Rio - A Polícia Civil identificou que o Comando Vermelho (CV) funciona em todo o país com uma estrutura organizada com divisão de cargos e um conselho nacional. De acordo com o apurado, Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, atua como presidente e tem cargo vitalício. O traficante, atualmente, está preso na penitenciária federal de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, mas segue com a função de liderança na facção.
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Em coletiva realizada nesta quarta-feira (11) sobre a Operação Contenção Red Legacy, que prendeu sete pessoas - incluindo o vereador Salvino Oliveira -, o delegado Pedro Cassundé, assistente da Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro (Dcoc-LD) explicou que a facção tem um estatuto que auxilia na organização do grupo.
"Tudo que a gente sempre escutou dizer nós conseguimos demonstrar com um conjunto robusto de provas. Principalmente, constatando que a cadeia de comando federalizada utilizava intramuros, alguns operadores como parentes e advogados, para expandir suas determinações até que chegassem às lideranças locais do Rio. A partir disso, identificamos um regime próprio de regras do Comando Vermelho, que eles chamam de estatuto, com conselhos deliberativos, sanções próprias, cargos e funções. Percebemos que trata-se de algo muito mais estruturado. Eles têm um tesoureiro nomeado, um presidente do conselho, vice-presidente e 13 membros", explicou.
Segundo Cassundé, algumas funções, como a de porta-voz, podem ser substituídas caso o responsável seja preso. Contudo, Marcinho VP tem cargo vitalício como presidente do conselho nacional da facção.
O delegado Edson Henrique Damasceno, diretor do Departamento-Geral de Combate à Corrupção, ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro (DGCOR-LD), comentou sobre a comunicação do CV com outra facção, como o Primeiro Comando da Capital (PCC).
"Ficou claro como e com quem se comunicam e as relações com outros faccionados em estados da federação, como com outras organizações criminosas a exemplo do PCC. Um outro ponto que merece destaque é que conseguimos provas contundentes envolvendo vários líderes, inclusive sobre Marcinho VP, que embora preso há tantos anos, ainda consegue exercer a chefia de forma contundente na rua se valendo de familiares próximos", disse.
Outro investigado apontado pela Civil como peça relevante na estrutura é Landerson dos Santos, sobrinho de Marcinho VP. De acordo com a investigação, ele exerce papel de elo entre lideranças da facção, integrantes que atuam em comunidades dominadas pelo Comando Vermelho e pessoas envolvidas em atividades econômicas exploradas pela organização, como serviços, imóveis e outros negócios.
Por meio de nota, a defesa de Márcia classificou as acusações como “infundadas” e disse que elas “carecem de qualquer comprovação concreta”. “É importante destacar que Márcia já foi anteriormente vítima de situação semelhante, quando foi alvo de uma operação marcada por grande exposição midiática e sensacionalista. Na ocasião, após a devida análise dos fatos pela Justiça, ela foi absolvida de todas as acusações. O Ministério Público chegou a recorrer da decisão, mas o recurso não prosperou, sendo mantida a absolvição”.
No posicionamento, a defesa ainda diz que as acusações não têm fundamento e destaca que Márcia é ré primária, servidora concursada, e pode comprovar seu patrimônio. “Mãe que criou todos os filhos sozinha, Márcia sempre se dedicou à família e à sua profissão. Vale ressaltar que nenhum de seus filhos possui qualquer envolvimento com atividades criminosas. Diante disso, a defesa confia plenamente na Justiça e acredita que, assim como ocorreu anteriormente, a verdade dos fatos prevalecerá, restabelecendo a honra e a integridade de Márcia Nepomuceno”, finaliza.
Prisão de policiais militares
Durante as apurações, também foram identificados casos de criminosos que se passavam por policiais militares para obter vantagens ilícitas, incluindo vazamento de informações e simulação de operações. Somente nesta quarta, as equipes prenderam seis PMs.
"Esse inquérito sempre teve finalidade de buscar a liderança, entender como funcionava toda essa cadeia até as ruas. Nós conseguimos políticos, vereadores e policiais envolvidos, além de comprovar que o líder segue o mesmo elemento e que continua passando ordens para a facção. Trata-se de uma investigação complexa, de muitos anos", destacou o delegado Vinicius Miranda de Moraes, titular da Dcoc-LD.
Segundo Moraes, cinco dos agentes presos na operação entraram em acordo com traficantes para fingir uma apreensão.
"Nessa ocorrência, ficou comprovado que eles entraram em contato com o líder da organização criminosa falando que estavam sendo pressionados pelo comando para que fosse apresentada alguma ocorrência. Acordaram uma ocorrência com a organização, que cedeu drogas e um fuzil, deixando em um carro abandonado. Apreenderam e apresentaram em uma delegacia indicando como se tivessem dado um baque na organização", afirmou.
O sexto policial negociava eventos dentro da comunidade. "O acordo seria ele autorizar mediante a não exposição de fuzis e outras armas para não pegar mal para o batalhão ou para ele próprio", finalizou.
Procurada, a Polícia Militar informou que as equipes da Corregedoria Geral acompanham a Polícia Civil no cumprimento dos mandados de prisão temporária e busca e apreensão em desfavor de seis agentes.
A PM destacou que os policiais serão conduzidos para a Cidade da Polícia e, posteriormente, encaminhados à Unidade Prisional da corporação, em Niterói, na Região Metropolitana, onde permanecerão presos.
"O comando da corporação reitera que não compactua com quaisquer desvios de conduta ou com o cometimento de crimes praticados por seus integrantes, punindo com rigor os envolvidos sempre que os fatos forem devidamente constatados", disse em nota.
Prisão de vereador
Ainda nesta quarta, foi preso o vereador Salvino Oliveira. De acordo com o apurado, o homem, que foi secretário de Juventude do governo Eduardo Paes entre 2021 e 2024, teria negociado diretamente com o traficante Edgar Alves de Andrade, o Doca, uma autorização para realizar campanha eleitoral na Gardênia Azul, Zona Sudoeste, área dominada pelo CV.
Em troca, o parlamentar articulou benefícios à facção, apresentados publicamente como ações voltadas à população local. Um dos exemplos investigados envolve a instalação recente de quiosques na região. Conforme o investigação, a definição de parte dos beneficiários teria sido determinada diretamente por traficantes, sem processo público transparente.
A reportagem tenta localizar a defesa do parlamentar. O espaço está aberto para manifestação.
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