Policiamento reforçado no Vidigal após tiroteioReginaldo Pimenta/Agência O DIA

Rio – Turistas que ficaram presas no Morro Dois Irmãos, no Vidigal, na Zona Sul, revelaram os momentos de tensão e desespero em meio ao tiroteio durante uma operação na comunidade na manhã desta segunda-feira (20). Apesar do susto, as visitantes contaram terem sido bem orientadas pelos guias locais e que só deixaram a região após o fim dos disparos.
Ao DIA, a paulista Débora Moraes, 28 anos, explicou que começou a ouvir os tiros ainda na trilha, mas que continuou até o topo com medo de se perder no caminho de volta. Ela estava acompanhada de um grupo de amigos.
"Foi a primeira vez que a gente subiu. É nossa primeira vez turistando no Rio. E aí a gente veio um pouco atrasado, começamos era umas 5h e pouca, quase 6h. Depois de uns dez minutos que a gente começou a subir, pegou o ritmo, começamos já a escutar uns tiros. Aí foi aumentando, conforme a gente foi subindo. Eram vários, uns seguidos do outro, teve também o helicóptero voando muito perto. Teve momentos que ele voou, por cima da nossa cabeça", disse.
Débora frisou que sentiu muito medo durante o trajeto. "Eu fiquei com medo da gente ser confundido. Eu, pessoalmente, fiquei com muito medo. Honestamente, acho que fomos os últimos a subir, encontramos até dois rapazes gringos no meio do caminho, mas isso já era quase lá no topo, e aí não tinha mais ninguém atrás da gente. Quando a gente chegou lá no topo, o pessoal ficou perguntando: Como vocês subiram? O que aconteceu? E a gente meio anestesiado assim, meio em choque, tipo, a gente só subiu, não tinha outra forma, ou descia, ou subia, então subimos, que aí pelo menos a gente sabia onde estava indo, né?", narrou.
Já no topo, a paulista explicou que alguns visitantes chegaram a passar mal. "Ficamos lá em cima um pouco pra se acalmar, teve gente que passou mal, que desmaiou de nervosismo e tudo mais. Mas deu uns 10 minutos que a gente chegou lá em cima e já liberaram pra descer. Então foi um mix do pessoal usufruindo da experiência, mas também assustado com todo o barulho, com o helicóptero e tudo mais", revelou.
Por fim, Débora frisou que sentiu uma mistura de sentimentos. "Foi um mix de medo dos tiros, medo da altura, e querendo ou não, a vista tira o nosso ar, porque é muito bonita, não tem como negar. Vale a experiência, mas tipo, justo na minha vez? Foi uma experiência completa, eu diria", brincou.
A também paulistana Danielly Nobre, 25 anos, contou que foi supreendida pelos disparos já no alto do morro. Em sua terceira vez no Rio, ela tinha grande expectativa para realizar a trilha.
"A gente foi pego de surpresa! Já estávamos no topo quando a gente começou a ouvir o barulho de tiro e os guias já informando pra gente o que que estava acontecendo. Ele deixaram a gente bem calmos: 'Fiquem calmos, está tudo sob controle. Assim que for possível a gente vai descer'. Até passou o helicóptero da polícia e fez um sinal de calma. A gente chegou até a deitar um pouco, ficou todo mundo deitado com medo dos tiros", revelou.
Danielly relatou também como foi a saída da comunidade. "No final deu tudo certo. Desceu todo mundo em uma fila única, todo mundo ajudando e conseguimos finalizar a trilha, ver o sol nascer e viver essa adrenalina aí", disse.
Outra turista, a portuguesa Matilde Oliveira, acrescentou que os visitantes foram todos orientados a ficaram agachados em meio ao tiroteio.
"A maioria das pessoas estava levantando para tirar fotos, mas tiveram que se sentar. E, depois, a única coisa que nós ouvíamos era o tiroteio, mas estava do outro lado da pedra. Passou o helicóptero também, mas depois que passou estava tudo bem. Tinha gente assustada", contou.
Matilde relatou que deixou o local após orientação e que viu muita polícia na região. Ela acrescentou ainda que já havia ouvido falar sobre a insegurança do Rio, mas que apesar deste episódio, as boas experiências têm sido maioria.
"Nós tínhamos essa noção, de que tínhamos que ter cuidado, mas também não era algo em que não podíamos fazer nada e nem visitar nada. Havia muitas coisas também nas redes sociais, sobre conselhos do que fazer e o que não fazer. Temos essa noção, mas não é uma coisa que quando saímos de casa estamos sempre preocupados", disse.
A turista afirmou que a experiência negativa não afetou seu amor pela cidade. "Eu, até agora, estou a adorar e adorei a trilha. Foi um bocado íngreme e um bocado cansativa, mas eu adorei e as vistas são incríveis. Pelo menos, esta experiência não afetou assim muito, estou a adorar", finalizou.
Os turistas conseguiram deixar o local por volta das 7h20, após a situação ser controlada. A segurança foi reforçada com apoio de veículos blindados da Polícia Militar.
O Morro Dois Irmãos é um dos pontos turísticos mais procurados do Rio para apreciar o nascer do sol. Para chegar ao topo, visitantes fazem uma trilha que começa na comunidade do Vidigal e, ao final do percurso, são recompensados com uma vista privilegiada das orlas da Zona Sul. 

Com cerca de 1,5 km de extensão, o trajeto leva, em média, 40 minutos e alterna trechos íngremes com outros mais leves. A trilha é considerada de nível fácil a moderado.
Operação
Na comunidade, agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) atuam em em ação integrada com o Ministério Público do Estado da Bahia (MPBA) contra lideranças de organização criminosa do sul da Bahia, que estavam escondidas na comunidade do Vidigal.
Durante as buscas, foi presa uma da principais operadoras financeiras da facção baiana Primeiro Comando de Eunápolis (PCE), ligada ao Comando Vermelho.

Núbia Santos Oliveira é mulher de Wallas Souza Soares, conhecido como "Patola", um dos líderes do grupo junto com Ednaldo Pereira dos Santos, o 'Dada". Ela é investigada por lavagem de dinheiro e possuía dois mandados de prisão em aberto por tráfico de drogas e homicídio. Ainda na ação, um homem acabou detido em flagrante. Com ele, os agentes apreenderam um fuzil e drogas.
A medida é resultado de um trabalho contínuo e integrado de investigação e monitoramento do MPBA e das forças de segurança pública da Bahia e do Rio. O objetivo é prender 13 detentos que fugiram do Conjunto Penal de Eunápolis, em dezembro de 2024, e que, desde então, estão no Rio, sob a proteção do Comando Vermelho.

As investigações apontam que os alvos da operação, mesmo foragidos, continuam exercendo papel de liderança e comando à distância, articulando ações criminosas e mantendo vínculos com o tráfico de drogas e outros delitos. O monitoramento e as investigações continuarão de forma permanente até a captura de todos os fugitivos.