Devotos compram doces para distribuir no Dia de Cosme e DamiãoReginaldo Pimenta / Agência O Dia

Rio - Uma das datas mais importantes para católicos e praticantes de religiões de matriz africana, o Dia de São Cosme e Damião, comemorado em 27 de setembro, começa a movimentar o comércio dias antes. Embora não seja como antigamente, a tradição da distribuição de saquinhos de doces para crianças pelas ruas da cidade ainda segue viva entre os devotos.
Para o servidor público David Tebaldi, de 40 anos, que foi às compras no Mercadão de Madureira, nesta terça-feira (23), a tradição vai além da religião. “Sou devoto desde criança. Apesar de ser espírita kardecista, minha mãe é católica e sempre me levava para pegar doces. Já faz muitos anos que mantenho essa devoção com muito carinho e fé. Hoje, trabalhando no SUS, vejo meu papel de ajudar o próximo como uma forma de seguir o exemplo de São Cosme e São Damião”, disse ao DIA.

Embora tenha ficado alguns anos sem produzir os saquinhos de doces, a confeiteira Roberta Alves, de 44 anos, contou que a família decidiu se reunir para agradecer aos santos pelo nascimento da sobrinha.

“Minha irmã estava querendo engravidar já tinha um tempo. E ela conseguiu. Minha sobrinha nasceu esse ano e meu cunhado falou que iria contabilizar a quantidade de saquinhos pelo peso dela. Então, ela nasceu com 3,045kg, portanto, ficaram 304 saquinhos de doce”, celebrou.

Embora se tenha aberto espaço para doces cada vez mais sofisticados e modernos, como chocolates e balas de gelatina, os devotos, no entanto, não abrem mão da tradicionalidade e ainda preenchem os saquinhos com guloseimas como maria-mole, suspiro, cocada, doce de abóbora, pé de moleque, doce de batata doce, doce de mocotó, geleia e mais.

Roberta, este ano, escolheu os doces baseado nos gostos das crianças, mas sem abrir mão de alguns tradicionais. “Esse ano tem jujuba, bala, pirulito, pipoca, cocada, doce de abóbora, bala Fini, chocolate. Para mim, na tradição, não pode faltar o suspiro, maria-mole e o famoso ‘cocô de rato’”, riu ela.

Já David, não abre mão da paçoca. “Esse ano vai ter balas, pirulitos, paçoca, mariola, chocolate, pé de moleque, suspiro e outras delícias. Mas a paçoca, para mim, é o mais tradicional e não pode faltar nunca”, afirmou ele, que, embora estivesse comprando doces, achou o preço dos chocolates salgado.

“Esse ano pretendo distribuir cerca de 150 saquinhos. Até agora, já gastei em torno de R$ 800 e devo fechar perto de R$ 1.000 no total. Os preços estão mais alto, principalmente os chocolates e balas sortidas. Precisei pesquisar bastante para conseguir montar tudo”, disse.

Enquanto isso, Roberta não sentiu muita diferença nos preços em relação às últimas vezes em que precisou comprar doces. “A gente já gastou por volta de R$ 1.500. Eu acho que, em relação aos outros anos, os preços não aumentaram, a base está a mesma. A gente está sempre indo lá comprar balas, biscoito… não achei que está tão exorbitante assim, não. Eu achei que está um preço bom”, opinou.

De acordo com Valdeci Martins de Carvalho, gerente da loja Fonte dos Doces, localizada no Mercadão de Madureira, os preços não sofreram muitas alterações. “Em relação ao ano anterior, houve um aumento muito pequeno, tanto para nossas compras quanto para o consumidor”, afirmou ele, que listou os doces mais vendidos nos dias próximos ao Dia de Cosme e Damião.

“Os produtos mais procurados são os tradicionais, maria mole, paçocas ,amendoins, pipocas, pingo de leite, doce de abóbora, suspiro… mas os produtos da Fini em miniatura, como dentaduras,beijos de morango e amoras, têm ganhado cada vez mais espaço nos saquinhos”, contou.

Segundo explicou Valdeci, o movimento no período de Cosme e Damião voltou a crescer depois da pandemia de covid-19. “Desde a pandemia, as vendas vêm aumentando gradativamente, esse ano, durante a semana entre o dia 22 e 27 de setembro, deve ter um aumento em relação ao ano passado, mas a maioria dos clientes sempre deixa para última hora”, disse.

Adiantado ou em cima da hora, os devotos não deixam de comprar os doces para montar os saquinhos, já que a alegria das crianças é contagiante quando as guloseimas sãos distribuídas no Dia de Cosme e Damião.

Para David, o momento é para agradecer e manter viva uma tradição que fala sobre cuidar do próximo. “Ver a felicidade no rosto das crianças me enche de emoção e gratidão, é como se renovasse a fé. Para mim é um dia de partilha, fé e agradecimento. São Cosme e Damião representam proteção, inocência e generosidade. É uma forma de agradecer pelas bênçãos recebidas”, disse ele, que compara o trabalho com os ensinamentos de Cosme e Damião.

“Assim como na devoção a esses santos, em que distribuímos doces para levar alegria às crianças e partilhar esperança, vejo meu trabalho no SUS — especialmente dentro da regulação — como um ato de generosidade e compromisso com a vida. Cosme e Damião me inspiram nessa missão: doar sem esperar nada em troca, oferecer cuidado com amor e ser instrumento de fé e solidariedade”, afirmou.

Roberta também trata a celebração como uma forma de agradecimento pelas bênçãos recebidas. “União e gratidão são as palavras que resumem. É um sentimento bom, porque acaba que une a família, todo mundo vai ajudar a preparar e sair para distribuir. É muito bom ver a alegria das crianças. Eu fico aqui no muro de casa, olhando as crianças passarem… aquela bagunça. É um sentimento mesmo de amor, de gratidão. É muito bom voltar a distribuir os saquinhos”, contou.
Comemoração tem dois dias
Embora seja popularmente celebrado em 27 de setembro, com a entrega de guloseimas para as crianças, o Dia de São Cosme e Damião é marcado no dia 26 de setembro no calendário oficial da Igreja Católica. A comemoração, repleta de simbolismos, é significativa não somente para católicos, mas para os adeptos de religiões de matriz africana, como a Umbanda e o Candomblé.
Na tradição católica, Cosme e Damião eram irmãos gêmeos e médicos, que exerciam a profissão sem cobrarem nada para a população. Missionários, eles foram perseguidos pelo imperador romano Diocleciano e acusados de serem inimigos dos deuses romanos e de usarem artifícios para disfarçar as curas. Por volta de 300 d.C, acabaram decapitados.
Já não religiões de matriz africana, São Cosme e Damião representam os orixás Ibeji, também gêmeos e protetores das crianças. A associação acontece porque os escravizados buscavam por santidades cristãs que tivessem características parecidas com as divindades que acreditavam, já que essa era a única forma que poderiam continuar professando a própria fé, proibida pelos senhores de engenho.