Muitos colegas de profissão estiveram no enterro do entregador em InhaúmaÉrica Martin/Agência O Dia
‘A gente sai e não sabe se volta’, lamenta entregador em enterro de colega em Irajá
Marcelo Julio da Silva tentou fugir de tentativa de assalto a pé quando foi morto por dois criminosos
Rio – O entregador de pizzas Marcelo Julio da Silva, de 52 anos, assassinado em tentativa de assalto em Irajá, na Zona Norte, na quarta-feira (21), foi enterrado nesta sexta (23), no Cemitério de Inhaúma. Parentes e colegas de profissão compareceram à cerimônia e lamentaram a violência que vitimou o profissional após sua última entrega naquele dia.
O motoboy Jovan Nascimento, que conhecia Marcelo das entregas no dia a dia, conversou com o DIA e destacou a rotina de medo da classe pelas ruas do Rio: “A realidade que a gente vive hoje é essa: sai e não sabe se volta. O Marcelo estava trabalhando, levando comida para outras pessoas, mas em busca do seu próprio pão também. E infelizmente virou estatística”.
O também motoboy Thiago Santana acrescentou: "O que aconteceu com o Marcelo é reflexo do que vem acontecendo com a gente, cada vez mais. É motoboy sendo assassinado covardemente na pista, sendo roubado, esculachado por esses bandidos que estão fazendo o que querem”.
Imagens de câmeras de segurança da região onde Marcelo morreu mostram o momento em que ele sai de um prédio, na Rua Manuel de Araújo, após realizar uma entrega, e sobe em sua motocicleta. Na sequência, o entregador é abordado por dois homens armados, também a bordo de uma moto. Desesperada, a vítima joga a bolsa de entregas no chão e tenta fugir a pé, mas é baleada nas costas poucos metros depois.
Thiago recordou já ter passado por uma tentativa de assalto, inclusive, apresentando uma reação semelhante, porém, com desfecho diferente: “No desespero, preferi passar o risco. Não aconselho a ninguém, mas fugi com minha moto. Deram tiro para cima de mim, mas saí ileso”.
Jovan também foi alvo de assaltantes durante uma jornada de trabalho. “Levaram moto, celular. Aconteceu o mesmo que com o Marcelo, a diferença é que eu não tive reação”, pontuou.
Thiago ainda chamou atenção para as consequências que a violência diária deixa nos entregadores: "Tem amigo meu que já foi assaltado, conseguiu recuperar a moto com o maior sacrifício, mas não consegue tirá-la de casa para trabalhar porque ficou traumatizado".
Sensação de insegurança
Os dois motoboys também reclamaram da ausência de policiamento pelas ruas do Rio, algo que ocorre na maioria das vezes, segundo eles, em blitz para averiguação de motos. “Quando a gente vê operações na rua, é só para apreender moto de trabalhador. Estamos fazendo nosso trabalho nas ruas, no sol, na chuva, no frio. Para garantir nosso sustento, só queremos o mínimo, que é segurança”, pediu Thiago.
“Na rua a gente não vê policiamento, quando vê é para levar nosso veículo, para rebocar”, complementou Jovan, salientando o caráter do colega: “Com 52 anos, ele era um exemplo para a garotada de que o crime não compensa, que dá para trabalhar e ganhar o próprio sustento”.
No dia seguinte ao crime, Claudio Julio da Silva, de 56 anos, irmão da vítima, falou com o DIA e também ressaltou a dedicação de Marcelo ao trabalho. Ele ainda afirmou que o entregador era muito querido pela família.
“Ele era adorado por todo mundo. Foi uma fatalidade. Fiquei sabendo da morte dele quando estava saindo do trabalho, por volta das 23h. O Marcelo tratava meus netos como filhos, era trabalhador e estava juntando dinheiro para comprar um táxi. Da noite para o dia, cortaram o sonho dele”.
A morte de Marcelo é investigada pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC). A Polícia Civil informou que, após perícia no local, os agentes apuram a autoria do crime.
*Colaborou Érica Martin







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