Movimento durante reabertura do shopping Tijuca na manhã desta sexta-feira (16)Érica martin/Agência O Dia
Durante o retorno das atividades, o público foi chegando aos poucos, com ar de curiosidade. Na entrada lateral, a fachada conta com os nomes do chefe de segurança Anderson Aguiar, 43, e da brigadista Emellyn Silvia Aguiar Menezes, 26, mortos no incidente. Em homenagem, bombeiros civis, seguranças e demais funcionários trabalham com um laço preto e um broche com os nomes das vítimas.
Para o lojista João Paulo, 38 anos, dono de uma das franquias da Subway, a ideia agora é retomar as vendas e a confiança dos clientes.
"É difícil, mas vamos retomar aos poucos, vamos trabalhar para poder retomar a confiança dos clientes novamente. Nós perdemos estoque, dias trabalhados, tivemos alguns equipamentos danificados, mas aqui em cima, no terceiro piso, não atingiu muito, não. O problema todo são mais as lojas inferiores. Este mês de janeiro costuma ser o segundo melhor do ano. E agora já estamos na segunda quinzena, então é tentar recuperar o prejuízo", disse.
Enquanto os vendedores limpavam os produtos, a gerente de um quiosque de eletrônicos, Bianca Ramos, 28 anos, relatou estar receosa com a reabertura.
"Prejuízo em si a gente não teve. Tivemos mais sujeira por conta do fogo, porque no dia do que aconteceu conseguimos fechar e retirar algumas coisas. Mas a retomada está meio assim, meio assustadora. Porque ainda não estamos confiantes 100% para poder ficar. A gente vê que tem várias lojas fechadas. Para nós, o shopping em si não está 100%, mas temos que trabalhar", disse.
Bianca comentou também que a equipe ficou sem comissão por conta do fechamento. "Prejudicou bastante financeiramente, porque não temos nem meta para poder receber a comissão. Janeiro é o mês em que começamos a dar um passo bom, porque já pegamos um dezembro bom, e fevereiro é o mês em que o Carnaval mexe pouco com a gente", relatou
Frequentadores do local, a aposentada Fátima Reis, 67 anos, contou que ficou feliz com a retomada, mas que sente muito pelos que morreram. Ela e o marido moram na região há mais de 40 anos.
"Frequentamos o shopping sempre, todos os dias. Nós ficamos tristes quando soubemos do incêndio porque nós somos frequentadores ácidos. E até neste período de calor, nós íamos na academia e depois nós adentramos no shopping para poder refrescar um pouquinho e tomar um cafezinho também", afirmou.
Fátima comentou se sentir segura no local. Para ela, é questão de tempo voltar à normalidade total. "O cheiro de fumaça é normal. Afinal, incêndio é incêndio. A abertura vai ser mais lenta. Devido à limpeza das lojas também. Porque às vezes tem alimentos, tem roupas, então isso tudo é mais lento, mas de qualquer maneira, nós viemos aqui", disse.
A aposentada Fátima Rocha, 69 anos, informou que voltou ao shopping com o marido a fim de retomar a rotina. “Nós estamos achando que o cheiro ainda está forte. Nós moramos no Grajaú, a notícia desse incêndio foi como uma espécie de tragédia para nós, pelos dois que faleceram e por tudo. Mas a gente veio aqui hoje para retomar um pouco da rotina das sextas-feiras”, afirmou.
Cheiro de fumaça e uso de máscara
Grande parte dos trabalhadores das lojas do primeiro piso usavam máscara devido ao leve cheiro de fumaça. No interior do centro comercial, o odor se misturava com o de essência perfumada, mas era mais forte próximo ao subsolo e à entrada da Avenida Maracanã.
De máscara, a vendedora Karen Vieira, 28 anos, narrou que a retomada ao trabalho será um pouco difícil. "O cheiro está forte, aí misturaram uma essência também pra amenizar, mas dá pra sentir os dois cheiros misturados. Vai ser um pouco difícil trabalhar, dar dor de cabeça, mas acaba que acostuma porque a gente precisa trabalhar", disse.
Durante a interdição, Karen explicou que sua equipe precisou ser remanejada para outras lojas.
"A equipe foi espalhada para as outras lojas porque aqui tinha essa possibilidade, mas existem outras empresas que não têm, que a loja é única, e aí o prejuízo foi ainda maior. Janeiro costuma ser um mês bom, apesar das trocas, mas já perdemos metade dele. Então, vamos tentar correr atrás", afirmou
Ainda no shopping, o humorista Gui Albuquerque, que retrata o cotidiano dos tijucanos falou sobre a importância do empreendimento no bairro.
"Eu acho isso um marco histórico, reaver esse território para o tijucano. Agora a gente espera que seja com segurança, mas é muito importante não só para os lojistas, mas para pessoas que vivem daqui, como para todo o entorno, para toda a cidade. Ter um espaço comercial como esse, onde a gente possa vir com a nossa família, os nossos amigos, a gente almoça aqui, a gente vive esse cotidiano. Então, ele fez falta", disse.
