Evandra Damasceno teve câncer, usou peruca e agora foi doar para outras pessoasDivulgação

"Ganhei uma peruca durante o tratamento do câncer e recuperei a minha identidade e a minha autoestima". A declaração de Evandra Damasceno, 51 anos, resume o impacto positivo que uma peruca pode representar para uma paciente que faz tratamento contra o câncer. Evandra foi beneficiada por doação de peruca por meio do projeto 'Fios da Alegria”, desenvolvido pelo Núcleo de Educação Permanente do Hospital Estadual Getúlio Vargas (HEGV), na Penha, Zona Norte do Rio.

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O Hospital Getúlio Vargas faz de tudo para que a paciente se sinta bem Divulgação Ascom/SES-RJ
A Associação Laços de Amor, de Volta Redonda, confecciona as perucas Divulgação / Ascom /SES-RJ
Evandra Damasceno teve câncer, usou peruca e agora foi doar para outras pessoas Divulgação
Claudiane Galdino cortou os cabelos para doar a sua enteada e amiga, de 4 aninhos Divulgação
"O projeto é de grande importância para mulheres que perdem os cabelos com o tratamento. Muitas não se reconhecem mais, perdem a identidade e, com as perucas, voltam a se reconhecer. A melhora da autoestima também contribui para o tratamento. A mulher se sente mais segura, empoderada", avalia Flavia Nobre, diretora-técnica do HEGV.

Idealizada pelo coordenador do Núcleo de Educação Permanente do HEGV, Márnio Rodrigues de Mesquita, a iniciativa consiste em arrecadar mechas de cabelo para confecção de perucas, em parceria com a Associação Laços de Amor, de Volta Redonda (encarregada de confeccionar as perucas). Podem doar funcionárias do hospital, pacientes e familiares, além de moradores das comunidades do entorno da unidade. São aceitas também doações de quem leva os cabelos já cortados até o hospital.

Para doar, basta procurar o Núcleo de Educação Permanente ou Centro de Estudos de Aperfeiçoamento do HEGV. Os cortes são agendados, em geral, para as sextas-feiras, e são feitos pelo próprio coordenador, que é formado em enfermagem e já trabalhou como cabeleireiro, em 2017. Desde 2022, quando o projeto começou, já foram recolhidas um total de 118 mechas (30 em 2022; 60, em 2023; 12, em 2024; e 16 em 2025).

Vida retomada com a peruca
Copeira do hospital, Evandra Damasceno tratou um câncer raro no seio com quimioterapia. Na segunda aplicação, uma semana antes do aniversário de 50 anos, em março de 2024, cabelos, cílios e sobrancelhas começaram a cair. Tudo isso jogou sua autoestima no chão, mas a peruca fez a situação mudar. "Eu tinha cabelo muito preto e comprido, quase na cintura. Quando começou a cair, mexeu muito com o meu psicológico. As pessoas do hospital me deram suporte e me indicaram o projeto das perucas. Recebi uma com os cabelos muito parecidos com os meus, bem compridos também. Ganhei a peruca e recuperei a minha autoestima", relata.

Além da peruca que recebeu do projeto “Fios da Alegria”, Evandra ganhou outras duas de sua irmã. Uma delas nem chegou a usar. Ela doou para que outras pessoas pudessem usufruir. "Fui feliz com as perucas e agora quero ver outras pessoas felizes também", disse ao entregar as peças para o Setor de Educação do HEGV.

Doação que transforma
Auxiliar de serviços gerais do HEGV, Claudiane Galdino da Silva, 35 anos, ficou sensibilizada com as situações da enteada de 4 anos e de uma amiga, ambas diagnosticadas com câncer. A menina já está em tratamento no Instituto Nacional do Câncer (INCA). Por conta disso, ela resolveu cortar o cabelo e doar as mechas para o projeto “Fios da Alegria”. Segundo ela, o cabelo levou uns dois anos para atingir o tamanho antes do corte.

"Tive uma sensação muito boa e um grande alívio por saber que vou contribuir para a felicidade de duas pessoas, da minha enteada de 4 anos e de uma amiga, que estão com a doença", afirmou.
As mechas arrecadadas são enviadas para a Associação Laços de Amor, de Volta Redonda, que atua há 12 anos voluntariamente na fabricação de perucas. Presidida por Alessandra Sousa Silva, a entidade foi criada quando conheceu uma adolescente com câncer, que estava careca e usava um gorro de lã.

"Quando perdem os cabelos, elas se acham feias e isso as deixa mais fragilizadas. Com a retomada da autoestima, elas se fortalecem. Já ouvi relatos emocionantes de mulheres ao receberem a peruca: 'Voltei para a vida!'", afirma Alessandra.
Atualmente, 20 costureiras voluntárias se revezam na confecção das perucas doadas a hospitais oncológicos das redes pública e privada, além de ONGs, de estados como Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Bahia. São confeccionadas, em média, 50 perucas por mês, conforme as doações de cabelos e a disponibilidade das voluntárias da associação.

Três mechas fazem uma peruca

Cabeleireira de formação, Alessandra explica que é preciso pelo menos três mechas de, no mínimo, 15 centímetros cada para confeccionar uma peruca. Em geral, são necessárias de duas a três pessoas doando cabelos para conseguir fazer uma peruca. As mechas passam por um processo de lavagem e higienização quando chegam e são separadas por cor, tamanho e textura do cabelo.