Familiares de Andressa estiveram no IML de Tribobó na manhã deste sábadoAna Fernanda Freire/Agência O DIA

Rio - Andressa Nascimento, 35 anos, saiu de casa para comprar água em uma mercearia momentos antes de ser baleada e morta no Conjunto da Marinha, no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, na Região Metropolitana, durante uma operação na tarde de sexta (27). Ao DIA, a família acusa policiais rodoviários federais de serem responsáveis pelos disparos que atingiram a vítima na frente de um dos filhos. A corporação, porém, nega e afirma que tiros partiram de bandidos em área de mata.
Na manhã deste sábado (28), parentes estiveram no Instituto Médico Legal (IML) de Tribobó para realizar a liberação do corpo. O viúvo, Carlos Eduardo Silva, 38 anos, contou que não chegou a ir trabalhar como pedreiro justamente por conta do intenso tiroteio. 
O casal e os cinco filhos ficaram dentro de casa pela manhã, aguardando a situação se acalmar. Em determinado momento, saíram para comprar água em um comércio da região para fazer o almoço, enquanto os filhos permaneceram na residência. Depois, Andressa voltou em casa para buscar as crianças, momento em que acabou baleada.
"Lá (mercadinho), a gente encontrou um casal de amigos e ficamos um pouquinho nesse comércio. Pedimos para o entregador deixar a água na minha residência, e meu filho recebeu. Quando foi por volta das 13h30, o carro da Federal passou e a gente se abrigou, tinha outra viatura na esquina. Nisso, a amiga dela a chamou para ir buscar nossos filhos em casa e ela foi, mas, quando voltou, eles (os policiais) vieram atrás e deram um tiro. A gente pensou que ela tinha se jogado no chão por causa do medo, mas não. Quando chegamos perto, ela já estava com sangue no chão. O nosso filho, o pequenininho, viu", relatou o pai.
Em tom de revolta, o filho mais velho de Andressa, Carlos Victor Silva, 18 anos, acusa a PRF de não ter prestado socorro à mãe.

"Foram me avisar lá em casa e eu nem acreditei. Quando eu cheguei, vi ela jogada no chão como se não fosse nada. A PRF, ao invés de parar para socorrer, foi embora rindo. Eu quero justiça! Tinha ambulância para a polícia, mas não teve para socorrer morador. Eles entram para matar, não entram para proteger. No fim de semana, eu ia passar com ela, agora vou passar com ela no caixão, enterrada. A última vez que vou ver ela vai ser hoje. Como vou explicar para as crianças?", lamentou o filho.
Segundo a família, Andressa atuava como faxineira, auxiliar de cozinha e não negava trabalho. Para a irmã da vítima, Ana Paula do Nascimento, 47 anos, o Estado é o responsável pela morte.

"A gente é morador, a gente não tem lado, nosso lado é acordar às 5h para ir trabalhar. Meu pai ensinou a gente a ser honesto. Não é porque a gente mora em comunidade que a polícia pode entrar atirando. Por que eles não entram na comunidade com educação, com esporte, com saneamento básico? É mais fácil matar a minoria. Deram uma bala na cabeça da minha irmã, que era trabalhadora", disse.

Ana Paula também frisou que a irmã nunca teve envolvimento com nada de errado e que, por isso, a família pretende protestar para pedir justiça.

"Quando falam para a gente fazer um protesto pacífico, mas como? Se o governo do estado entrou na comunidade atirando, deixando o corpo dela lá como se fosse de um cachorro? Detalhe: quando a família foi retirar o corpo, tomou tiro. Você acha mesmo que essa família ia vir botar a cara pela minha irmã se ela não fosse trabalhadora? Como eu falo para o filho dela quem é o vilão da história hoje?", acrescentou.

Os filhos de Andressa, segundo a irmã, estão desnorteados. "O filho chorou sobre o corpo da minha irmã. O mais novo viu a mãe gritando e ficou chorando, pedindo para socorrerem a mãe", afirmou.
Também revoltada com a situação, a miga da vítima, Camila Silva, de 31 anos, relatou que conversou com Andressa momentos antes do ocorrido.

"Ela mandou mensagem dizendo que ia comprar água para fazer comida, era hora do almoço. Era rotina quando ela não saía para trabalhar. Ela corria atrás, tanto ela quanto o marido. Ele só não saiu para trabalhar por causa da operação. Que risco ela oferecia para eles (policiais) com duas crianças? E por que não socorreram?", questionou.

Schan Conceição, primo de Andressa, afirmou que a família precisou agir por conta própria para socorrer a vítima e criticou a atuação dos agentes durante a operação.
"Teve policial baleado e, em questão de segundos, eles chegaram ao hospital. Já a menina, a gente teve que tirar o corpo dela, ou estaria lá até hoje. Eles já entram na comunidade dando tiro às 5h, com pessoas saindo para trabalhar. A operação durou até as 18h e não pegaram um vagabundo. O que fizeram foi covardia. Se fosse eu, com cara de 'tralha', beleza, poderiam até ter me confundido. Agora, uma mulher com filhos? Os caras viram que atingiram a menina. Ao invés de ‘vamos socorrer, ajudar’, não, agiram com maldade. E, quando a gente foi falar com eles, disseram: ‘se virem’", explicou.

Schan também demonstrou preocupação com o futuro da família. "Um jovem de 18 anos vai fazer o quê? O pai, com cinco filhos, vai fazer o quê? Eles acham que a gente é cachorro? Largaram a menina lá como um cachorro. Acho que até de cachorro as pessoas têm pena, mas eles não têm pena de ninguém", finalizou.
O enterro de Andressa será a partir das 16h deste sábado (28) no Cemitério Parque da Paz, no Pacheco, ainda em São Gonçalo. Por volta das 14h, um ônibus com parentes e amigos saíram da comunidade para participar da despedida.
De acordo com a Polícia Civil, o caso é investigado pela Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSG). Diligências estão em andamento para apurar as circunstâncias dos fatos.
O que diz a PRF?
Procurada, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) informou que "tomou conhecimento desta fatalidade e lamenta profundamente".

Em nota, órgão explicou que, até o momento, toda a dinâmica indica que a moradora foi atingida por disparo realizado da mata pelos bandidos que atacavam as equipes policiais que realizavam o resgate de equipe da Polícia Militar presa no local.

"O homicídio deve ser objeto de apuração pela Polícia Civil e a PRF prestará a colaboração necessária à investigação", informou em comunicado.
PM reafirma versão da PRF
De acordo com a Polícia Militar, a operação na comunidade teve início logo de manhã para a retirada de barricadas de vias públicas. No fim da tarde, após informações de que um criminoso estaria ferido nas proximidades do conjunto da Marinha, foi solicitado apoio no veículo blindado da Polícia Rodoviária Federal.
Durante a ação, bandidos atiraram contra os policiais, ocasião em que a mulher acabou atingida no local. Ainda no confronto, três policiais ficaram feridos por estilhaços, no rosto e no braço, e um quarto sofreu uma torção no pé. Após atendimento no Hospital Estadual Alberto Torres (Heat) receberam alta.