Morador do bairro, o humorista também relatou as consequências do incêndio para a vizinhança. "Como eu sou vizinho aqui do shopping, eu sofri um pouco as consequências. Esse cheiro que a gente ainda sente aqui um pouquinho, eu senti por quatro, cinco dias seguidos da minha janela, porque algo que foi muito pouco falado nesses episódios todos, foi sobre o entorno, o Shopping pegou fogo, mas a Avenida Maracanã ficou fechada há dois, três dias, um cheiro de fumaça muito grande, fuligem na nossa casa, então a gente sofreu um pouco também essa rebarba", explicou.
Por fim, Gui questionou se é saudável os funcionários conviveram com o cheiro de fumaça, ainda que levemente.
"Na minha calçada a gente ainda sente um pouco e aí a gente se pergunta se é saudável ficar aqui dentro horas e horas, uma coisa, é uma passadinha. Eu já vou embora, mas e a galera que fica aqui 6h, 8h ou mais de 10h. É seguro?", questiona.
Medo e insegurança
Na entrada do shopping, a cabeleireira Vera Soares, 49 anos, relatou não se sentir segura para voltar ao trabalho. Ela conta que tinha acabado de atravessar a rua quando o incêndio começou no último dia 2.
"Esse é o primeiro dia que nós estamos voltando e eu estou com muito medo, porque desde o momento que não vai ter uma reabertura completa, eu acho que é porque não há uma segurança completa. Eu acredito que tinha que esperar mais", relatou.
Vera contou ainda que o centro comercial vinha apresentando picos de energia dias antes do incêndio. "O Shopping tinha pico de luz todos os dias. Um dia mesmo antes do incêndio, na nossa loja, desarmou o relógio por duas vezes na parte da manhã, abrimos sem energia. O pessoal do Shopping veio e foi lá, ligou e ficou tudo certo. Ainda tem uma obra que estão fazendo aí pra cima de alguma coisa, que também deixa a gente bem preocupada", acrescentou.
A cabeleireira também teve que se readaptar enquanto o shopping estava fechado. "Eu tive que ir pra uma outra empresa pra trabalhar, um salão, pra poder estar suprindo minhas necessidades. Inclusive, no outro shopping que é aqui próximo, que eu estou fazendo um freelancer, há muitos clientes daqui que falam que não vão mais retornar", frisou.
Mãe e filha, Ana Beatriz Garcia, 55 anos, e Mariana Garcia, 29, ainda estão abaladas com a morte dos funcionários.
"Eu vou te falar, eu não consegui nem andar pra lá, que eu comecei a ter crise de ansiedade, e não é nem pelo cheiro, mas pelo o que aconteceu. Não é nem insegurança, é tristeza, da situação como o shopping ficou", contou Mariana.
"O shopping Tijuca, pra gente que é Tijucano, é uma referência. Depois que aconteceu, a Tijuca ficou meio de luto mesmo. Mexeu com o bairro. Eu moro aqui do lado, sempre venho, e a gente tá com pena, muita pena mesmo, com toda essa destruição, as lojas recomeçando, porque tem que recomeçar…", lamentou Ana Beatriz.
Antes mesmo da reabertura, que começou às 10h, o centro comercial que trabalha com laboratório, médicos e outras especialidades já estava aberto. Assim como a academia, que também reabriu.
Movimento ao redor
O Shopping também movimenta todo o comércio do entorno. O dono de uma banca bem em frente ao empreendimento, Gilcinei de Souza Alves, 73 anos, chegou a fechar por quase quatro dias e sentiu um enorme prejuízo no bolso.
"Os fregueses são os funcionários, os lojistas, os clientes, que vêm e compram aqui Eles vêm tomar água, comprasse água, biscoito, cigarro, as coisas que a gente vende. Ficamos fechados uns três ou quatro dias e depois as vendas caíram muito, estou pagando as contas pendentes, porque eu não tive dinheiro pra pagar. Porque a gente fazia férias e pagava no dia seguinte os boletos, mas aí estou alguns pendentes, foi um prejuízo muito grande não só pra mim, mas para todas as lojas em volta. E agora a expectativa é tentar correr atrás desse, ver se a gente recupera esses problemas", afirmou.
Na porta do shopping, o motoboy Rodrigo Rezende, 40 anos, explicou que o movimento caiu durante o período de fechamento.
"Eu faço a rota Tijuca, a gente trabalha no rio todo, e esse shopping geralmente dá muita entrega. E nesse tempo quase não teve entrega para essa banda daqui. Eu pelo menos não vim, estou vindo hoje. Vamos ver se vai voltar ao movimento normal, a ideia é essa", frisou.
O pipoqueiro Matheus Fernandes, 25 anos, costuma trabalhar em frente ao centro comercial, mas precisou mudar de ponto durante a interdição devido ao pouco movimento.
"Eu trabalho aqui no dia a dia e quando o shopping ficou fechado eu fui lá pra frente, porém o movimento ficou bem fraco. O shopping que faz a região girar. Em janeiro, o movimento já costuma ser um pouquinho mais fraco, mas não igual ficou por conta do fechamento", explicou.
























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