Taís Oliveira sofre com o luto de perder o irmão baleado em abordagem policialÉrica Martin / Agência O Dia

O comerciante Daniel Patrício Santos de Oliveira, de 29 anos, morto durante uma ação da Polícia Militar na madrugada desta quarta-feira (22), na Pavuna, estava prestes a deixar o estado em busca de mais segurança e qualidade de vida para a família. Segundo a irmã, Taís Oliveira, que conversou com a reportagem de O DIA, o empresário planejava se mudar com a família para Foz do Iguaçu, motivado pelo medo da violência e por uma perda recente na vida familiar com a esposa.
“Ele queria sair daqui. Queria dar uma vida melhor para a família, com mais segurança. Em um lugar com qualidade de vida melhor que aqui. Esse era o plano dele”, disse Taís na porta do Instituto Médico-Legal (IML), onde reconheceu o corpo do irmão.

Daniel era proprietário de uma loja de produtos eletrônicos na própria Pavuna e conhecido na região, onde vivia desde a infância. Segundo a família, ele chegou ao bairro ainda criança e construiu ali toda a sua trajetória pessoal e profissional. Recentemente, havia comprado um carro, ainda não quitado, que utilizaria, inclusive, na mudança para o Sul do país.

Na noite anterior ao crime, Daniel estava em casa, jogando dominó com amigos, quando foi convidado para ir a um pagode. Já na madrugada, por volta das 3h, decidiu retornar após receber uma mensagem da esposa informando que a filha do casal não estava bem de saúde.

No trajeto de volta, ele dava carona a três amigos, todos moradores da região, incluindo um mecânico conhecido da família. Foi nesse momento que ocorreu a abordagem policial, que terminou com a morte do comerciante.

De acordo com o relato da irmã, não houve ordem de parada. “Ele sinalizou que ia parar, piscou o farol. As pessoas dentro do carro colocaram o corpo para fora, levantaram as mãos, gritaram que eram moradores. Mesmo assim, os policiais atiraram”, disse.

Tais afirma que Daniel foi atingido por 24 disparos de fuzil. O carro ficou com marcas de tiros no para-brisa e manchas de sangue no interior, além de vestígios também na via, na altura da Rua Dr. José Thomas.

A irmã da vítima afirmou que vizinhos relataram momentos de desespero durante a ação. A sequência intensa de disparos assustou quem estava na região, levando pessoas a se jogarem no chão para se proteger. Marcas de tiros também foram observadas em estruturas próximas, incluindo paredes nas imediações do Colégio Leão Veloso.

Taís contesta de forma enfática qualquer versão de confronto. “Não tinha arma, não tinha ameaça. Era um trabalhador voltando para casa com amigos. Não tem justificativa. Atiraram para matar”, afirmou.

Ela também destacou a contradição vivida dias antes da morte. Segundo contou, esteve recentemente no batalhão da área solicitando apoio para um projeto social e chegou a interagir de forma positiva com uma equipe policial durante a inauguração da iniciativa. “Nunca imaginei que poucos dias depois estaria no IML para reconhecer meu irmão”, disse.

Abalada, a irmã relatou o impacto da morte na família. “Minha mãe está sem chão, meu pai está sem chão. Eu não sei como vou explicar isso para o meu filho, que era apaixonado pelo tio”, desabafou.

Tais informou que o caso já foi comunicado à Defensoria Pública, à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e a órgãos de direitos humanos. A família pede investigação rigorosa, com acesso às imagens das câmeras corporais dos policiais e responsabilização dos envolvidos.

Daniel deixa esposa, uma filha pequena e uma família que agora tenta lidar com a perda enquanto busca respostas. Para Taís, a morte do irmão representa mais do que uma tragédia pessoal: “Ele queria sair da violência. E acabou sendo vítima dela antes de conseguir ir embora. O que a gente quer é justiça.", concluiu. Ainda não há a informação de velório e enterro de Daniel.

A Polícia Militar informou que agentes do 41º BPM (Irajá) efetuaram disparos durante a abordagem e instaurou procedimento interno para apurar as circunstâncias. Já a Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) conduz a investigação e realiza diligências para esclarecer o caso.