme. O profissional de Educação física e pastor Jonatas Lopes, de 27 anos, e sua mulher, a pesquisadora Mariana de Oliveira, gostaram de "Ainda Estou Aqui", mas não sabiam que duas cenas tinham sido gravadas no restaurante, onde eles estiveram pela primeira vez nesta terça-feira.
O casal recebeu a indicação da amiga Ilana Chaves, de 25 anos, que conhece o estabelecimento desde pequena e não reconheceu ao ver o longa. "Não reconheci! Venho desde criança, porque meu pai tem um consultório aqui perto. Minha mãe ama esses pães 'madrileños'! É legal termos essas confeitarias assim, que mantiveram a arquitetura, o conceito histórico do Centro", disse ao DIA. Jonatas aprovou a indicação da amiga e Mariana complementou: "Agora, posso falar que estive onde gravaram o filme".
Após a exibição do filme que atraiu multidões ao cinema, fãs passaram a visitar locais que receberam gravações para o "Ainda Estou Aqui". Nas redes sociais, a confeitaria Manon é uma das mais comentadas, assim como a casa que serviu como moradia da família Paiva no filme.
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