Treinamento presencial da pesquisa aconteceu neste sábado (10)Divulgação
Iniciativa capacita moradores de favelas do Rio para reduzir impactos do calor extremo
Colaboradores vão aplicar diferentes metodologias, como entrevistas com vizinhos, medições de temperatura dentro das residências e registros das rotinas nesse verão
Rio - Enquanto os termômetros oficiais registram recordes de temperatura, pouco se sabe sobre como esse calor é vivenciado dentro das casas nas comunidades. O projeto "Mapeando as vulnerabilidades ao calor e cotidiano nas favelas do Rio de Janeiro" coloca os próprios moradores dessas regiões no centro da produção de conhecimento, aplicando diferentes metodologias para investigar os impactos no dia a dia.
O processo de capacitação começou no último sábado (10), após integrantes das comunidades da Babilônia e Chapéu Mangueira, no Leme, Zona Sul do Rio, participarem de um treinamento presencial com os pesquisadores.
A formação preparou oito colaboradores para aplicar diferentes técnicas, como entrevistas com vizinhos, medições da temperatura dentro das residências e registros dos efeitos do calor no corpo, na rotina e na saúde. O acompanhamento será feito ao longo de duas semanas do verão, por meio da elaboração de "diários de calor".
Além disso, foram instalados medidores de temperatura e umidade relativa em algumas casas para monitorar as condições de desconforto térmico durante esse período.
O estudo tem como base o conceito de pobreza de resfriamento (cooling poverty), que se refere à incapacidade de pessoas ou comunidades acessarem soluções de resfriamento sustentáveis, eficientes e acessíveis, como ar condicionado ou ventilação adequada, para manter a saúde e o bem-estar em temperaturas elevadas.
"A dificuldade que as comunidades enfrentam é um pouco maior porque o fornecimento das empresas não têm a mesma agilidade do que no asfalto. Muitas vezes a gente fica sem água, sem energia e demora mais para o serviço ser restabelecido. A sensação térmica é algo que a gente sente com mais intensidade, aquela sensação de ficar fatigado, de ficar cansado, e de muitas vezes perder as suas coisas por conta da falta dos serviços básicos", relatou Monique Rocha da Associação de Moradores da Babilônia e do Chapéu Mangueira.
O projeto é uma parceria entre a ONG Revolusolar, a Universidade de Utrecht (Holanda), a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Unilasalle. A iniciativa busca também encontrar estratégias para mitigar o problema e alertar o poder público que pode, com isso, melhorar o protocolo de calor.
"O projeto vai gerar para os moradores das comunidades uma maior conscientização de que o problema do calor não é simplesmente o aumento da temperatura do planeta ou as mudanças climáticas, existe sim, um componente social. Além disso, ele vai nos permitir subsidiar políticas públicas mais aprimoradas para enxergar que existem núcleos mais quentes e mais desfavoráveis a essas ondas de calor e que uma população é mais afetada por esses extremos de temperatura", comentou Eduardo Bulhões, geógrafo da Universidade Federal Fluminense (UFF).
A diretora de projetos da ONG Revolusolar, Cecília Pestana, também falou sobre a importância da iniciativa.
"É fundamental que os moradores possam contar sua história e falar por eles mesmos. Através da geração cidadã de dados, será possível tangibilizar o tamanho do impacto das ondas de calor na vida dos moradores das favelas da Babilônia e Chapéu Mangueira e de outras favelas."
A pesquisa começou em julho de 2025 e ganhou ainda mais relevância diante de eventos recentes, como o apagão entre 3 e 6 de janeiro 2026, que deixou moradores do Leme, incluindo Chapéu Mangueira e Babilônia, mais de 36 horas sem energia elétrica e com falta de água, evidenciando como crises climáticas e falhas de infraestrutura afetam de forma desigual diferentes territórios da cidade.
"Nos últimos anos o calor extremo tem se tornado também uma presença brutal no cotidiano de todos, e ainda mais marcantes em territórios que são caracterizados por infraestruturas mais precárias, com casas sem ventilação adequada, acesso instável à água, interrupção de energia, entre outros desafios", explicou Francesca Pilo, coordenadora do projeto e professora de Planejamento Urbano da Universidade de Utrecht (Holanda).
A pesquisa é financiada pela Organização Holandesa para a Pesquisa Científica (NWO), e coordenada por Francesca Pilo, em parceria com a Revolusolar. A ação também conta com a colaboração de Diego Caetano, arquiteto do Centro Universitário La Salle (Unilasalle) e especialista em conforto térmico em habitações populares, além de Eduardo Bulhões, que contribui na análise dos microclimas locais e na comparação com dados de estações meteorológicas oficiais.
*Reportagem de Rodrigo Bresani, sob supervisão de Iuri Corsini





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