Mãe da Maya precisou ser amparada por familiares durante velórioReginaldo Pimenta/Agência O DIA

Rio – Emannuelly da Silva Costa, mãe da pequena Maya Costa Cipriano, de 1 ano e 9 meses, morta pelo padrasto em Vila Valqueire, na Zona Oeste, contou que deixou a filha com o companheiro para ir a uma entrevista de emprego no Flamengo, na Zona Sul. Durante o enterro, realizado neste domingo (5), no Cemitério Memorial do Carmo, no Caju, ela afirmou que jamais seria conivente com agressões contra a menina e relatou que chegou a socorrê-la, em desespero, até o hospital.

"Ainda não caiu a ficha. Estou achando que ela está na casa de alguém e ainda vai voltar. Não dá para acreditar que esse monstro tirou a vida da minha filha. Eu estava em uma entrevista de emprego. Assim que cheguei, ele me mandou mensagem pedindo para eu voltar para casa, porque a Maya estava passando mal. Ela estava resfriada, eu estava fazendo lavagem nasal, nebulização, dando remédio, fazendo tudo certinho. Aí ele ficou com ela, mas nunca tinha feito nada. Eu nunca tinha visto nada", explicou.

Emannuelly relatou que chegou a notar algumas manchas estranhas na pele da filha em outras ocasiões, mas que a levou ao hospital para verificar. Ela reforçou que o padrasto, Lukas Pereira do Espírito Santo, nunca se demonstrou agressivo e que cuidava da menina.

"Toda vez que aparecia uma manchinha estranha, eu levava ao hospital ou à UPA. Quando fui ao hospital, disseram que as manchas poderiam ser sintomas de dengue. Ele sempre ficava com ela para mim, porque o pai da minha filha trabalha. Quando fui para a entrevista, falei com ele: ‘Quando ela acordar, você dá o mingau para ela’. Mas, quando ela acordou, ele começou a me mandar mensagens desesperado, enviando foto da barriga dela toda vermelha. Ele bateu na minha filha", acrescentou.

A mãe explicou que saiu de casa por volta das 5h e que tem sido alvo de ataques nas redes sociais, como se fosse culpada.

"Eu fui expulsa de onde morava, mas ele nunca demonstrou nada. Ele pagava as coisas para ela, me ajudava, era minha rede de apoio. Lá não tinha sinal e eu não vi a mensagem, não tinha como sair correndo. Quando consegui ver, já eram 10h. Cheguei em casa por volta de 12h e minha filha estava mole, deitada, e ele com ela. Eu a peguei desacordada, a gente desceu e, no fim da escadaria onde eu moro, havia um mototáxi. Subi com ela e pedi para me levar à UPA mais próxima. Quando cheguei lá, um homem veio correndo, pegou minha filha e a levou para a sala vermelha."

Emannuelly afirmou que só soube das agressões no hospital e que, durante todo o tempo, estava sendo amparada pelo companheiro. Da UPA, a mãe foi à 29ª DP (Madureira) para prestar depoimento. Em seguida, seguiu para o IML e, posteriormente, para a Delegacia de Homicídios da Capital.

"Ela morreu nos meus braços. Eu ainda sentia o coração dela batendo. Eu acho que ele sabia o que estava acontecendo. Em momento nenhum ele demonstrou fraqueza ou tristeza. Ele estava me consolando, como se nada tivesse acontecido, como se não tivesse feito nada. Eu não sabia de nada e está todo mundo caindo para cima de mim, como se eu tivesse com quem deixar minha filha. Ele não demonstrava nada, me ajudava, fazia tudo: dava colo, colocava para dormir, fazia nebulização. Eu o conheço há quatro anos, mas estamos juntos há um", frisou.
Amiga da família, Tatiana Moreira, reforçou a versão da mãe e contou que toda a família está destruída com o ocorrido.
"A mãe da Maya não teve culpa. A mãe da Maya saiu 5 horas da manhã para uma entrevista de emprego no Flamengo. Sabe por quê? Porque ela amava a Maya. O pai da Maya também a amava.A família está toda destruída. Esse demônio, ele não acabou só com a vida da Maya, ele acabou com a vida de uma família inteira", disse.
Tatiana produzia laços de cabelo para a criança e demonstrou revolta. "Eu vi essa criança crescer, eu acompanhei essa criança pelos status, era mensagem, era Instagram. Toda vez o pai mandava mensagem para mim, a mãe: 'Olha, está chegando o aniversário da Maya. Faz isso para a Maya'. Eu fazia com amor. A Maya era vida, era amor, era luz. É inadmissível o que fizeram com ela, isso não pode ficar impune”, afirmou.
Ela ainda descreveu Lukas como uma pessoa fria e manipuladora. "Ele não é um padrasto, ele é um demônio, porque tem muitos padrastos que são melhores do que pais biológicos. Como uma pessoa agride uma criança e deixa essa criança agonizando por quatro horas? Gente, isso não existe! Quatro horas essa pobrezinha ficou agonizando. O que a gente quer é justiça!", reforçou.
Família paterna denuncia agressões anteriores
Letícia da Silva, amiga da avó paterna da criança, afirmou que a família já desconfiava de maus-tratos.

"Foi uma brutalidade. Ele foi muito covarde. A gente só quer justiça, porque o que ele fez não se faz com criança nenhuma. Eu conversava mais com a tia dela, e ela sempre desconfiava dele. A menina já vinha aparecendo com marcas, com alguns roxos. Eles chegaram a tentar conseguir a guarda dela, mas infelizmente não deu tempo", disse.

Letícia contou ainda que Lukas demonstrava ciúmes da relação entre mãe e filha e teria mentido durante o socorro.

"Ele dizia que ela tinha sofrido quedas. O tempo todo afirmava que não tinha feito nada. Foi dissimulado. Também reclamava que a criança atrapalhava o relacionamento deles", relatou.

Paula Cristina, tia de consideração da criança, reforçou que os episódios de hematomas eram recorrentes.

"A Maya chegava na casa da avó com hematomas e eles sempre diziam que era queda. Por isso, a avó já tentava conseguir a guarda. Ele foi dissimulado o tempo todo. Mesmo depois, teve a ousadia de agir com deboche. A gente já sabia que ele era culpado. Queremos justiça pela Maya e que ele aprodeça na cadeia", afirmou.

Paula também descreveu o padrasto como um "monstro". "A Maya era uma criança dócil, muito amada e apegada à família. Ele disse que se irritou e a agrediu, mas é muito fácil tirar a vida de uma criança por causa de irritação", concluiu.
Padrasto preso
Lukas Pereira do Espírito Santo foi preso após apresentar um depoimento contraditório e, no final, confessar as agressões.
De acordo com as investigações da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), em conjunto com equipes da 29ª DP (Madureira), o autor estava sozinho com a vítima e, diante do choro da criança, teria se irritado e a atingido com golpes na região abdominal. O caso aconteceu na última quinta-feira (2).
Logo após as agressões, a menina apresentou quadro grave, sem que o padrasto prestasse imediato socorro, avisando a mãe apenas por meio de mensagem. A criança chegou a ser encaminhada para UPA de Madureira, mas já chegou sem vida à unidade.

Contra o criminoso, foi cumprido um mandado de prisão temporária pelo crime de feminicídio. Segundo a Polícia Civil, as investigações prosseguem para completo esclarecimento dos fatos e eventuais novas responsabilizações criminais.