Exposição Casa Fluminense está em cartaz na Casa BrasilFilipe Aguiar / Divulgação
Para Melissa, o salão e a barbearia são, na verdade, centros de produção artística contemporânea. Esse fazer, que pulsa nos territórios, é também um dos maiores motores da economia criativa no Brasil: em 2025, o país registrou a abertura de quase 650 novos negócios de beleza por dia. O que nasce como expressão estética na favela se consolida como projeto de vida e emancipação financeira através da formalização.
"Cada cabeça é um mundo é uma pesquisa fotográfica e catalográfica sobre cortes e colorações de cabelo que circulam nas favelas do Rio de Janeiro. O trabalho se constrói como um arquivo das criações nas barbearias, sendo um dos principais símbolos de vaidade e autoestima masculina para a juventude periférica", afirma Melissa.
"A partir de retratos inspirados na lógica do 3x4, eu organizo esses cortes como variações dentro de um conjunto, o que permite observar como eles se repetem, se transformam e mudam de nome, de referência e de desenho. São estilos que não têm um registro formal, mas que circulam amplamente e vão sendo recriados a partir de técnicas como o uso da navalha, pigmentações e outros procedimentos", completa.
Mais do que tendências, esses elementos revelam um gesto de apropriação: signos historicamente associados ao consumo e ao status são ressignificados como linguagem e identidade por jovens que, muitas vezes, estiveram à margem desses códigos. O impacto transborda a estética: hoje, 94% desses novos empreendedores buscam a formalização via MEI, transformando a arte do corte em um instrumento de cidadania e acesso a direitos.
Com uma abordagem sensível e implicada nas dinâmicas desses territórios, Melissa constrói imagens que tensionam os regimes de visibilidade. Seus retratos não apenas documentam — afirmam a potência criativa, o afeto e a autonomia das culturas periféricas, confrontando narrativas estigmatizadas e ampliando o campo de representação.
O espaço se consolida como ponto de convergência entre linguagens, gerações e origens diversas. Para os curadores, a exposição é um convite para enxergar o estado além dos clichês, valorizando a economia viva que brota de cada território.




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