Primeiro contato de Edson com a pintura aconteceu no CAPS Raul SeixasPâmela Perez / IMAS Nise da Silveira

Rio - Internado pela primeira vez ainda na infância e marcado por anos de sofrimento psíquico e alcoolismo, Edson Antunes, de 63 anos, encontrou na arte uma forma de reconstruir a própria trajetória. Neste 18 de maio, Dia Nacional da Luta Antimanicomial, a história do artista simboliza os avanços da reforma psiquiátrica e do cuidado em liberdade no Brasil.
Hoje, Edson desenvolve pinturas, participa de oficinas terapêuticas e mantém um ateliê no Espaço Travessia, projeto ligado ao Instituto Municipal Nise da Silveira, no Engenho de Dentro, Zona Norte do Rio, que completa 10 anos em 2026. O local promove atividades culturais e ações de inclusão social voltadas a pessoas em sofrimento psíquico.
O artista também participa dos ateliês terapêuticos do Museu de Imagens do Inconsciente, onde realiza trabalhos em telas e também constrói artes em cerâmica.
O primeiro contato dele com a pintura aconteceu durante o acompanhamento no CAPS Raul Seixas, onde foi incentivado a expressar emoções no papel. A prática acabou se tornando uma ferramenta para lidar com questões emocionais.
"Tudo que me fazia mal eu passei para a tela. Quando você enxerga aquilo que te incomoda, encontra um jeito de batalhar contra isso. A arteterapia não cura, mas dá direção. Ela ensina a sobreviver ao que surge dentro da gente", afirmou.
Casado e pai de dois filhos, Edson diz que a família representa sua maior conquista após anos de instabilidade. Além da produção artística, ele também participa de atividades em escolas e projetos sociais, utilizando o desenho como instrumento de escuta e expressão emocional.
"Minhas verdadeiras obras de arte hoje estão em casa: minha esposa e meus dois filhos. Eles me ensinam todo dia o que é amor. Mas hoje aqui no Nise da Silveira encontrei uma família, onde sou tratado como ser humano", conta Edson.
As obras do artista já foram exibidas em espaços como o Paço Imperial, no Rio, e a Escola de Belas Artes de Verona, na Itália, além de mostras em instituições culturais e espaços públicos brasileiros.
A trajetória de Edson atravessa dois momentos históricos da saúde mental brasileira: o modelo manicomial, baseado em longas internações psiquiátricas, e a reforma psiquiátrica, que passou a defender o tratamento humanizado e o cuidado em liberdade.
"Revisitar essa história é fundamental para refletirmos sobre outras possibilidades de cuidado, baseadas no respeito, na dignidade, na cidadania e no cuidado em liberdade", afirmou a diretora do Instituto Nise da Silveira, Erika Pontes.

Memorial da Loucura
No Instituto Municipal Nise da Silveira também está localizado um importante acervo histórico aberto ao público, composto por documentos, livros, prontuários, móveis e obras artísticas que retratam a história da psiquiatria no Brasil.
O Memorial da Loucura revela, por meio de objetos, documentos, relatos e experiências imersivas, as práticas da psiquiatria até a chegada das mudanças que começaram a ser implantadas pela médica psiquiatra Nise da Silveira, que defendia o tratamento humanizado e o cuidado em liberdade das pessoas com transtornos mentais.
O acervo funciona nas instalações originais do antigo manicômio, hoje transformadas em um espaço de exposição artística. O local também abriga uma loja com produtos confeccionados pelos próprios usuários, iniciativa que integra o Polo Ciclos de Geração de Renda e Trabalho e contribuem para a inclusão social e inserção dessas pessoas no mercado de trabalho. A visitação é aberta ao público, de terça à sábado, das 9h às 16h e às segundas-feira das 13h às 16h.

Festival
Para marcar o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, o Instituto Nise da Silveira promove, entre os dias 20 e 22 de maio, a quarta edição do "Festival Nós na Luta". A programação contará com oficinas, rodas de conversa, atividades culturais e debates sobre saúde mental e reforma psiquiátrica.
Neste ano, o evento também lembra os 25 anos da Lei 10.216, considerada um marco da reforma psiquiátrica brasileira ao substituir o modelo manicomial por uma rede de atenção psicossocial baseada em acolhimento e direitos dos pacientes.
Programação do festival
19 de maio - 9h30 às 11h30
Aula Magna com Paulo Amarante
Local: Auditório Cetape
14h às 17h
Visita Guiada
Local: Cetape
20 de maio - 9h às 9h30
Contação de histórias
Local: Memorial da Loucura
9h30 às 12h
Planetário móvel e lançamento de foguetes
Local: Ginásio do Polo Esportivo

10h às 12h
Biodanza (PICS)
Local: Bosque Dona Ivone Lara

13h às 14h
"Ambulatório em: Retratos - Contando Nossas Histórias"
Local: Espaço Travessia

14h às 14h20
Teatro "Os Inumeráveis: O amor maior ou poderia dizer a história Do Mar Sem Ondas"
Local: Espaço Travessia

14h20 às 15h
Ballet Osun
Local: Espaço Travessia

15h às 16h
Roda de conversa com os artistas
Local: Espaço Travessia

21 de maio - 9h às 18h
"Um dia de Poesia: 10 anos de Travessia"
Programação com shows, oficinas, teatro, música, cordel, lançamento de livros, sarau e outras atividades em comemoração aos 10 anos do Espaço Travessia.
Local: Espaço Travessia

22 de maio - 9h às 12h
Mesa de debate "Lei 10.216/2001: 25 anos de uma lei viva"
Local: Auditório Cetape

14h às 17h
Encontro de Rodas de Samba da Saúde Mental
Loucura Suburbana convida: CAPSad Paulo da Portela, CAPS Dircinha e Linda Batista, CAPS Rubens Corrêa e CAPSad Dona Ivone Lara
Local: Memorial da Loucura

25 de maio - 9h às 17h
Abertura do VI Campeonato de Futebol da RAPS Carioca, organizado pelo Centro de Convivência Trilhos do Engenho
Local: Vila Olímpica do Encantado