Beatriz Moraes por quimioterapia, cirurgias e radioterapiaArquivo Pessoal

Rio - A comemoração pelo fim de um tratamento contra o câncer de mama causou comoção entre frequentadores de um bar da Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste. A farmacêutica Beatriz Moraes, de 41 anos, reuniu familiares e amigos para celebrar a alta após sessões de radioterapia, quando recebeu uma homenagem do cantor que se apresentava. O artista exaltou a força dela e se emocionou ao lembrar da perda de um amigo para a doença.
Em um vídeo compartilhado nas redes sociais, Beatriz aparece cercada de familiares e amigos no bar, quando o cantor Cosminho Calmon faz uma homenagem. "Para você que não tem fé, Deus existe. E a prova viva disso é a Bia hoje curtindo. É a festa da cura da Bia", diz ele, e o discurso é seguido de palmas e gritos de comemoração. Logo depois, ele convida a farmacêutica ao palco e conta que perdeu um amigo que não tratou a doença. "A cura existe, basta acreditar", reforçou o artista. Confira abaixo:



A celebração aconteceu em 17 de janeiro, cerca de um mês depois que Beatriz terminou as sessões de radioterapia. Ela conta que, inicialmente, não pretendia celebrar a alta, mas uma tia a convenceu e os amigos também incentivaram. A farmacêutica só não imaginava que não apenas seu grupo, mas todo o bar comemoraria seu momento de vitória.

"A história de ir ao palco foi totalmente ao acaso. Eu tenho uma prima que é muito especial na minha vida, ela queria que fizessem uma menção a mim. Eles (grupo que se apresentava) foram super bacanas. O cantor me chamou no palco e puxou um couro e aí todo mundo ficou muito emocionado. Já foi no final e eu falei que aquilo foi a cereja do bolo, teve um couro, foi muito emocionante".


'Você tem que ir lá embaixo e voltar para a superfície'

Beatriz diz que notou o endurecimento do seio, mas que acreditou ser causado pela amamentação que havia parado meses antes. Ela fez uma mamografia e uma ultrassonografia, em agosto de 2024, e a segunda não apontou nenhuma alteração. Por conta disso, acabou ignorando o resultado da primeira. No entanto, ela teve uma secreção e decidiu procurar uma mastologista. Após ser submetida a novos exames, foi confirmado o diagnóstico de câncer de mama e o tumor invasivo precisou ser tratado com quimioterapia.

"Foi mais um um caldo que a vida me deu. Nesse momento, você tem que ir lá embaixo e voltar para a superfície", desabafou a farmacêutica. Em agosto de 2025, ela ainda passou por uma mastectomia total do seio direito - cirurgia que remove todo o tecido mamário, incluindo pele, mamilo e aréola -, e outro procedimento para prevenir que o câncer se espalhasse. Em seguida, começou as sessões de radioterapia, até dezembro. Atualmente, ela segue em acompanhamento médico, com medicações para o controle da doença.

Rede de apoio ajudou a enfrentar doença

Beatriz destaca que o apoio que recebeu da família e de amigos foi fundamental para passar pelo tratamento. Ela temia a reação da filha mais velha, de 9 anos, e por isso recorreu à terapia não só para ela mesma, mas também para a menina. A farmacêutica aponta como um dos momento mais marcantes desse período, uma apresentação escolar de Dia das Mães, em que recebeu um desenho seu usando lenço ao lado da criança, já que não conseguia sair de casa sem usar o acessório, após ter raspado os cabelos.

"Eu achei tão genuíno ela saber refletir naquele desenho o momento que eu estava passando e que, naquele momento, eu era mamãe de lenço. Isso me emocionou tanto, me marcou muito”, contou ela, que ressaltou ter recebido muito carinho também do filho mais novo, de 3 anos, do marido e de toda a família. "Você descobre junto com o câncer coisas que não sabia. Você descobre que é muito amada. Eu acho que se refletiu muito durante o meu tratamento, era uma corrente de energia positiva impressionante".

