Para Carlos Simões não se deve acreditar em tudo que as pessoas dizemDivulgação

"Mentira tem perna curta", "seu nariz vai crescer igual o do Pinóquio", "mente que nem sente", "mente e acredita no que mente. Essas e muitas outras frases você já deve ter ouvido. Afinal, todo mundo já mentiu um dia ou têm mentiras que são aceitáveis porque seriam consideradas "inofensivas"? O fato é que a mentira tem até um dia para chamar de seu e as pessoas acabam brincando ou fazendo troça com os colegas. Quem nunca ouviu o 'caiu primeiro de abril' referindo-se a mentiras bobas ou daquelas que deixam todos estarrecidos, principalmente se não for no dia dedicado a ela.No livro "As Mentiras Que Contam Para Você", o autor Carlos Simões provoca reflexão sobre manipulação, autoengano e as narrativas que moldam decisões pessoais, políticas e financeiras. De acordo com o escritor , "Você pode estar vivendo uma mentira sem saber". Na obra,ele parte de uma afirmação desconfortável: mentir não é exceção. É regra. "Não existe ninguém que não minta. A mentira é uma ferramenta humana tão antiga quanto a linguagem", afirma.
A ideia não é moralizar o tema. Ao contrário: mostra que a mentira atravessa relações afetivas, decisões profissionais, crenças políticas e até a forma como cada pessoa enxerga a própria história. Uma das provocações centrais da obra é o chamado "efeito da ilusão da verdade": quando uma informação é repetida o suficiente, o cérebro tende a aceitá-la como fato, independentemente de sua veracidade. É a base da propaganda, das fake News e de muitas estratégias de manipulação contemporânea. Desde a Grécia Antiga, narrativas foram usadas para influenciar decisões coletivas. O que mudou foi a escala e a velocidade.
Simões também questiona mitos cotidianos: homens mentem mais? Mulheres mentem mais? A resposta é mais incômoda do que estatística. Ambos mentem igualmente, mas por razões diferentes. "Mentimos por poder, por pertencimento, por admiração, por medo de punição ou simplesmente para evitar constrangimento. Não é uma questão de caráter. É uma questão de sobrevivência social. O livro analisa ainda como golpes financeiros e esquemas de pirâmide operam por meio de engenharia emocional sofisticada, transformando vítimas em defensoras do próprio engano, e como a mentira pode evoluir para patologia, no caso da mitomania'', pontua.
Prejudicar para levar vantagem
Segundo o autor, porém, a mentira mais perigosa é aquela usada para prejudicar alguém ou para levar vantagem intencionalmente. "Quando você usa a mentira para causar dano, essa é a pior de todas. Há também a mentira silenciosa: a auto mentira. A auto mentira é aquela que você conta para si mesmo e passa a viver acreditando nela. Às vezes acreditamos em mentiras por conveniência", diz.
Em tempos de polarização e excesso de informação, a obra provoca outra reflexão: por que pessoas inteligentes rejeitam evidências? Muitas vezes, porque narrativas simples oferecem conforto emocional e identidade de grupo. No Dia da Mentira, a mensagem do autor é direta: "Antes de acreditar, investigue. Busque a fonte. Avalie o impacto. Acreditar em outra pessoa pode mudar sua vida. Mais do que um livro sobre mentira, a obra é um convite à responsabilidade individual diante das narrativas que consumimos e que, sem perceber, reproduzimos", finaliza.
Estratégia de autoproteção

Coordenadora das equipes de psicologia dos hospitais São Marcelino Champagnat e Universitário Cajuru, de Curitiba, Ana Laura Brauner, fala que a psicologia compreende o ato de mentir como um comportamento multifatorial, ligado tanto a aspectos individuais como sociais. "Em muitos casos, a mentira surge como um mecanismo de proteção, utilizado para evitar punições, rejeições ou conflitos. Experiências vividas ao longo do desenvolvimento influenciam esse padrão, especialmente em contextos onde a verdade é punida de forma rígida ou há pouca abertura para o diálogo. Nesses casos, a mentira não surge como malícia, mas como uma estratégia de autoproteção diante do medo, da insegurança e da necessidade de evitar sofrimento", explica a especialista.
Ela conta que, ao longo da vida, esses aprendizados podem se consolidar e se repetir nas relações adultas. "Por isso, compreender a origem desse comportamento é essencial para promover mudanças e favorecer formas mais saudáveis e conscientes de se relacionar consigo e com o outro", destaca. De acordo com a profissional, outro ponto importante é a autoestima."Pessoas com inseguranças podem mentir para parecerem mais bem-sucedidas, interessantes ou capazes, como forma de compensar sentimentos internos de inadequação. Além disso, a mentira pode ser utilizada como forma de controle, manipulação ou obtenção de vantagens em determinadas situações".
Brauner acrescenta que a mentira também pode estar relacionada à necessidade de pertencimento, quando o indivíduo distorce a realidade para ser aceito ou para manter uma imagem social desejada. "Nesse sentido, a mentira funciona como uma tentativa de preservar vínculos e evitar julgamentos. Por fim, é importante destacar que a mentira não define, por si só, o caráter de alguém, mas pode indicar dificuldades na forma de lidar com emoções, limites e relações", finaliza.
Algumas mentiras mais contadas no dia a dia
Começo a dieta na segunda-feira (quem nunca??)
Nunca mais vou beber (principalmente se tiver tomado um porre)
Essa é a saideira (que normalmente não acaba)
Chego em 10 minutos (você ainda está se arrumando)
Vamos marcar (coisa bem de carioca)
Claro que eu lembro de você (não se recorda de jeito nenhum)