Megaoperação nos Complexos da Penha e do Alemão deixou 121 mortosReginaldo Pimenta / Agência O Dia

Rio - "O que aconteceu aqui não é normal e não deveria se repetir em lugar nenhum. A favela merece viver  e não apenas sobreviver". O relato de uma moradora do Complexo do Alemão, na Zona Norte, evidencia as preocupações com os impactos da megaoperação realizada na última terça-feira (28), que se tornou a ação policial mais letal da história com 121 mortos.
A população do Alemão e da Penha tenta retomar a rotina dois dias depois de intensos confrontos entre policiais e criminosos. Ao O DIA, Lúcia Cabral, de 58 anos, conta que o clima continua tenso na manhã desta quinta-feira (30) na região. As famílias buscam se recompor. 
"A comunidade está com o coração pesado, um misto de silêncio, revolta e luto. As pessoas saem às ruas, mas com atenção redobrada. A sensação é de suspensão, como se qualquer movimento pudesse trazer de volta aquele cenário de medo. Ficou não só a marca da violência, mas um abalo emocional coletivo. Não dá para dizer que a vida voltou ao normal. Ainda assim, permanecemos. Não por resignação, mas por amor ao território e pela certeza de que a favela merece viver e não apenas sobreviver", destaca.
Lúcia, que cresceu no Alemão e atua em projetos sociais, lamenta a violência que o complexo viveu essa semana. Para a moradora, há um sentimento de medo recorrente devido às operações, que trata a favela "como campo inimigo".
"Presenciar mais uma operação desse tamanho e com esse nível de violência é devastador. Não estamos falando apenas de números, mas de vidas, famílias destruídas e de sonhos interrompidos. Queremos paz, viver, estudar, trabalhar e criar nossos filhos com dignidade. O nosso luto é diário. Não é apenas medo. A insegurança existe, claro, mas a palavra que carrego é cansaço, dor, indignação e também resistência. Mesmo diante de tudo, seguimos criando caminhos de cuidado, solidariedade e esperança", conta.
Rayara Gabriele, de 24 anos, também moradora do Alemão, trata toda a situação como uma "guerra que não está nem no começo e nem no fim". A jovem ressalta a necessidade de investimentos no setor de educação para que jovens moradores não integrem à criminalidade.
"Acredito que mais oportunidades dentro da comunidade seria pauta plausível nesse momento. Mais escolas e mais vagas de emprego. Essa mudança não depende só de nós moradores. É lamentável e muito doloroso ver todas essas famílias sofrerem essas perdas, por mais erradas que tenham sido as escolhas. Ali há mães, pais, irmãos e esposas. Lamento pelas vidas que se foram e não tiveram oportunidade de um recomeço, de uma mudança. A favela não tem só bandido, tem essência, potência e gente do bem. Tem trabalhadores que acordam cedo, que seguem atrás dos seus sonhos. É muito difícil ver que cada pedacinho que foi construído com carinho tenha se tornado uma parede de marcas que serão lembradas pela vida toda", lamenta.
Segundo a moradora, o clima segue apreensivo na região. "A favela está tentando se recuperar, ajeitar o que foi destruído e tentando se manter firme nesse momento. Não posso negar que está um clima sombrio". 
Thainã de Medeiros, de 42 anos, nascido e criado no Complexo da Penha, lembra que ficou surpreso ao ver o número de mortes oficiais da operação. Segundo o balanço do Governo do Rio, 121 pessoas morreram, com 117 sendo suspeitos e quatro policiais. Mais de 60 corpos foram retirados da área de mata da Vacaria, na Serra da Misericórdia, que liga a Penha ao Alemão.
"É um número surrealmente grande. Quando acordei no dia dessa tragédia, olhei o celular e tinha o número oficial de 2,5 mil policiais indo para lá. Já sabia que seria uma tragédia. Estipulei umas 30 pessoas mortas. Nem na previsão mais pessimista eu ia imaginar que chegaria a 120. Tenho certeza que, com a cidade inteira parando e com esse número todo de mortos, não têm um cidadão que se sinta protegido", diz.
De acordo com Thainã, membro fundador do Instituto Papo Reto, que luta pelos direitos da população de favelas, operações como a de terça não resolvem a criminalidade. O ativista comparou essa ação com a ocupação do Alemão em 2010, citando que os problemas continuam ocorrendo desde então.
"Pessoas não foram presas, muitas foram mortas, teve a migração e outras favelas se tornaram violentas. O que vai acontecer agora é a mesma coisa. O problema não se soluciona matando essas pessoas. Não é esse o caminho. Se a gente quer de fato resolver o problema, é a longo prazo com educação, esporte, saúde e cultura, levando dignidade a esses territórios ocupados por essas forças criminosas. Moradores estão com muito medo, o pessoal está exausto. As pessoas estão com o psicológico tão abalado que se esqueceram de itens básicos. Agora, estão tentando retomar a vida", finaliza.
"Enxuga gelo"
Para o jornalista Renê Silva, a criminalidade continuará se renovando, mesmo com operações policiais que resultam em grande quantidade de mortos. O ativista, que é morador do Alemão, destaca que a história fica se repetindo ano após ano.
"É uma operação que, infelizmente, acaba 'enxugando gelo'. A sociedade aplaude, diz que está acabando com o crime organizado, mas a gente sabe que a realidade não é essa. A gente não vê nada de efetivo acontecendo dentro do território. O governador disse que são 117 criminosos, mas muitos deles serão substituídos daqui a 24h e 48h. A gente teve uma oportunidade valiosa de mudar e transformar essa realidade, mostrar um grande sucesso 15 anos após a ocupação do Alemão, mas estamos mostrando a história se repetindo. Só muda os atores: governadores, políticos, traficantes", afirma.
Segundo Renê, é necessário que haja um investimento na arte, cultura e educação. Com essa transformação social, seria possível mudar a realidade da comunidade.
"Muitos jovens não terminam o ensino médio, não tem oportunidade em qualificações técnicas. Quando você anda pela favela, você vê que não tem essas oportunidades aqui. O que estamos fazendo para formar esses jovens? Na minha percepção, só a atuação da polícia não adianta", complementa.
Devido à operação, as escolas dos Complexos do Alemão e da Penha seguem com as aulas presenciais suspensas. A Secretaria Municipal de Educação informou (SME) que as unidades segue o protocolo Acesso Mais Seguro, desenvolvido em parceria com a Cruz Vermelha Internacional.