A farmacêutica lembrou de outro momento em que receber amor fez diferença. “Na minha primeira cirurgia, meu quarto estava cheio de gente, todo mundo andava para fazer alguma coisa comigo antes da cirurgia, eu ria e achava graça, porque era uma galera. Aquele momento foi muito marcante em termos de energia positiva, de corrente de amor, porque aquilo me fez muito bem”.

Para Beatriz, conversar com outras pacientes também a ajudou a superar o medo do câncer de mama e, por isso, decidiu compartilhar a rotina de tratamento em suas redes sociais. “Acho que foi muito essa questão de eu ter aprendido e me fortalecido com quem passou por isso. E porque eu achava que podia contribuir de alguma forma para que as pessoas tivessem noção de que o câncer pode ser tratado com leveza, com dia a dia, com realidade”.

Câncer de mama

O câncer de mama é a multiplicação desordenada de células anormais nas mamas, resultando em um tumor maligno que pode invadir outros tecidos e órgãos. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) aponta que é o tipo mais comum entre as mulheres no Brasil e no mundo, embora também possa afetar homens, que representam cerca de 1% dos casos. A doença é caracterizada por sinais como o aparecimento de nódulos, alterações na pele da mama (como a aparência de "casca de laranja") e secreções no mamilo.

A idade é o principal fator de risco e as taxas de incidência aumentam a partir dos 40 anos. No Brasil, a média de idade para o diagnóstico é de 54 anos. O histórico familiar também influencia, aumentando em 5,5% para mulheres com um parente de primeiro grau afetado e em 13,3% para aquelas com dois parentes de primeiro grau diagnosticados. A chefe do serviço de Mastologia do Hospital São Vicente de Paulo e membro da Sociedade Brasileira de Mastologia, Juliana Murteira, explica que não é possível prevenir completamente, mas é possível reduzir fatores de risco mantendo peso adequado e alimentação equilibrada, praticando atividade física regular, evitando consumo excessivo de álcool e cuidando da saúde mental.

"Além disso, é fundamental seguir as recomendações de rastreamento. A Sociedade Brasileira de Mastologia orienta que mulheres a partir dos 40 anos realizem mamografia anual, mesmo que não apresentem nenhum sintoma ou histórico familiar de câncer de mama (...) A informação e o diagnóstico precoce salvam vidas. Estar atenta ao próprio corpo e manter os exames em dia são atitudes essenciais para o cuidado com a saúde da mulher".

Ampliação do diagnóstico

Em 2025, o Ministério da Saúde passou a garantir o acesso a mamografia no Sistema Único de Saúde (SUS) a mulheres de 40 a 49 anos, mesmo sem sinais ou sintomas de câncer. A faixa etária concentra 23% dos casos da doença e a detecção precoce aumenta as chances de cura. "Este é o exame capaz de identificar alterações suspeitas antes mesmo do surgimento de sinais clínicos", aponta a mastologista.

A profissional explica que nem toda alteração significa câncer, mas que toda mudança precisa ser investigada com avaliação clínica e exames. Ela ainda reforçou a importância das mulheres conhecerem seus corpos. “Esse autoconhecimento facilita perceber quando algo está diferente”. Segundo a médica, o diagnóstico em fases iniciais eleva as taxas de cura para mais de 90% e possibilita tratamentos menos agressivos, com melhores resultados estéticos e funcionais.

"Detectar precocemente significa aumentar as chances de cura e reduzir o impacto do tratamento. Muitas mulheres têm medo da dor, da radiação e do próprio diagnóstico de câncer. Devemos ter medo de não encontrar uma lesão inicial que esteja na mama. O diagnóstico precoce transforma o câncer de uma sentença em uma fase tratável da vida".

O Ministério da Saúde também ampliou a faixa etária para o rastreamento ativo, quando a mamografia deve ser solicitada de forma preventiva a cada dois anos, que até então era de 69 anos e passa a ser até os 74. Dados do Ministério apontam que quase 60% dos casos estão concentrados dos 50 aos 74 anos e o envelhecimento é um fator de risco para o câncer de mama