Operação pretende desarticular principal núcleo armado, logístico e financeiro do CVÉrica Martin/Agência O Dia

Rio - A Polícia Civil prendeu 13 criminosos do principal núcleo armado, logístico e financeiro do Comando Vermelho (CV), na comunidade Az de Ouro, em Anchieta, Zona Norte. Nesta sexta-feira (12), a Delegacia de Roubos e Furtos (DRF) e a 14ª DP (Leblon) pretendiam cumprir 36 mandados de prisão e 72 de busca e apreensão no bairro e em Nilópolis e Mesquita, na Baixada Fluminense. As investigações da "Operação Trunfo Final" levaram cerca de um ano. 
Além da distrital e da especializada, a ação teve apoio do Departamento-Geral de Polícia Especializada (DGPE) e do Departamento-Geral de Polícia da Capital (DGPC). "O crime organizado tem toda uma hierarquização e uma evolução sabida por todos. A Polícia Civil atua exatamente nessa frente desse combate, fazendo as alianças entre as unidades e departamentos, para poder acabar com essa fronteira e minimizar qualquer dano para a sociedade", disse a delegada titular da 14ª DP, Thaianne Moraes, em coletiva na Cidade da Polícia, no Jacaré, Zona Norte.
O principal alvo dos policiais civis era Rafael Silva Titara, conhecido como "Galo", apontado como chefe da quadrilha, que acabou não encontrado. Um dos mandados de prisão foi cumprido dentro do Hospital Municipal Albert Schwetizer, em Realengo, Zona Oeste, onde um criminoso estava internado por conta de um acidente, e ele segue sob custódia na unidade. Três alvos da operação já haviam morrido, dois deles em operações da Polícia Militar e o outro em um acidente. 
A investigação identificou 36 criminosos, entre eles membros da "Tropa do Cesar", que porta armas, intimida moradores, organiza ataques e garante o domínio territorial da região. De acordo com o delegado titular da DRF, Thiago Neves, os integrantes do grupo se identificavam por meio de codinomes, o que ajudou "Galo" a se manter longe do alvo da polícia e sem mandados de prisão ou anotações criminais. O bandido chegou a viajar para fora do país por cerca de 15 dias neste ano. 
"Ele passava incólume até então, sem nenhum mandado de prisão, e isso resultou até na possibilidade dele efetuar uma viagem para Paris em junho desse ano. Ele era intitulado como "Galo", todo mundo colocava como "Tropa do Galo", e o homem abaixo dele era o Cesar, uma figurinha que a gente até então não tinha identificado, mas hoje com os mandados de busca e apreensão conseguimos identificá-lo e iremos solicitar a prisão dele, também".
As delegacias mapearam toda a estrutura criminosa que controlava a área do Az de Ouro e identificou os membros da quadrilha e as funções específicas, como líderes operacionais, gerentes do tráfico, distribuidores de armas e responsáveis pela arrecadação e movimentação financeira. Segundo o delegado, um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) solicitado pelas investigações demonstrou "movimentações extremamentes atípicas" de pessoas ligadas ao setor de finanças do grupo.
"Foi identificado um núcleo financeiro, que era responsável pelo envio de dinheiro para regiões fronteiriças e a compra de drogas. Um núcleo era responsável pelo roubo de veículos, inclusive hoje foram apreendidas diversas peças de veículos roubados. E um núcleo responsável pela guerra, hoje o Comando Vermelho consegue desmobilizar e mobilizar em outras comunidades que estão em guerra e são da mesma facção, para apoio operacional em qualquer local da cidade do Rio de Janeiro", afirmou o delegado. 
Ainda de acordo coma as investigações das delegacias, o CV mantinha na comunidade um dos seus principais braços armados e as equipes comprovaram que o núcleo financeiro da quadrilha realizava diversas transferências e movimentações financeiras para sustentar o tráfico local, abastecer o arsenal de guerra e financiar as atividades ilícitas. O grupo ainda contava com um "núcleo de marketing". 
"Tinha também um núcleo de marketing, que foi decretada a prisão de um associado que se autointulava "DJ", chamado Derek. Ele compunha músicas de apologia à facção, integrava ativamente interior da comunidade, participando das negociações e fazia toda a estratégia de marketing em bailes e na lógica expansionista da facção", pontuou Neves. 
A quadrilha ainda atuava como "tribunal do tráfico" e as investigações descobriram que um morador do Az de Ouro foi morto e esquartejado, porque os criminosos desconfiaram que ele colaborava com a polícia. "Nós temos diversos vídeos da liderança do Comando Vermelho, Doca, Gadernal, BMW, amarrando moradores e passeando na comunidade com correntes até a morte. Isso é um Norte das lideranças dessa facção. O que acontece nesse tribunal nessa comunidade (Az de Ouro), acontece em dezenas de comunidades dominadas do Comando Vermelho", detalhou o diretor da DGPE, delegado André Neves. 
A diretora do DGPC, delegada Raissa Celles, lembrou que na última terça-feira (9), uma ação da Polícia Civil na região interceptou um veículo com cinco criminosos que tinham saído para invadir uma comunidade rival. Na ocasião, um bandido morreu e quatro foram presos. Com eles, haviam dois fuzis, um com a inscrição "Az de Ouro". "Quando a gente entra nessas comunidades, nosso objetivo é proteger a sociedade e liberar as pessoas de bem do jugo desses criminosos que só querem explorar a população, através de serviços, e manter o seu domínio territorial e sanguinário". 
A "Operação Trunfo Final" recebeu esse nome em referência direta ao ás de ouros, carta que simboliza poder, supremacia e domínio, forma que a facção se via dentro da comunidade. De acordo com a Polícia Civil, a ação reforça a metáfora de que, no tabuleiro do crime, nenhum "ás" é maior que o trunfo, representado pela ação coordenada e estratégica das forças de segurança. 
*Colaborou Érica Martin